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Se o doomscrolling virou vício, Meta, TikTok e Google estão no banco dos réus: o julgamento nos EUA que pode mudar as redes sociais

Um processo nos Estados Unidos acusa gigantes da tecnologia de projetar deliberadamente suas plataformas para viciar usuários. O caso ganhou proporções históricas e pode abrir caminho para milhares de ações semelhantes. Mas as empresas negam tudo — e dizem que a responsabilidade é individual.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Se você já abriu o Instagram ou o TikTok “por cinco minutos” e, quando percebeu, uma hora tinha passado, você já experimentou o doomscrolling. Esse fluxo infinito de vídeos e conteúdos, pensado para nunca acabar, está agora no centro de um julgamento histórico nos Estados Unidos — com Meta, TikTok e Google enfrentando acusações graves sobre o impacto de seus produtos na saúde mental.

O caso que levou as big techs ao tribunal

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© https://x.com/EFEnoticias/

Tudo começou com a denúncia de Kaley, uma jovem de 20 anos que acusa plataformas como Instagram, YouTube e TikTok de terem contribuído para uma dependência digital iniciada ainda na infância.

Segundo o processo, o problema não é apenas o conteúdo, mas o design das plataformas. Recursos como rolagem infinita, reprodução automática de vídeos e algoritmos altamente personalizados teriam sido criados intencionalmente para manter o usuário preso o máximo de tempo possível.

Kaley afirma que chegou a passar até 16 horas por dia no Instagram — um comportamento que, segundo ela, afetou diretamente sua saúde mental e física.

Por que esse julgamento é diferente

Embora existam milhares de processos semelhantes — mais de 2.000, segundo reportagens da BBC — este caso se destaca por ser um dos primeiros a chegar a julgamento com um júri.

A comparação que muitos especialistas fazem é com os processos contra a indústria do tabaco nos anos 1990, que revelaram práticas internas e mudaram a forma como essas empresas eram reguladas.

Agora, a pergunta central é parecida: até que ponto as empresas são responsáveis por produtos que podem causar dependência?

A acusação: design pensado para prender

Durante o julgamento, foram apresentados documentos internos da Meta que reforçam a tese da acusação. Em alguns deles, funcionários chegaram a brincar que o Instagram era como uma droga — e que eles seriam os “fornecedores”.

Para os advogados da acusação, isso não é coincidência. Eles argumentam que as plataformas utilizam princípios de psicologia comportamental para maximizar o engajamento, explorando vulnerabilidades humanas como busca por recompensa, validação social e estímulos constantes.

Na prática, isso cria um ambiente onde parar de consumir conteúdo exige esforço consciente — algo cada vez mais raro no uso cotidiano das redes.

A defesa: “não é vício clínico”

As empresas, por outro lado, rejeitam a ideia de que seus produtos sejam responsáveis por dependência.

Adam Mosseri, chefe do Instagram, afirmou durante o julgamento que redes sociais não são “clinicamente viciantes” e comparou o uso excessivo a maratonar séries de TV.

A defesa também destaca que as plataformas já implementaram ferramentas para incentivar o uso consciente, como alertas de tempo de tela, pausas automáticas e controles parentais.

Para as big techs, o argumento central é claro: o usuário tem autonomia sobre como utiliza os aplicativos.

O ponto-chave: conteúdo vs. design

Um dos aspectos mais importantes do caso é a estratégia jurídica adotada pela acusação.

Historicamente, empresas de tecnologia têm sido protegidas pelo chamado Artigo 230 da Lei de Decência nas Comunicações dos EUA, que as isenta de responsabilidade pelo conteúdo publicado por usuários.

Mas este processo tenta contornar essa proteção ao focar no design das plataformas — e não no conteúdo em si.

Se essa abordagem for aceita, pode abrir um precedente poderoso e permitir que milhares de outras ações avancem nos tribunais.

O que pode acontecer agora

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© X – @AlertaNews24

O veredito do júri pode sair a qualquer momento — mas mesmo uma vitória da acusação não garante mudanças imediatas.

Especialistas, como o professor Glenn Cohen, da Faculdade de Direito de Harvard, afirmam que o caso pode enfrentar dificuldades em instâncias superiores e até ser revertido em apelação.

Ainda assim, o impacto simbólico já é significativo. O julgamento coloca em debate público o papel das redes sociais na vida cotidiana — especialmente entre jovens.

Um debate que está longe de acabar

Nos últimos anos, cresce o questionamento sobre os efeitos das redes sociais na saúde mental. Países como Austrália já proibiram o uso dessas plataformas por menores de 16 anos, e outras nações, como Dinamarca e Espanha, discutem medidas semelhantes.

Paradoxalmente, o uso dessas redes continua em alta.

O julgamento nos Estados Unidos não é apenas sobre uma jovem e sua experiência. É sobre um modelo de negócio baseado na atenção — e sobre até que ponto ele pode ir sem ultrapassar limites éticos.

No fim das contas, a questão permanece: estamos no controle das redes sociais ou elas estão no controle de nós?

 

[ Fonte: Xataka ]

 

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