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Sem poder votar, Bolsonaro viu de casa o filho superar Lula no primeiro turno

Impedido de votar e cumprindo prisão domiciliar, Jair Bolsonaro acompanhou uma eleição decisiva para sua família enquanto Michelle relatava ansiedade e dias particularmente difíceis para o ex-presidente.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Pela primeira vez em décadas, Jair Bolsonaro assistiu a uma eleição presidencial brasileira sem poder comparecer às urnas. Dentro de casa, em Brasília, o ex-presidente acompanhou uma disputa que tinha um significado especialmente pessoal: seu filho Flávio tentava derrotar Lula e devolver o bolsonarismo ao Palácio do Planalto. Michelle Bolsonaro descreveu o marido como “ansioso, mas confiante”. Horas depois, as urnas entregariam à família um resultado importante.

Bolsonaro não pôde votar no próprio filho

A cena eleitoral de 2026 foi muito diferente daquela vivida por Jair Bolsonaro quatro anos antes. Desta vez, o ex-presidente não participou da votação porque seus direitos políticos estão suspensos em decorrência de sua condenação criminal definitiva.

Bolsonaro foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos e três meses de prisão no processo relacionado à trama golpista após a derrota eleitoral de 2022. Desde março de 2026, cumpre prisão domiciliar por razões de saúde, após receber autorização judicial para permanecer em sua residência.

Isso significou que, enquanto milhões de brasileiros compareciam às urnas no domingo, 4 de outubro, Bolsonaro permaneceu em casa.

A situação ganhou um componente ainda mais incomum porque um dos nomes na urna era justamente seu filho mais velho.

Flávio Bolsonaro havia sido escolhido pelo pai como seu sucessor político e candidato do PL à Presidência. O senador chegou ao primeiro turno enfrentando Lula em uma disputa que as pesquisas apontavam como bastante apertada.

“Está ansioso, mas está confiante”

Sem poder votar, Bolsonaro viu de casa o filho superar Lula no primeiro turno
© YouTube

Michelle Bolsonaro ofereceu uma das poucas descrições públicas de como o ex-presidente atravessou aquele domingo.

Depois de votar em Brasília, ela afirmou que o marido estava bem e acrescentou que ele se encontrava “ansioso, mas confiante” em relação ao resultado.

A ansiedade não havia começado naquele dia.

Nos últimos momentos da campanha, pessoas próximas à família relataram que Bolsonaro estava particularmente preocupado com a candidatura do filho. Michelle chegou a reduzir compromissos eleitorais para permanecer ao lado do marido e acompanhar sua rotina.

Dois dias antes da eleição, ela explicou que Bolsonaro vinha enfrentando “dias mais difíceis” e apresentava oscilações relacionadas à ansiedade.

Um relatório médico divulgado naquele período, entretanto, descrevia o quadro clínico do ex-presidente como estável. O documento mencionava acompanhamento domiciliar, pressão arterial controlada e redução dos episódios de soluço após mudanças na medicação.

Michelle, por sua vez, conciliava os cuidados com o marido com sua própria campanha. Em 2026, a ex-primeira-dama disputou pela primeira vez um cargo eletivo, concorrendo ao Senado pelo Distrito Federal.

Nem Flávio poderia entrar em casa para acompanhar a apuração

Havia outro detalhe que tornava a noite eleitoral particularmente peculiar.

Mesmo sendo candidato à Presidência e filho do ex-presidente, Flávio Bolsonaro não poderia simplesmente ir até a residência do pai para acompanhar a apuração.

Uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, havia imposto restrições às visitas e aos contatos políticos de Jair Bolsonaro. Em julho, o magistrado também proibiu Flávio de visitar o pai durante 90 dias, depois de o senador divulgar uma carta escrita pelo ex-presidente.

Michelle comentou a situação no próprio domingo e afirmou que Flávio deveria seguir para Brasília depois de votar no Rio de Janeiro, mas não poderia entrar na casa do pai.

A restrição mostrava uma situação inédita para a família Bolsonaro: o principal líder político do grupo acompanhava de longe uma campanha presidencial conduzida por seu sucessor, sem poder participar presencialmente de atos eleitorais nem receber o próprio candidato em casa.

As urnas trouxeram uma notícia importante para Bolsonaro

Quando a apuração avançou, ficou claro que Flávio havia conseguido algo que as principais pesquisas não antecipavam: terminou o primeiro turno na liderança.

Com praticamente todas as urnas apuradas, o candidato do PL conquistou cerca de 47% dos votos válidos, enquanto Lula terminou com pouco mais de 45%.

Nenhum dos dois atingiu a maioria absoluta, levando a eleição para o segundo turno, marcado para 25 de outubro.

A diferença entre os candidatos ficou pouco acima de dois milhões de votos. Embora insuficiente para encerrar a eleição, o resultado colocou Flávio em uma posição politicamente importante: ele entrou na etapa decisiva depois de superar o atual presidente na primeira votação.

Para Jair Bolsonaro, o significado vai além da disputa partidária.

Flávio construiu sua candidatura como herdeiro do movimento político liderado pelo pai, mas também tentou apresentar características próprias e ampliar sua capacidade de conquistar eleitores fora do núcleo mais fiel do bolsonarismo.

O futuro político e pessoal de Bolsonaro também está em jogo

O segundo turno terá consequências diretas para Jair Bolsonaro.

Durante a campanha, Flávio declarou que pretende trabalhar para libertar o pai caso seja eleito presidente. Qualquer tentativa nesse sentido, porém, envolveria questões jurídicas e constitucionais que não se resolvem simplesmente com uma promessa eleitoral.

Há também um desafio político maior.

A vitória de Flávio representaria a volta do bolsonarismo à Presidência sem Jair Bolsonaro como candidato. Uma derrota, por outro lado, abriria novas discussões sobre a capacidade do movimento de sobreviver eleitoralmente sem seu fundador diretamente nas urnas.

É por isso que aquela ansiedade descrita por Michelle tinha uma dimensão muito maior do que a expectativa natural de um pai pela candidatura do filho.

Jair Bolsonaro acompanhava de dentro de casa uma eleição na qual não podia votar, não podia concorrer e enfrentava restrições para participar da campanha. Ainda assim, poucas disputas poderiam ter consequências tão grandes para seu futuro.

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