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Tratado nuclear entre EUA e Rússia pode acabar na próxima semana e reacende temor de nova corrida armamentista

Com o fim iminente do Novo START, Washington e Moscou podem ficar, pela primeira vez em mais de 50 anos, sem limites formais para seus arsenais estratégicos. A indefinição ocorre em meio ao crescimento acelerado da capacidade nuclear chinesa e a pressões internas nos Estados Unidos por uma resposta mais dura.
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A contagem regressiva já começou. Em poucos dias, expira o Novo START, o último grande acordo que ainda impõe restrições às armas nucleares estratégicas de Estados Unidos e Rússia. Se não houver uma negociação de última hora, os dois países estarão livres para ampliar mísseis e ogivas — um cenário que preocupa especialistas e pode marcar o início de uma nova fase de instabilidade global.

O presidente russo Vladimir Putin propôs manter os limites atuais por mais um ano, como forma de ganhar tempo para discutir um acordo mais amplo. Até agora, não houve resposta formal do presidente dos EUA, Donald Trump, que já declarou que o tratado “pode expirar” e que prefere substituí-lo por algo “melhor”.

O que é o Novo START — e por que ele importa

Trump E Putin
© X – eduardomenoni

Assinado em 2010, o Novo START limita cada lado a até 1.550 ogivas nucleares estratégicas implantadas e estabelece um teto de 700 vetores de lançamento, entre mísseis terrestres, submarinos e bombardeiros. Mais do que números, o tratado criou um sistema de transparência com inspeções e troca de dados, considerado essencial para evitar mal-entendidos perigosos.

Analistas destacam que esses mecanismos funcionam como um canal permanente de comunicação. Sem eles, cresce o risco de interpretações erradas sobre intenções militares, justamente em um momento de relações já deterioradas.

Por que um novo acordo é tão difícil

O contexto de 2026 é muito mais complexo do que em 2010. A Rússia desenvolveu sistemas fora do escopo original do tratado, como mísseis hipersônicos e torpedos nucleares autônomos. Do lado americano, há planos para um sistema de defesa antimísseis baseado no espaço, visto por Moscou como uma tentativa de alterar o equilíbrio estratégico.

Além disso, Trump defende que qualquer novo acordo inclua a China — algo que Pequim rejeita, argumentando que seu arsenal é muito menor do que o de Washington e Moscou. Estimativas do Pentágono indicam que a China possui hoje cerca de 600 ogivas, mas pode ultrapassar mil até 2030.

Para complicar ainda mais, uma comissão bipartidária do Congresso americano já alertou que os EUA enfrentam um “desafio existencial” ao lidar simultaneamente com duas potências nucleares. Entre as recomendações está a possibilidade de recolocar em serviço ogivas que haviam sido retiradas de mísseis intercontinentais e de submarinos.

A corrida armamentista já começou?

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© https://x.com/PoderioMilitar/

Especialistas concordam que, mesmo sem anúncio formal, uma nova corrida armamentista está em andamento — especialmente no campo tecnológico. O foco não é apenas quantidade, mas também qualidade: armas hipersônicas, sistemas de alta precisão não nucleares e plataformas cada vez mais sofisticadas estão sendo desenvolvidas em ritmo acelerado.

Nos Estados Unidos, isso se soma a um ambicioso — e caro — programa de modernização nuclear, que inclui novos submarinos, bombardeiros e mísseis balísticos intercontinentais. O Escritório Orçamentário do Congresso estima que modernizar, manter e operar essas forças pode custar quase US$ 1 trilhão entre 2025 e 2034.

Defensores do controle de armas argumentam que, diante desses atrasos e custos, manter temporariamente os limites do Novo START seria uma escolha pragmática.

Desconfiança, Ucrânia e o fator político

Do outro lado do debate, há quem sustente que Washington não deve confiar em Moscou. Em 2023, a Rússia suspendeu inspeções previstas no tratado, citando o apoio militar dos EUA à Ucrânia como justificativa. Para críticos, isso demonstra que qualquer extensão seria frágil.

A incerteza também é política. Um funcionário da Casa Branca afirmou que Trump decidirá “no seu próprio cronograma” qual caminho seguir. Já Dmitry Medvedev, que assinou o acordo original ao lado de Barack Obama, declarou recentemente que a Rússia está preparada para qualquer desfecho e responderá firmemente a novas ameaças.

Seja qual for a decisão, o relógio avança. E, com ele, cresce o risco de um mundo com menos regras, menos diálogo e arsenais nucleares novamente em expansão.

 

[ Fonte: CNN Brasil ]

 

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