O que acontece com o clima global se o gelo antártico continuar mudando? Como cientistas vivem durante uma expedição em um dos ambientes mais extremos da Terra? E quem determina as regras naquele continente? Agora, perguntas como essas podem ser feitas diretamente pelo WhatsApp. Uma nova ferramenta gratuita aposta em inteligência conversacional e em um personagem bastante apropriado para aproximar a ciência polar de quem nunca pisou perto da Antártida.
A ciência antártica agora responde perguntas pelo WhatsApp

O Instituto Milenio BASE desenvolveu um chatbot gratuito que funciona 24 horas por dia e permite conversar sobre a Antártida diretamente pelo WhatsApp.
A proposta é tornar o conhecimento científico mais acessível e, ao mesmo tempo, enfrentar um problema que também chegou às regiões polares: a desinformação.
A ferramenta integra o projeto Descongela el mito: Chatbot contra la desinformación polar, iniciativa criada para discutir mitos, notícias falsas e informações distorcidas relacionadas ao continente.
O objetivo não é simplesmente entregar respostas prontas.
O projeto também pretende estimular alfabetização digital, pensamento crítico e curiosidade científica, especialmente entre estudantes e jovens.
O chatbot pode responder perguntas sobre ecossistemas, mudanças ambientais, expedições científicas e diferentes aspectos da Antártida, utilizando conteúdos baseados em evidências e fontes acadêmicas.
A iniciativa conta ainda com um conselho científico que inclui pesquisadores como Elie Poulin e Julieta Orlando, ambos ligados à Universidade do Chile.
E para transformar essa conversa em algo menos parecido com uma enciclopédia digital, os criadores escolheram um personagem peculiar.
Quem responde é um dos habitantes mais importantes do oceano Antártico
Em vez de uma interface impessoal, o chatbot é representado por um krill antártico ilustrado pelo artista chileno Raúl Matus.
O pequeno crustáceo utiliza linguagem acessível para explicar temas que podem ser bastante complexos.
A escolha não poderia ser mais simbólica. Embora minúsculo, o krill desempenha papel fundamental no ecossistema antártico e serve de alimento para diversos animais, incluindo baleias, focas, peixes e aves marinhas.
Por meio desse personagem, usuários podem perguntar por que a Antártida é tão importante para o clima do planeta, como funciona uma expedição científica ou quais regras internacionais determinam o uso e a proteção do continente.
O chatbot também aborda história, legislação, literatura e até representações da região no cinema.
Segundo os responsáveis, a intenção é criar uma porta de entrada para pessoas sem conhecimento científico prévio.
Isso permite que professores, estudantes, jornalistas e curiosos tenham acesso rápido a explicações sobre temas polares sem precisar começar por artigos científicos especializados.
Mas as perguntas respondidas pela plataforma não foram escolhidas apenas dentro de laboratórios.
As dúvidas do público ajudaram a construir o chatbot
Parte do conteúdo nasceu diretamente do contato entre pesquisadores e a população.
Ao longo de feiras científicas, visitas a escolas e encontros públicos, integrantes do projeto registraram dúvidas e curiosidades recorrentes sobre a Antártida.

Essas perguntas ajudaram a definir os assuntos que deveriam aparecer na ferramenta.
A estratégia permite aproximar a divulgação científica daquilo que as pessoas realmente querem saber, em vez de simplesmente reproduzir uma lista de temas escolhidos por especialistas.
As respostas e materiais disponibilizados têm finalidade educativa e são elaborados com base em literatura científica, fontes acadêmicas e informações públicas.
O projeto também recebeu apoio de diferentes organizações ligadas à ciência, educação e divulgação, incluindo o Centro Nacional de Inteligência Artificial (CENIA), o Instituto Antártico Chileno (INACH), Wikimedia Chile e entidades relacionadas à juventude e à pesquisa polar.
A iniciativa é financiada pela Agência Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento por meio de um fundo dedicado à aproximação entre ciência e sociedade.
O chatbot, inclusive, já ultrapassou as fronteiras do país onde foi desenvolvido.
O projeto chegou a um dos principais encontros sobre ciência antártica
Em 13 de agosto, a iniciativa foi apresentada em Oslo, na Noruega, durante a XII Conferência de Ciência Aberta do Comitê Científico de Pesquisa Antártica, conhecido pela sigla SCAR.
O encontro reúne especialistas envolvidos com pesquisa e divulgação científica sobre a região polar.
A apresentação internacional ocorre enquanto o projeto entra em uma nova fase de divulgação.
Durante agosto, a estratégia está concentrada no ambiente digital. Para setembro e outubro estão previstas atividades presenciais e regionais, ampliando o contato com estudantes e diferentes comunidades.
Existe ainda um detalhe que o público poderá ajudar a decidir.
O krill que protagoniza as conversas ainda não possui um nome definitivo.
O pequeno cientista virtual ainda precisa de um nome
Os responsáveis abriram um concurso para batizar o personagem que representa o chatbot.
As propostas poderão ser enviadas até 8 de setembro, e os vencedores receberão um kit temático do Instituto Milenio BASE.
Mais do que uma brincadeira, a escolha do nome reforça a estratégia de transformar ciência em algo próximo e participativo.
É justamente aí que está uma das ideias mais interessantes do projeto.
Em vez de esperar que o público procure instituições científicas, artigos ou páginas especializadas, os pesquisadores levaram o conhecimento para uma plataforma que milhões de pessoas já utilizam diariamente.
O resultado transforma uma conversa comum no WhatsApp em oportunidade para descobrir por que a Antártida influencia o restante do planeta.
E talvez seja essa a principal missão do pequeno krill digital: mostrar que compreender um continente localizado a milhares de quilômetros de distância pode ajudar a entender mudanças que acontecem muito mais perto de nós.
[Fonte: UChile]