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Ciência

Cientistas analisaram 120 proteínas e encontraram um padrão no Alzheimer

Um novo estudo encontrou diferenças importantes entre homens e mulheres nas alterações provocadas por demências. O detalhe mais curioso envolve proteínas ligadas a uma resposta biológica específica.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Durante décadas, a pesquisa sobre Alzheimer buscou principalmente aquilo que os pacientes tinham em comum. Agora, um estudo realizado na Espanha acrescenta uma peça importante a esse quebra-cabeça. Ao analisar centenas de amostras e dezenas de proteínas, os pesquisadores encontraram padrões diferentes entre homens e mulheres. A descoberta pode ajudar a explicar parte da complexidade das demências e, no futuro, contribuir para diagnósticos e tratamentos mais personalizados.

Uma análise que procurou diferenças escondidas

O trabalho foi conduzido por pesquisadores do Hospital Clínic de Barcelona e do IDIBAPS. A equipe analisou amostras de sangue e líquido cefalorraquidiano de 359 pessoas, incluindo indivíduos cognitivamente saudáveis e pacientes diagnosticados com Alzheimer, demência com corpos de Lewy e demência frontotemporal.

Em vez de observar apenas um marcador, os cientistas analisaram um conjunto de 120 proteínas utilizando uma tecnologia de proteômica chamada NULISAseq.

O método permite detectar simultaneamente diversas proteínas, inclusive aquelas presentes em concentrações muito baixas.

Depois, os pesquisadores compararam os resultados levando em consideração não apenas o tipo de demência, mas também o sexo dos participantes.

Foi quando surgiu uma diferença particularmente interessante.

Os padrões encontrados na circulação sanguínea não eram exatamente iguais em homens e mulheres. E uma determinada categoria de proteínas apareceu com muito mais força nas mulheres.

A diferença mais forte apareceu na resposta inflamatória

Nos três tipos de demência analisados, as mulheres apresentaram um número maior de proteínas aumentadas relacionadas a processos inflamatórios.

Muitas dessas proteínas participam da sinalização de citocinas, moléculas utilizadas pelo organismo para comunicação entre células e para coordenar respostas imunológicas e inflamatórias.

O resultado chama atenção porque a inflamação já é considerada um dos processos importantes envolvidos nas doenças neurodegenerativas. O estudo sugere que esse componente pode não se manifestar exatamente da mesma maneira em homens e mulheres.

No líquido cefalorraquidiano, as diferenças também apareceram, embora fossem menos acentuadas.

Entre as proteínas encontradas em níveis diferentes estavam CCL26, ANXA5 e IL10, mais elevadas nas mulheres, enquanto IL9, PRDX6 e CX3CL1 apresentaram níveis superiores nos homens.

A descoberta não significa que exista uma versão masculina e outra feminina do Alzheimer. O que os pesquisadores encontraram são diferenças nos padrões moleculares associados à doença.

E há outro detalhe que torna os resultados ainda mais interessantes.

O que aparece no sangue não necessariamente aparece no cérebro

Quando a equipe comparou as proteínas identificadas no sangue com aquelas encontradas no líquido cefalorraquidiano, a correspondência foi relativamente baixa.

Isso sugere que o organismo pode apresentar respostas moleculares diferentes dependendo do compartimento analisado.

Na prática, a informação é importante para quem tenta desenvolver exames de sangue capazes de detectar doenças neurodegenerativas. Uma alteração encontrada na circulação não necessariamente representa de forma direta aquilo que está acontecendo no sistema nervoso central.

O estudo também identificou duas proteínas que merecem atenção especial.

A ICAM1, encontrada no líquido cefalorraquidiano, e a ANXA5, presente no plasma, apresentaram aumento consistente associado às três demências estudadas.

Isso levanta a possibilidade de que essas moléculas possam ser investigadas futuramente como biomarcadores capazes de indicar processos comuns a diferentes doenças neurodegenerativas.

Mas ainda há um longo caminho antes de transformar essas descobertas em um exame disponível nos hospitais.

A descoberta pode mudar a forma de pensar os tratamentos

As mulheres apresentam maior prevalência de Alzheimer, mas as diferenças biológicas entre os sexos historicamente receberam menos atenção na pesquisa.

Os novos resultados reforçam a possibilidade de que a inflamação tenha um peso diferente na doença dependendo do paciente.

Isso poderia, no futuro, ajudar pesquisadores a identificar grupos que respondem melhor a determinados tratamentos ou a desenvolver terapias direcionadas para vias biológicas específicas.

É importante, porém, não antecipar conclusões. Os resultados ainda precisam ser reproduzidos em outros grupos de pacientes e validados por estudos independentes.

O trabalho, publicado na revista Alzheimer’s Research & Therapy, representa principalmente mais uma peça no complexo quebra-cabeça das demências.

A principal mensagem é que talvez não seja suficiente procurar uma única assinatura biológica para todos os pacientes.

O Alzheimer pode envolver diferentes mecanismos, diferentes respostas do organismo e diferentes padrões moleculares.

E, se essa hipótese for confirmada por pesquisas futuras, o sangue poderá revelar não apenas quem está desenvolvendo a doença, mas também pistas sobre como ela se manifesta de maneira diferente em cada pessoa.

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