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Ciência

Sudoku parece um ótimo exercício para o cérebro, mas um neurologista de Harvard faz um alerta inesperado

Quebra-cabeças são frequentemente associados à proteção da memória durante o envelhecimento. Um neurologista explica por que essa estratégia, sozinha, está longe de ser suficiente para o cérebro.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Sudoku pela manhã, palavras cruzadas durante uma viagem ou alguns minutos de caça-palavras antes de dormir. Esses passatempos carregam a fama de funcionar como uma espécie de academia para o cérebro, especialmente depois dos 60 ou 70 anos. Mas será que repetir esses exercícios realmente ajuda a preservar as capacidades cognitivas? Para um neurologista ligado a Harvard, a resposta exige olhar muito além dos números escritos nos pequenos quadrados.

Resolver Sudoku todos os dias não é uma fórmula mágica

Sudoku parece um ótimo exercício para o cérebro, mas um neurologista de Harvard faz um alerta inesperado
© Pexels

A ideia parece bastante intuitiva: se músculos precisam ser exercitados para permanecer fortes, o cérebro também deveria se beneficiar de exercícios frequentes. É nesse raciocínio que entram Sudoku, palavras cruzadas, jogos de memória e outros quebra-cabeças.

Essas atividades podem, de fato, exigir atenção, memória, raciocínio e capacidade de resolução de problemas. O problema começa quando elas são tratadas como uma solução isolada contra o declínio cognitivo.

Álvaro Pascual-Leone, neurologista ligado à Universidade Harvard, chama atenção justamente para essa interpretação. Em entrevista repercutida pelo HuffPost a partir da Cadena SER, o especialista explicou que não existe uma atividade específica capaz de garantir, sozinha, a preservação da saúde cerebral.

“Não existe uma fórmula mágica”, resumiu.

Isso não significa que seja necessário abandonar o Sudoku.

Segundo o neurologista, determinados jogos podem trazer benefícios, inclusive para algumas pessoas acima dos 70 anos. O efeito, entretanto, depende do contexto e principalmente do nível de desafio proporcionado pela atividade.

E existe um momento em que aquele passatempo aparentemente estimulante pode começar a exigir muito menos do cérebro.

Quando fica fácil demais, o desafio também desaparece

Sudoku parece um ótimo exercício para o cérebro, mas um neurologista de Harvard faz um alerta inesperado
© Pexels

Imagine uma pessoa que começou a resolver Sudoku recentemente. No início, cada partida exige concentração. É necessário testar possibilidades, lembrar posições, reconhecer padrões e encontrar estratégias.

Depois de centenas de partidas, porém, algumas dessas operações podem se tornar quase automáticas.

É aí que aparece uma diferença importante.

Para Pascual-Leone, manter o cérebro ativo não significa simplesmente repetir uma mesma tarefa indefinidamente. Quando uma atividade deixa de representar um verdadeiro desafio, seu potencial de estimular novas adaptações também pode diminuir.

A alternativa é continuar aprendendo.

O neurologista recomenda buscar experiências que obriguem o cérebro a lidar com situações novas, em uma lógica semelhante àquela encontrada durante a infância, quando aprender fazia parte de praticamente todos os dias.

Pode ser estudar um idioma, aprender a tocar um instrumento, desenvolver uma habilidade manual, explorar um assunto desconhecido ou realizar atividades que exijam novas formas de raciocínio.

O ponto central não é escolher uma atividade universalmente superior às outras. É evitar que o cérebro permaneça sempre funcionando no piloto automático.

Essa busca por novidades está relacionada à plasticidade cerebral, capacidade do sistema nervoso de reorganizar conexões e adaptar-se diante de novas experiências.

Mas nem mesmo aprender constantemente resolve toda a equação.

O cérebro também depende daquilo que acontece fora dos jogos

A saúde cognitiva é resultado de uma combinação muito mais ampla de comportamentos.

Pascual-Leone destaca fatores como sono adequado, exercício físico, alimentação equilibrada e manutenção de relações sociais. Em vez de procurar um único passatempo milagroso, a estratégia mais consistente seria cuidar de diferentes aspectos da vida que influenciam o funcionamento cerebral.

A atividade física, por exemplo, beneficia a saúde cardiovascular, fundamental para o fornecimento adequado de sangue e oxigênio ao cérebro.

O sono participa de processos relacionados à memória, recuperação e funcionamento cognitivo. Já as interações sociais exigem comunicação, interpretação de emoções, memória e adaptação constante às respostas de outras pessoas.

Por isso, uma conversa, uma atividade em grupo ou o aprendizado de algo novo podem representar desafios cognitivos muito mais complexos do que parecem.

Há ainda hábitos que podem agir na direção contrária.

Entre eles está um comportamento bastante normalizado socialmente e que neurologistas recomendam observar com atenção.

Um hábito comum também pode interferir no envelhecimento cerebral

Especialistas ouvidos pela EatingWell chamaram atenção para o consumo frequente de álcool, principalmente quando beber se transforma em uma rotina noturna, ocorre em excesso ou é utilizado regularmente como estratégia para relaxar e enfrentar o estresse.

Lynette Gogol destacou que esse comportamento pode prejudicar silenciosamente um envelhecimento cerebral saudável.

O neurologista Zack Ramilevich também ressalta que o álcool possui efeitos neurotóxicos e pode interferir no funcionamento das células nervosas e nas estruturas responsáveis pela comunicação entre diferentes regiões cerebrais.

Os efeitos dependem de fatores como quantidade, frequência, idade, condições individuais e padrão de consumo. Ainda assim, o alerta reforça uma ideia importante: cuidar da cognição envolve tanto aquilo que fazemos quanto determinados hábitos que evitamos.

E é justamente aí que o Sudoku volta à história.

Não há motivo para abandonar um passatempo prazeroso que exige raciocínio. O problema é acreditar que alguns minutos preenchendo números podem compensar uma rotina sedentária, sono inadequado, isolamento social ou outros comportamentos prejudiciais.

Para manter o cérebro desafiado ao longo dos anos, talvez a melhor estratégia seja justamente não encontrar um único exercício perfeito.

É continuar oferecendo a ele algo novo para aprender.

[Fonte: Noticiasaominuto]

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