A inteligência artificial acaba de protagonizar um dos casos políticos mais controversos do Brasil. Um vídeo criado por IA simulando o ex-presidente Jair Bolsonaro foi exibido durante o lançamento da campanha presidencial de seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, e agora está sendo analisado pela Justiça Eleitoral.
O episódio reacendeu o debate sobre o uso de deepfakes em campanhas políticas e pode até comprometer a candidatura de Flávio Bolsonaro, dependendo da interpretação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Deepfake de Bolsonaro apareceu em evento de campanha
No último sábado, uma projeção em grande escala de um Bolsonaro gerado por inteligência artificial foi exibida diante do público reunido para o lançamento da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro.
No vídeo, o clone digital afirma que está “preso e silenciado por uma decisão injusta e arbitrária” e pede apoio ao filho nas eleições presidenciais marcadas para 4 de outubro.
Em determinado momento, a versão criada por IA chama Flávio Bolsonaro de “carne da minha carne” e incentiva os eleitores a votarem nele.
O vídeo também informava explicitamente que se tratava de uma simulação produzida com inteligência artificial.
Logo na abertura, a mensagem dizia:
“O que você vê aqui não sou eu. Esta é uma simulação da minha imagem e da minha voz usando inteligência artificial.”
Bolsonaro afirma que não autorizou o uso da IA
Jair Bolsonaro está em prisão domiciliar desde março, após decisão do Supremo Tribunal Federal que manteve sua condenação relacionada à tentativa de golpe de Estado.
Entre as condições impostas pela Justiça está a proibição de utilizar redes sociais ou realizar comunicações públicas.
Por isso, surgiu a dúvida sobre uma possível autorização para a criação do vídeo.
O advogado Paulo Cunha Bueno afirmou, em publicação na rede X, que Bolsonaro não autorizou o uso de sua imagem nem de sua voz na produção do conteúdo.
Segundo o defensor, o ex-presidente sequer teria condições de conceder essa autorização, já que está impedido de receber visitas em razão das restrições impostas pela Justiça.
Justiça Eleitoral analisa possível violação das regras sobre deepfakes
Caso fique comprovado que Jair Bolsonaro realmente não autorizou a produção do vídeo, a responsabilidade poderá recair sobre a campanha de Flávio Bolsonaro.
A legislação do Tribunal Superior Eleitoral restringe o uso de deepfakes em campanhas políticas.
A equipe jurídica do senador sustenta que o vídeo respeitou as regras porque informava claramente ao público que a imagem havia sido gerada por inteligência artificial.
Agora, caberá ao TSE decidir se esse aviso é suficiente para enquadrar o material dentro da legislação eleitoral.
Segundo o Financial Times, caso a Justiça conclua que houve violação das normas, Flávio Bolsonaro poderá até ser declarado inelegível na disputa presidencial.
Caso coloca à prova as regras brasileiras para IA na política
O episódio representa um importante teste para a aplicação das normas brasileiras sobre inteligência artificial em campanhas eleitorais.
Especialistas alertam que os deepfakes podem facilitar a disseminação de desinformação ao permitir que políticos criem discursos e aparições digitais extremamente realistas.
Ao mesmo tempo, essas tecnologias também podem ser usadas como argumento para desacreditar vídeos ou imagens verdadeiras, alegando que seriam produtos da inteligência artificial.
Esse fenômeno, conhecido como “dividendo do mentiroso”, preocupa pesquisadores por dificultar a distinção entre conteúdos autênticos e falsificados.
Brasil e União Europeia exigem identificação de conteúdos gerados por IA
A regulamentação brasileira sobre deepfakes possui pontos em comum com a Lei de Inteligência Artificial da União Europeia (AI Act).
Em ambos os casos, conteúdos produzidos ou alterados por inteligência artificial devem trazer uma identificação clara informando sua origem.
Nos Estados Unidos, porém, ainda não existe uma regra federal equivalente que obrigue esse tipo de transparência para materiais criados por IA.
Com a popularização das ferramentas de geração de vídeo e voz, casos como o envolvendo Jair Bolsonaro tendem a se tornar cada vez mais frequentes, colocando novos desafios para autoridades eleitorais e para o combate à desinformação em processos democráticos.