A eleição presidencial brasileira ganhou um personagem disposto a desafiar praticamente todos os lados ao mesmo tempo. Com discurso antissistema, forte presença digital e propostas que misturam liberalismo econômico e linha dura na segurança, Renan Santos tenta transformar a insatisfação com a polarização em votos. Ainda distante dos principais candidatos nas pesquisas presenciais, ele já aparece como uma variável capaz de complicar os planos da direita.
De articulador dos protestos a candidato à Presidência

Renan Santos passou mais de uma década atuando nos bastidores da política antes de decidir disputar pessoalmente uma eleição. Aos 42 anos, o fundador e articulador do Movimento Brasil Livre (MBL) tornou-se candidato à Presidência pelo Partido Missão.
Seu nome ganhou projeção nacional durante as manifestações que contribuíram para o processo de impeachment de Dilma Rousseff, concluído em 2016. Naquele momento, Santos atuava como organizador, e não como candidato.
Isso mudou em agosto de 2026.
O lançamento de sua candidatura foi pensado como um espetáculo político para a era das redes sociais. Houve música, elementos de ritual militar e celulares iluminando o ambiente. Santos, que também é guitarrista, cantou um jingle composto por ele antes de receber uma réplica de um espadim militar.
A estética acompanha a linguagem da campanha. O Missão fala em “combate”, convoca seguidores a “fazer história” e apresenta sua candidatura como uma ruptura com as forças políticas tradicionais.
Parte da imprensa passou a compará-lo a Javier Milei devido ao discurso econômico e ao estilo provocador. O próprio Santos cita também o presidente salvadorenho Nayib Bukele como inspiração em determinadas políticas.
Mas é dentro da direita brasileira que sua candidatura pode produzir o efeito mais imediato.
O crescimento nas redes pode se transformar em problema para Flávio Bolsonaro
Em levantamentos realizados pela internet, Santos chega a aproximadamente 10% das intenções de voto e apresenta desempenho especialmente relevante entre pessoas com menos de 25 anos.
Nas pesquisas presenciais, o cenário é bem diferente.
Levantamentos do Datafolha o colocam na faixa de 3% a 6%, disputando espaço com nomes como Ronaldo Caiado e Romeu Zema. Ainda assim, Santos rejeita a classificação de candidato de “terceira via”.
Sua estratégia é mais ambiciosa: disputar diretamente com Flávio Bolsonaro uma vaga no segundo turno contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Para o cientista político Marco Antônio Teixeira, professor da Fundação Getulio Vargas, a candidatura pode refletir um desgaste de parte do eleitorado com a repetição da polarização entre petismo e bolsonarismo.
Santos tenta explorar justamente esse espaço atacando os dois campos.
A relação do MBL com a família Bolsonaro, aliás, já foi muito diferente. O movimento apoiou Jair Bolsonaro na eleição de 2018, mas rompeu com o então presidente no ano seguinte e passou a fazer oposição.
Agora, essa disputa ocorre diretamente nas urnas.
As propostas misturam ajuste econômico, Bitcoin e mudanças profundas
Na economia, Santos defende medidas de forte impacto. Entre elas está a proposta de desvincular aposentadorias do salário mínimo e congelar os benefícios.
Também pretende substituir o Bolsa Família por frentes de trabalho comunitário envolvendo atividades como pavimentação e iluminação.
Outra proposta é criar uma reserva nacional de Bitcoin.
Na política habitacional, seu programa prevê aquilo que chama de “desfavelização” de aproximadamente 12 mil comunidades. A ideia envolveria um financiamento de longo prazo, com títulos de 50 anos pagos pelas próprias famílias.
Santos também critica as cotas raciais nas universidades e defende substituí-las por bolsas baseadas em mérito.
Dados sobre ações afirmativas, entretanto, mostram um cenário mais complexo. Informações compiladas pelo Consórcio de Acompanhamento das Ações Afirmativas indicam aumento significativo da participação de estudantes negros, pardos e indígenas no ensino superior nas últimas décadas.
O candidato também reconhece uma contradição pragmática em sua estratégia.
Apesar do discurso contra a política tradicional, admite que precisaria negociar apoio parlamentar com integrantes do Centrão para conseguir governar.
É na segurança que aparecem algumas das propostas mais controversas
A plataforma de Santos se torna ainda mais radical quando chega à segurança pública e à relação com as instituições.
O candidato já prometeu medidas incompatíveis com a atual Constituição, incluindo a aplicação da pena de morte para determinados crimes comuns.
Também afirmou que poderia deixar de cumprir decisões individuais de ministros do Supremo Tribunal Federal caso as considerasse ilegais.
Seu programa aposta ainda em políticas inspiradas no modelo de segurança implementado em El Salvador por Nayib Bukele, incluindo grandes presídios de segurança máxima e restrições de garantias para determinados criminosos.
Especialistas apontam, porém, dificuldades jurídicas e institucionais para reproduzir esse modelo no Brasil, país federal, de dimensões continentais e com competências de segurança divididas entre diferentes níveis de governo.
A retórica também provoca controvérsia. Em discursos, Santos utiliza insultos contra adversários e seus aliados já descreveram o partido como instrumento de “vingança”.
Esse ambiente ganha importância diante do histórico recente de violência política no país. Dados reunidos por organizações de direitos humanos registraram forte crescimento desses episódios durante o ciclo eleitoral de 2022 em comparação com 2018.
A eleição mostrará até onde uma candidatura nascida na internet pode chegar
Renan Santos resume sua estratégia com uma fórmula provocativa: inspiração na forma disruptiva de Milei e, em determinados temas de segurança, nas políticas de Bukele.
Mas transformar referências estrangeiras em políticas aplicáveis ao Brasil é uma tarefa muito mais complexa.
Por enquanto, talvez o aspecto mais relevante de sua candidatura esteja em outro lugar: sua capacidade de conquistar uma parcela do eleitorado jovem e insatisfeito que consome política principalmente pelas redes sociais.
Existe também uma grande distância entre o desempenho obtido em pesquisas online e aquele registrado nos levantamentos presenciais. A campanha terá de demonstrar se sua intensa mobilização digital consegue ultrapassar as bolhas da internet.
Caso consiga, o maior impacto pode surgir dentro da própria direita.
Em uma eleição na qual cada ponto percentual pode decidir quem avança ao segundo turno, mesmo uma candidatura sem chances imediatas de vitória pode alterar profundamente o equilíbrio da disputa.
As urnas de 4 de outubro mostrarão se o fenômeno permanece concentrado nas redes ou se a candidatura conseguirá transformar engajamento digital em votos reais.
[Fonte: La nación]