Os conservantes alimentares desempenham um papel importante na segurança dos alimentos modernos. Eles ajudam a impedir a proliferação de bactérias, fungos e outros microrganismos, aumentando a vida útil de produtos que chegam diariamente aos supermercados.
Mas uma nova pesquisa conduzida por cientistas franceses sugere que alguns desses ingredientes podem ter um custo oculto para a saúde cardiovascular.
O estudo, publicado no European Heart Journal, analisou os hábitos alimentares de mais de 112 mil pessoas ao longo de aproximadamente oito anos e encontrou associações entre determinados conservantes e um risco maior de hipertensão, infarto e acidente vascular cerebral.
Embora os pesquisadores alertem que ainda não é possível afirmar uma relação direta de causa e efeito, os resultados são considerados relevantes o suficiente para justificar novas investigações e uma possível reavaliação regulatória.
Um dos maiores estudos já realizados sobre o tema
A pesquisa utilizou dados do projeto NutriNet-Santé, um amplo estudo de acompanhamento populacional realizado na França.
Os participantes informam regularmente seus hábitos alimentares, estilo de vida e condições de saúde por meio de questionários detalhados. Além disso, eventos médicos importantes são confirmados por registros clínicos e sistemas de seguro-saúde.
A investigação foi liderada por Anaïs Hasenböhler, pesquisadora de doutorado do Centro de Pesquisa em Epidemiologia Nutricional da França, sob supervisão de especialistas do Instituto Nacional Francês de Saúde e Pesquisa Médica, conhecido como Inserm.
O objetivo era verificar se a ingestão frequente de conservantes alimentares poderia estar associada a problemas cardiovasculares ao longo do tempo.
Os aditivos que mais chamaram atenção
Os pesquisadores analisaram dois grandes grupos de conservantes.
O primeiro inclui antioxidantes utilizados para evitar o escurecimento dos alimentos ou impedir que gorduras se tornem rançosas. O segundo engloba conservantes destinados a combater bactérias, fungos e outros microrganismos responsáveis pela deterioração dos produtos.
Os resultados mostraram que pessoas com maior consumo de conservantes antioxidantes apresentavam um risco 22% maior de desenvolver hipertensão em comparação com aquelas que consumiam menores quantidades.
Já os participantes com maior ingestão de conservantes não antioxidantes apresentavam risco 29% superior de hipertensão e 16% maior probabilidade de desenvolver problemas cardiovasculares, como infarto e AVC.
Ao aprofundar a análise, os cientistas identificaram oito aditivos específicos associados ao aumento do risco de pressão alta:
- Sorbato de potássio
- Metabissulfito de potássio
- Nitrito de sódio
- Ácido ascórbico
- Ascorbato de sódio
- Eritorbato de sódio
- Ácido cítrico
- Extratos de alecrim
Entre eles, o ácido ascórbico também apresentou associação com maior risco de doenças cardiovasculares.
O estudo não prova que os aditivos causam a doença
Apesar dos resultados chamarem atenção, os próprios autores destacam uma limitação importante.
Trata-se de um estudo observacional.
Isso significa que os pesquisadores observaram padrões e associações, mas não podem afirmar que os conservantes sejam diretamente responsáveis pelos problemas cardíacos encontrados.
É possível que outros fatores influenciem os resultados, embora a equipe tenha realizado ajustes estatísticos para considerar variáveis como idade, hábitos alimentares, atividade física e condições de saúde pré-existentes.
Mesmo assim, os cientistas consideram os dados suficientemente robustos para justificar novos estudos.
O que pode estar acontecendo no organismo
A equipe agora pretende investigar os mecanismos biológicos que poderiam explicar essa associação.
Uma das hipóteses envolve processos inflamatórios crônicos provocados por determinados conservantes.
Outra possibilidade é que essas substâncias alterem a composição da microbiota intestinal, influenciando indiretamente fatores relacionados à pressão arterial, ao metabolismo e à saúde cardiovascular.
Pesquisas futuras deverão explorar essas possibilidades em maior profundidade.
O problema pode estar nos ultraprocessados
Os pesquisadores ressaltam que os conservantes estão presentes em uma enorme variedade de produtos e não existe uma única categoria de alimento que possa ser eliminada para resolver o problema.
Ainda assim, os resultados reforçam recomendações já adotadas por diversos órgãos de saúde.
A principal delas é priorizar alimentos frescos ou minimamente processados e reduzir o consumo de produtos ultraprocessados sempre que possível.
Segundo os autores, profissionais de saúde podem desempenhar um papel importante ao orientar a população sobre escolhas alimentares mais simples e menos dependentes de aditivos.
Até mesmo quem busca uma alimentação rica em vegetais deve prestar atenção.
Os pesquisadores recomendam dar preferência a verduras e legumes frescos ou congelados, que geralmente são preservados pelo frio, evitando a necessidade de grandes quantidades de conservantes químicos.
Embora ainda não existam respostas definitivas, o estudo acrescenta novas evidências ao crescente debate sobre os efeitos dos alimentos ultraprocessados na saúde. E sugere que ingredientes considerados seguros há décadas podem merecer uma nova análise à luz dos conhecimentos atuais.