Cometas carregam gelo, poeira, rochas e moléculas orgânicas. Essa combinação alimentou uma hipótese atraente: alguns desses viajantes poderiam ter atingido a Terra primitiva e entregado ingredientes para o surgimento da vida. Um novo estudo, porém, aponta um obstáculo físico. A velocidade e o ângulo de chegada tornariam extremamente difícil preservar essas moléculas durante a passagem pela atmosfera e o impacto.
A questão não é se cometas atingiram nosso planeta. O problema é saber quanto de sua carga química conseguiria chegar intacta e se acumular em quantidade suficiente para participar das reações que antecederam a vida.
Carregar moléculas não garante que elas sobrevivam
Descritos pela Nasa como “bolas de neve cósmicas”, os cometas contêm compostos com carbono e nitrogênio, elementos importantes para a química dos seres vivos.
Mas transportar esses materiais pelo espaço é apenas uma parte do caminho. Ao encontrar a Terra, o cometa precisa atravessar a atmosfera e colidir com a superfície. Nessas etapas, temperaturas e pressões extremas podem destruir moléculas frágeis.
Segundo o estudo publicado na Scientific Reports, as condições típicas de chegada dos cometas tornam improvável uma contribuição expressiva de moléculas preservadas para a química prebiótica — o conjunto de processos químicos que antecedeu o aparecimento da vida.
Richard Anslow, astrônomo da Universidade de Cambridge e autor principal do trabalho, descreveu a hipótese como uma ideia romântica. Seus resultados, entretanto, indicam que esse mecanismo dificilmente teria funcionado da maneira imaginada.
O limite de velocidade já era um problema
A investigação dá continuidade a um trabalho de 2023, no qual Anslow e seus colegas estudaram se cometas poderiam entregar ingredientes da vida a planetas de outros sistemas estelares.
Naquela análise, a equipe identificou uma condição importante: a chegada precisaria ocorrer a velocidades inferiores a aproximadamente 15 quilômetros por segundo. Acima disso, a violência e o aquecimento do impacto comprometeriam a sobrevivência das moléculas.
Sistemas com planetas próximos uns dos outros poderiam favorecer esse cenário. As interações gravitacionais permitiriam que um cometa passasse entre diferentes órbitas e perdesse velocidade antes de uma eventual colisão.
Depois, os pesquisadores voltaram a atenção para uma pergunta mais próxima: algo semelhante poderia ter acontecido na Terra?
As simulações acompanharam uma molécula específica
Para avaliar essa possibilidade, a equipe modelou o comportamento do cianeto de hidrogênio, um composto encontrado com frequência em cometas do Sistema Solar e relevante para estudos sobre química prebiótica.
Os cálculos reuniram modelos de impactos, interações com a atmosfera e evolução dos cometas. Os resultados indicaram que preservar o composto exigiria uma combinação muito restrita de velocidade e ângulo de entrada.
Mesmo que parte das moléculas sobrevivesse, ainda seria necessário concentrá-las em um ambiente adequado. Depois disso, as reações químicas precisariam avançar antes que os ingredientes se dispersassem ou fossem destruídos.
Em um comunicado da Universidade de Cambridge, Anslow afirmou que seria preciso um acontecimento excepcional. A sobrevivência à colisão representaria apenas o primeiro de vários obstáculos.
A própria Terra pode ter produzido mais ingredientes
O trabalho compara duas grandes possibilidades para o fornecimento de moléculas prebióticas. Uma envolve materiais vindos do espaço, transportados por cometas, asteroides e poeira interplanetária. A outra considera sua formação no próprio planeta, por reações na atmosfera.
Segundo os pesquisadores, a quantidade global de cianeto de hidrogênio entregue intacto por cometas ficaria várias ordens de grandeza abaixo daquela que a atmosfera terrestre poderia produzir, mesmo sob condições pouco favoráveis.
Isso enfraquece o papel dos cometas como fonte dominante desse ingrediente. Porém, não resolve toda a discussão sobre a origem da vida. A equipe reconhece que ainda existem evidências conflitantes sobre os caminhos de produção das moléculas na Terra primitiva.
Além disso, os resultados se concentram especialmente no cianeto de hidrogênio. Eles não demonstram que todos os compostos orgânicos se comportariam exatamente da mesma maneira.
Asteroides e Marte continuam na discussão
O estudo também não elimina todas as formas de entrega de material extraterrestre. Asteroides atingiram a Terra com mais frequência que cometas e continuam entre as possibilidades investigadas.
Marte apresenta outro cenário potencialmente relevante. Por ser menor e ter uma atmosfera muito mais fina, o planeta poderia oferecer condições mais favoráveis à sobrevivência de moléculas transportadas por cometas, segundo Anslow.
Essa possibilidade, contudo, permanece em aberto. O estudo não demonstra que cometas tenham levado os ingredientes da vida a Marte, nem que a vida tenha surgido ali.
A pesquisa acrescenta uma exigência importante à hipótese da entrega cósmica: encontrar moléculas orgânicas em um cometa não basta. É preciso explicar como elas sobreviveriam à chegada, onde se acumulariam e se sua quantidade seria suficiente para alimentar a química que deu origem à vida.