Preparar um chá costuma parecer um dos hábitos mais simples do dia: aquecer a água, mergulhar o sachê e esperar alguns minutos. Mas, quando a embalagem contém uma malha plástica, a infusão pode carregar substâncias que não aparecem na lista de ingredientes. Um estudo realizado na Turquia identificou centenas a milhares de partículas de microplástico por xícara preparada com alguns desses sachês.
Os pesquisadores também detectaram bisfenol A, conhecido como BPA, e compostos utilizados como plastificantes. A presença dessas substâncias acrescenta outra dimensão ao problema: além das partículas, importa saber quais produtos químicos chegam à bebida e em que quantidade.
O que os pesquisadores encontraram
Necla Pehlivan e Kenan Gedik, da Universidade Recep Tayyip Erdogan, analisaram 28 marcas de chá. A amostra incluiu quatro marcas com sachês plásticos, dez com embalagens semelhantes a papel, à base de celulose, e outras 14 que comercializam folhas soltas.
A comparação buscou distinguir a contaminação associada às embalagens daquela que já poderia estar presente nas folhas, por exposição ambiental ou durante o processamento.
Segundo o estudo publicado na revista npj Science of Food, algumas das marcas com sachês plásticos liberaram, em média, entre 555 e 2.498 partículas de microplástico por xícara.
Os pesquisadores prepararam as infusões com água a aproximadamente 95 °C. Já as folhas vendidas a granel passaram por tratamento químico para permitir a identificação das partículas presentes no próprio material.
Depois, a equipe empregou espectroscopia no infravermelho e técnicas de cromatografia para investigar os materiais e os compostos químicos encontrados.
A preocupação vai além dos fragmentos
Entre as substâncias detectadas estavam o BPA e plastificantes do grupo dos ortoftalatos. Esses compostos estão associados à fabricação de materiais plásticos e podem interferir no funcionamento do sistema hormonal.
O bisfenol A, em particular, é conhecido por sua atividade de desregulação endócrina.
Na avaliação dos autores, a exposição estimada por uma xícara poderia alcançar 21,7% da ingestão diária tolerável de BPA definida pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos, a EFSA.
Isso não significa que a bebida tenha ultrapassado sozinha o limite diário utilizado na análise. O resultado indica, porém, que uma única fonte poderia representar uma parcela relevante dessa referência, antes de considerar outras exposições ao longo do dia.
Os autores destacaram a importância do achado para grupos vulneráveis, como gestantes e crianças.
O risco estimado depende da substância e do consumo
Apesar da detecção de compostos preocupantes, os pesquisadores classificaram como desprezíveis os riscos não cancerígenos estimados nas condições avaliadas, incluindo efeitos endócrinos e toxicidade reprodutiva.
A análise apresentou uma ressalva para o DEHP, sigla de um dos ftalatos identificados. Para esse composto, a estimativa de risco de câncer no longo prazo levantou preocupação, especialmente em cenários de consumo elevado e prolongado.
É importante separar os resultados: identificar uma substância e calcular um risco com base na exposição não equivale a demonstrar que os consumidores desenvolveram uma doença. O trabalho analisou amostras de chá e estimativas de exposição, sem acompanhar a saúde de pessoas ao longo dos anos.
Chá a granel também apresentou partículas
As folhas soltas não estavam completamente livres de microplásticos. Nesse grupo, os pesquisadores estimaram concentrações entre 146 e 1.178 partículas por quilo de chá seco.
A unidade faz diferença. Esses valores correspondem a um quilo de folhas, enquanto os números dos sachês plásticos se referem a uma única xícara. Uma porção habitual utiliza aproximadamente dois gramas de chá.
Os resultados apontam para fontes de contaminação que vão além da embalagem. Os autores citaram acúmulo ambiental, contato com máquinas durante a produção e partículas presentes no ar como possíveis caminhos.
Entretanto, as folhas a granel e as infusões passaram por procedimentos diferentes de análise. Portanto, os números não representam uma comparação direta entre bebidas prontas.
O estudo não conseguiu contar as menores partículas
Outra limitação está no tamanho dos fragmentos identificados. Os equipamentos contabilizaram apenas partículas maiores que 100 micrômetros. Microplásticos menores e nanoplásticos podem ter escapado da análise.
Assim, os resultados não descrevem toda a possível contaminação das amostras, nem permitem concluir que todas as marcas liberem as mesmas quantidades.
Ainda assim, os autores defenderam maior fiscalização sobre a estabilidade térmica dos polímeros e adesivos utilizados na fabricação de sachês. Afinal, uma embalagem feita para permanecer em água quente precisa manter sua integridade justamente durante esse uso.