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Ciência

Um urubu tocou o sino de uma igreja antes do terremoto na Colômbia, mas a ciência tem outra explicação para o vídeo viral

Um vídeo visto milhões de vezes transformou o comportamento de uma ave em suposto aviso de terremoto. A explicação científica, porém, revela algo diferente sobre os sentidos dos animais.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Pouco depois do terremoto de magnitude 7,4 que atingiu a Colômbia em 10 de agosto de 2026, uma cena curiosa conquistou as redes sociais. Um urubu aparecia tocando o sino de uma igreja e usuários rapidamente associaram o comportamento ao desastre. A publicação alimentou uma crença antiga de que animais conseguem antecipar terremotos, mas décadas de pesquisas mostram que existe uma diferença fundamental entre perceber um tremor antes dos humanos e realmente prevê-lo.

O vídeo do urubu ultrapassou 3 milhões de visualizações

As imagens começaram a circular depois do forte terremoto registrado na Colômbia. No vídeo, um urubu aparece tocando o sino de uma igreja, enquanto publicações nas redes sociais afirmavam que o animal estaria alertando para a aproximação do abalo sísmico.

Somente no X, o conteúdo acumulou mais de 3 milhões de visualizações.

A gravação realmente corresponde à Colômbia, segundo informações verificadas pelo site colombiano de checagem La Silla Vacía. O problema está na interpretação atribuída às imagens.

Não existem evidências científicas suficientes para concluir que aquele comportamento tenha relação com uma capacidade de prever terremotos.

A crença de que animais antecipam desastres sísmicos existe há séculos. Ao longo da história, relatos mencionaram cães inquietos, aves modificando repentinamente seu comportamento, animais deixando determinados locais e outras atitudes consideradas incomuns pouco antes de grandes terremotos.

O problema é que essas observações são, em sua maioria, anedóticas e identificadas retrospectivamente.

Depois que um terremoto acontece, comportamentos que normalmente poderiam passar despercebidos ganham outro significado. Para transformar esse fenômeno em uma ferramenta de previsão, seria necessário demonstrar que determinado comportamento ocorre de maneira consistente antes dos terremotos e que possui uma relação confiável com eles.

Até agora, isso não aconteceu.

Animais podem sentir o terremoto antes das pessoas por uma razão física

Existe, entretanto, um fenômeno real que pode ajudar a explicar por que alguns animais parecem reagir momentos antes das pessoas.

Um terremoto produz diferentes tipos de ondas sísmicas.

As chamadas ondas P são mais rápidas e chegam primeiro. Elas normalmente provocam movimentos menos intensos. Depois chegam as ondas S, mais lentas e associadas a movimentos que podem ser muito mais perceptíveis.

Alguns animais possuem sentidos capazes de detectar vibrações muito sutis. Isso significa que eles podem reagir à chegada das primeiras ondas enquanto uma pessoa ainda não percebeu nada.

A diferença pode ser de alguns segundos.

Mas existe um detalhe fundamental: quando essas ondas começam a chegar, o terremoto já aconteceu.

Portanto, o animal não está prevendo um evento futuro. Está simplesmente percebendo antes dos seres humanos um fenômeno que já começou.

É um princípio semelhante ao utilizado por determinados sistemas tecnológicos de alerta sísmico.

Alertas no celular também não significam que o terremoto foi previsto

Um urubu tocou o sino de uma igreja antes do terremoto na Colômbia, mas a ciência tem outra explicação para o vídeo viral
© Pexels

Cintia Kaufmann, doutora em Ciências Geológicas ligada ao Instituto Nacional de Prevenção Sísmica, explica que determinadas espécies podem perceber as ondas iniciais quando elas ainda são praticamente imperceptíveis para as pessoas.

Isso também depende do que alguém está fazendo naquele momento. Uma pessoa caminhando, dirigindo ou trabalhando pode demorar mais para perceber uma vibração sutil do que um animal especialmente sensível ao movimento.

Sistemas de alerta em celulares exploram uma diferença temporal semelhante.

Sensores instalados em uma região podem detectar as primeiras vibrações e enviar um aviso para áreas que receberão posteriormente as ondas mais fortes. Dependendo da distância até o epicentro, isso pode proporcionar alguns segundos de antecedência.

Mas novamente não existe previsão: o evento sísmico já começou em outro ponto.

Especialistas do Instituto Geográfico Nacional da Espanha chegaram a uma conclusão semelhante ao analisar alegações sobre animais que supostamente antecipariam terremotos.

Algumas espécies podem perceber pequenos tremores ou as ondas iniciais antes dos humanos, mas isso não permite determinar previamente quando, onde ou com qual intensidade ocorrerá um terremoto.

Centenas de relatos foram analisados e o problema continua o mesmo

A ciência já tentou investigar sistematicamente essas histórias.

Uma revisão publicada em 2018 analisou 180 casos de supostos comportamentos animais relacionados à previsão de terremotos.

Os pesquisadores concluíram que as evidências disponíveis eram insuficientes. Muitos registros eram relatos isolados ou tinham sido interpretados somente depois da ocorrência dos terremotos.

O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) também sustenta que ainda não foi identificado um comportamento animal consistente e confiável que aconteça antes dos abalos.

Além disso, não existe um mecanismo comprovado capaz de explicar como um animal poderia detectar antecipadamente as condições que levarão a um terremoto horas ou dias depois.

Esse é justamente um dos maiores obstáculos para transformar relatos curiosos em um método científico.

Nem mesmo a tecnologia consegue prever quando um terremoto acontecerá

Um urubu tocou o sino de uma igreja antes do terremoto na Colômbia, mas a ciência tem outra explicação para o vídeo viral
© Çağlar Oskay – Unsplash

A limitação não é exclusiva dos animais. Atualmente, não existe método cientificamente comprovado capaz de prever com precisão a data, o local e a magnitude de um terremoto futuro.

Os grandes abalos normalmente acontecem quando tensões acumuladas gradualmente na crosta terrestre são liberadas de maneira repentina, geralmente ao longo de falhas geológicas.

O comportamento dessas estruturas é extremamente complexo.

A resposta das rochas às mudanças de tensão não ocorre de maneira simples ou diretamente proporcional. Além disso, as características geológicas variam profundamente de uma região para outra, dificultando a criação de modelos capazes de antecipar exatamente o momento da ruptura.

Os cientistas conseguem mapear falhas, estimar probabilidades sísmicas e identificar regiões de maior risco. Sistemas modernos também podem emitir alertas segundos antes da chegada das ondas mais destrutivas a determinadas localidades.

Isso, porém, continua sendo muito diferente de prever um terremoto.

O urubu registrado na Colômbia pode ter protagonizado uma cena extraordinariamente curiosa, mas o vídeo não demonstra uma capacidade desconhecida dos animais. Até que apareçam evidências científicas reproduzíveis, um comportamento estranho antes de um terremoto continuará sendo uma coincidência ou uma possível reação às primeiras vibrações, e não uma previsão do que estava prestes a acontecer.

[Fonte: chequeado]

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