Durante quase duas décadas, a tela do smartphone se tornou a principal porta de entrada para o mundo digital. Mensagens, mapas, pesquisas, fotos e assistentes virtuais passam por aquele retângulo que consultamos dezenas de vezes ao dia. Agora, algumas das maiores empresas de tecnologia estão preparando uma alternativa bem mais discreta. E ela pode fazer com que a inteligência artificial deixe de morar dentro do celular para acompanhar literalmente tudo aquilo que vemos.
A próxima grande aposta da Samsung não cabe exatamente no bolso
Samsung, Google e Qualcomm trabalham em uma nova geração de óculos inteligentes projetada para integrar inteligência artificial à rotina sem exigir que o usuário consulte constantemente uma tela.
A ideia foi antecipada pela Samsung durante um evento Galaxy Unpacked realizado em Londres e representa uma estratégia diferente daquela adotada pelos grandes headsets de realidade virtual e realidade mista.
Em vez de colocar um equipamento volumoso sobre a cabeça, a proposta é aproximar a tecnologia da aparência de óculos convencionais.
Esse detalhe pode ser fundamental.
Uma das grandes dificuldades enfrentadas pelos dispositivos de realidade aumentada sempre foi convencer as pessoas a utilizá-los fora de casa. Peso, autonomia, aparência e preço transformaram muitos desses produtos em equipamentos de nicho.
Samsung e Google querem seguir outro caminho.
O projeto envolve também empresas conhecidas no mercado de óculos, como Gentle Monster e Warby Parker. A intenção é combinar tecnologia avançada com formatos suficientemente discretos para serem utilizados durante horas.
Mas o elemento realmente importante estará praticamente invisível.
Gemini pode transformar os óculos em um assistente que enxerga o mundo

A inteligência artificial Gemini, do Google, deverá ocupar uma posição central na experiência.
Por ser multimodal, o sistema consegue trabalhar com diferentes tipos de informação. Isso significa que os óculos poderiam combinar aquilo que suas câmeras observam com comandos de voz, sons captados pelos microfones e informações disponíveis nos serviços digitais do usuário.
Na prática, a interação com a tecnologia deixaria de depender exclusivamente de tocar em ícones.
Imagine caminhar por uma cidade desconhecida e receber orientações de navegação por áudio sem precisar olhar constantemente para um mapa. Ou observar um cardápio escrito em outro idioma e pedir à inteligência artificial que interprete seu conteúdo.
A mesma lógica poderia ser aplicada a placas, objetos e diferentes elementos presentes no campo de visão.
As possibilidades mencionadas incluem tradução de conversas em tempo real, envio de mensagens, criação de compromissos no calendário e obtenção de informações contextuais sem precisar retirar o smartphone do bolso.
O celular não desapareceria imediatamente. Inicialmente, os óculos provavelmente funcionariam como uma extensão dele.
Mas essa relação pode mudar com o tempo.
A inteligência artificial quer deixar de ser um aplicativo
Existe uma transformação maior escondida por trás desse projeto.
Hoje, interagir com uma inteligência artificial normalmente exige uma ação consciente. É preciso abrir um aplicativo, entrar em um site, tocar em um botão ou iniciar uma conversa.
Os óculos inteligentes apontam para outro modelo: a chamada inteligência ambiental.
Nesse cenário, a tecnologia permanece disponível continuamente e interpreta o contexto ao redor do usuário. Em vez de perguntarmos tudo manualmente, o sistema pode compreender melhor onde estamos, o que estamos observando e qual informação pode ser útil naquele momento.
É justamente por isso que os óculos podem funcionar como uma espécie de porta de entrada para uma nova fase da IA.
A mudança ocorre em um momento em que ferramentas de inteligência artificial generativa já avançam rapidamente entre os consumidores.
Na Colômbia, por exemplo, dados apresentados no artigo original indicam que 24,5% da população ativa em idade laboral utiliza regularmente ferramentas de IA generativa. O percentual supera a média mundial mencionada, de 17,8%.
Colocar essa tecnologia em um objeto utilizado durante horas poderia acelerar ainda mais essa adoção.
Porém, existe um obstáculo difícil de ignorar.
Óculos que enxergam e escutam também levantam uma enorme questão
Para entender o ambiente, um dispositivo desse tipo depende justamente de componentes capazes de observar e ouvir aquilo que acontece ao redor.
Câmeras e microfones são essenciais para muitas das funções prometidas, mas também colocam a privacidade no centro da discussão.
O problema não envolve apenas quem está utilizando os óculos. Pessoas próximas também podem ser captadas pelas câmeras ou microfones, muitas vezes sem saber exatamente quando o equipamento está registrando ou analisando informações.
Fabricantes terão de deixar claro quais dados são processados, onde esse processamento acontece, durante quanto tempo as informações permanecem armazenadas e quais controles estarão disponíveis.
Além disso, autonomia da bateria, conforto, preço e design serão decisivos para determinar se os consumidores realmente aceitarão utilizar esses equipamentos durante boa parte do dia.
Ainda é cedo para saber se os óculos inteligentes conseguirão fazer aquilo que tantas outras tecnologias prometeram: reduzir nossa dependência das telas.
Mas Samsung e Google parecem apostar que a próxima revolução digital não acontecerá necessariamente dentro de um aparelho que carregamos no bolso.
Ela pode estar acontecendo diante dos nossos olhos.
[Fonte: Red mas]