Pular para o conteúdo
Ciência

Oito aditivos presentes em alimentos comuns foram associados a maior risco de doenças cardíacas, e cientistas defendem revisão das regras de segurança

Conservantes usados diariamente em milhares de produtos industrializados podem estar ligados ao aumento da pressão arterial e do risco cardiovascular. Um estudo com mais de 100 mil pessoas identificou oito aditivos frequentemente consumidos que apresentaram associação com hipertensão e outros problemas cardíacos, reacendendo o debate sobre a segurança dos alimentos ultraprocessados.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

Os conservantes alimentares desempenham um papel importante na segurança dos alimentos modernos. Eles ajudam a impedir a proliferação de bactérias, fungos e outros microrganismos, aumentando a vida útil de produtos que chegam diariamente aos supermercados.

Mas uma nova pesquisa conduzida por cientistas franceses sugere que alguns desses ingredientes podem ter um custo oculto para a saúde cardiovascular.

O estudo, publicado no European Heart Journal, analisou os hábitos alimentares de mais de 112 mil pessoas ao longo de aproximadamente oito anos e encontrou associações entre determinados conservantes e um risco maior de hipertensão, infarto e acidente vascular cerebral.

Embora os pesquisadores alertem que ainda não é possível afirmar uma relação direta de causa e efeito, os resultados são considerados relevantes o suficiente para justificar novas investigações e uma possível reavaliação regulatória.

Um dos maiores estudos já realizados sobre o tema

A pesquisa utilizou dados do projeto NutriNet-Santé, um amplo estudo de acompanhamento populacional realizado na França.

Os participantes informam regularmente seus hábitos alimentares, estilo de vida e condições de saúde por meio de questionários detalhados. Além disso, eventos médicos importantes são confirmados por registros clínicos e sistemas de seguro-saúde.

A investigação foi liderada por Anaïs Hasenböhler, pesquisadora de doutorado do Centro de Pesquisa em Epidemiologia Nutricional da França, sob supervisão de especialistas do Instituto Nacional Francês de Saúde e Pesquisa Médica, conhecido como Inserm.

O objetivo era verificar se a ingestão frequente de conservantes alimentares poderia estar associada a problemas cardiovasculares ao longo do tempo.

Os aditivos que mais chamaram atenção

Os pesquisadores analisaram dois grandes grupos de conservantes.

O primeiro inclui antioxidantes utilizados para evitar o escurecimento dos alimentos ou impedir que gorduras se tornem rançosas. O segundo engloba conservantes destinados a combater bactérias, fungos e outros microrganismos responsáveis pela deterioração dos produtos.

Os resultados mostraram que pessoas com maior consumo de conservantes antioxidantes apresentavam um risco 22% maior de desenvolver hipertensão em comparação com aquelas que consumiam menores quantidades.

Já os participantes com maior ingestão de conservantes não antioxidantes apresentavam risco 29% superior de hipertensão e 16% maior probabilidade de desenvolver problemas cardiovasculares, como infarto e AVC.

Ao aprofundar a análise, os cientistas identificaram oito aditivos específicos associados ao aumento do risco de pressão alta:

  • Sorbato de potássio
  • Metabissulfito de potássio
  • Nitrito de sódio
  • Ácido ascórbico
  • Ascorbato de sódio
  • Eritorbato de sódio
  • Ácido cítrico
  • Extratos de alecrim

Entre eles, o ácido ascórbico também apresentou associação com maior risco de doenças cardiovasculares.

O estudo não prova que os aditivos causam a doença

Apesar dos resultados chamarem atenção, os próprios autores destacam uma limitação importante.

Trata-se de um estudo observacional.

Isso significa que os pesquisadores observaram padrões e associações, mas não podem afirmar que os conservantes sejam diretamente responsáveis pelos problemas cardíacos encontrados.

É possível que outros fatores influenciem os resultados, embora a equipe tenha realizado ajustes estatísticos para considerar variáveis como idade, hábitos alimentares, atividade física e condições de saúde pré-existentes.

Mesmo assim, os cientistas consideram os dados suficientemente robustos para justificar novos estudos.

O que pode estar acontecendo no organismo

A equipe agora pretende investigar os mecanismos biológicos que poderiam explicar essa associação.

Uma das hipóteses envolve processos inflamatórios crônicos provocados por determinados conservantes.

Outra possibilidade é que essas substâncias alterem a composição da microbiota intestinal, influenciando indiretamente fatores relacionados à pressão arterial, ao metabolismo e à saúde cardiovascular.

Pesquisas futuras deverão explorar essas possibilidades em maior profundidade.

O problema pode estar nos ultraprocessados

Os pesquisadores ressaltam que os conservantes estão presentes em uma enorme variedade de produtos e não existe uma única categoria de alimento que possa ser eliminada para resolver o problema.

Ainda assim, os resultados reforçam recomendações já adotadas por diversos órgãos de saúde.

A principal delas é priorizar alimentos frescos ou minimamente processados e reduzir o consumo de produtos ultraprocessados sempre que possível.

Segundo os autores, profissionais de saúde podem desempenhar um papel importante ao orientar a população sobre escolhas alimentares mais simples e menos dependentes de aditivos.

Até mesmo quem busca uma alimentação rica em vegetais deve prestar atenção.

Os pesquisadores recomendam dar preferência a verduras e legumes frescos ou congelados, que geralmente são preservados pelo frio, evitando a necessidade de grandes quantidades de conservantes químicos.

Embora ainda não existam respostas definitivas, o estudo acrescenta novas evidências ao crescente debate sobre os efeitos dos alimentos ultraprocessados na saúde. E sugere que ingredientes considerados seguros há décadas podem merecer uma nova análise à luz dos conhecimentos atuais.

Partilhe este artigo

Artigos relacionados