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Coronel Michael Randrianirina: do cárcere ao poder, o militar que lidera a nova virada política em Madagascar

Após semanas de protestos liderados pela Geração Z, o coronel Michael Randrianirina tomou o controle de Madagascar. Ex-prisioneiro político e antigo aliado do ex-presidente Andry Rajoelina, ele dissolveu as instituições e prometeu eleições apenas daqui a dois anos, reacendendo temores de um novo ciclo de autoritarismo.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A instabilidade política voltou a tomar conta de Madagascar. O coronel Michael Randrianirina, de 51 anos, assumiu o poder no país do Oceano Índico depois que o presidente em exercício fugiu, pressionado por manifestações massivas lideradas por jovens. O movimento, impulsionado pela chamada Geração Z, denunciava corrupção, desemprego e repressão policial, forçando uma das mais abruptas mudanças de poder da história recente da ilha.

O retorno de um velho nome do Exército

Randrianirina não é um desconhecido na política malgaxe. Membro do CAPSAT — o Corpo de Administração de Pessoal e Serviços do Exército de Terra, unidade de elite das forças armadas —, ele participou indiretamente do golpe de 2009 que levou o então apresentador de TV Andry Rajoelina à presidência. Ironia do destino, foi o mesmo Rajoelina quem ele viria a desafiar anos depois.

Quando o coronel assumiu o poder nesta semana, anunciou imediatamente a suspensão de todas as principais instituições do país: o Senado, a Comissão Eleitoral e o Tribunal Constitucional — que havia validado sua própria posse como presidente interino. Segundo ele, Madagascar precisará de até dois anos de “transição militar e estabilidade” antes da realização de novas eleições.

Essas medidas foram interpretadas como o início de um regime autoritário, embora Randrianirina tenha garantido que “não se trata de um golpe, mas de um resgate da vontade popular”.

Do motim à prisão — e à ascensão

A trajetória recente do coronel é marcada por tensões com o poder central. Em novembro de 2023, Randrianirina foi preso sob acusação de instigar um motim dentro do Exército. Em apenas um dia, ele foi julgado, condenado e encarcerado por “atentado à segurança do Estado”.

Três meses depois, em fevereiro de 2024, o militar foi libertado após receber uma pena suspensa e retornou ao CAPSAT. O episódio o transformou em símbolo de resistência entre parte da população, especialmente entre jovens descontentes com o governo de Rajoelina.

A virada decisiva ocorreu em 11 de outubro deste ano, quando, com os protestos da Geração Z em pleno crescimento, Randrianirina publicou um vídeo nas redes sociais pedindo que as forças de segurança “recusassem ordens injustas” e não abrissem fogo contra civis. O apelo repercutiu profundamente. Soldados de sua própria unidade aderiram às manifestações — um movimento que precipitou o colapso do governo.

Um líder entre o passado militar e a esperança popular

Nascido na vila de Sevohipoty, na região árida de Androy, no extremo sul de Madagascar, Michael Randrianirina construiu sua carreira militar longe dos holofotes. Pouco se sabe sobre sua família ou juventude, mas ele ganhou destaque político ao ser nomeado governador de Androy entre 2016 e 2018.

Posteriormente, comandou um batalhão de infantaria em Toliara até 2022, quando foi promovido a um cargo de liderança no CAPSAT. Seus colegas o descrevem como um oficial disciplinado, de fala direta e convicções nacionalistas, mas também como alguém avesso à elite política da capital.

Essa postura o transformou em uma figura ambígua: visto por uns como um reformador disposto a romper com décadas de corrupção, e por outros como um militar oportunista, pronto para repetir o roteiro de 2009.

A encruzilhada de Madagascar

Com a fuga do presidente e a ascensão de Randrianirina, Madagascar mergulha novamente em um cenário de incerteza. A população, majoritariamente jovem, vê na atual crise uma chance de mudança — mas teme o retorno de um regime militar prolongado.

Organizações internacionais, incluindo a União Africana, ainda avaliam se o episódio configura um golpe de Estado. Enquanto isso, as ruas de Antananarivo seguem cheias de manifestantes pedindo “liberdade e futuro”, enquanto o novo líder promete “ordem e reconstrução”.

O destino do país dependerá de qual dessas forças — a da juventude ou a dos quartéis — prevalecerá nos próximos meses.

 

[ Fonte: CNN Brasil ]

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