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Ciência

Trump desmontou a política climática dos EUA em um ano. É possível voltar atrás?

Uma avalanche de decretos fortaleceu combustíveis fósseis, enfraqueceu regulações ambientais e rompeu compromissos internacionais. Especialistas dizem que os danos são reais, mas em grande parte reversíveis — e revelam um governo mais focado em demonstrar poder político do que em promover mudanças duradouras.
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Logo nos primeiros dias de seu novo mandato, Donald Trump deixou claro qual seria sua prioridade. Com a caneta presidencial, declarou uma “emergência energética nacional” e retomou o slogan “drill, baby, drill”, abrindo caminho para uma série de medidas favoráveis ao petróleo, ao gás e ao carvão. Em apenas um ano, os Estados Unidos assistiram a uma das mais agressivas reorientações da política ambiental e climática de sua história recente.

Trump retirou o país do Acordo de Paris, afrouxou regras para produtores de combustíveis fósseis, retomou autorizações para exportação de gás natural liquefeito e reabriu áreas costeiras para perfuração. Programas de capacitação para empregos verdes foram encerrados, milhões de hectares destinados à energia eólica offshore foram bloqueados e referências às mudanças climáticas desapareceram de sites de agências federais. Para muitos analistas, o ataque parecia total.

Um impacto imediato — mas não definitivo

No papel, as mudanças são profundas. O presidente pressionou o Congresso a aprovar o chamado One Big Beautiful Bill Act, que eliminou incentivos fiscais para energia solar, eólica e veículos elétricos, pilares da estratégia climática do governo anterior. Algumas empresas, diante da incerteza, já abandonaram projetos de energia limpa.

Trump também intensificou a ofensiva contra a indústria de eólica offshore, culminando em uma proibição geral de novos arrendamentos. E foi além: rompeu laços com o arcabouço das Nações Unidas que coordena a cooperação internacional em temas ambientais, um tratado ratificado por unanimidade pelo Senado dos EUA em 1992.

“Foi um ano extraordinariamente destrutivo”, resume Rachel Cleetus, diretora de políticas climáticas da ONG Union of Concerned Scientists. Entre os efeitos concretos, ela cita o adiamento, por parte da Agência de Proteção Ambiental (EPA), de regras para reduzir emissões de metano — um dos gases de efeito estufa mais potentes — e investimentos federais para manter usinas a carvão economicamente inviáveis.

O limite dos decretos presidenciais

Apesar do impacto imediato, especialistas afirmam que grande parte dessas medidas é frágil do ponto de vista institucional. A maioria foi implementada por decretos executivos, que podem ser revertidos por um futuro presidente. Além disso, vários atos enfrentam contestação judicial. Recentemente, tribunais federais autorizaram a retomada da construção de parques eólicos offshore em estados como Nova York e Rhode Island.

“Ele não está mudando a lei, está mudando a prática”, explica Elaine Kamarck, do Brookings Institution. De fato, Trump aprovou menos leis no Congresso do que qualquer presidente desde Dwight D. Eisenhower, preferindo governar por decretos — um instrumento poderoso, mas pouco durável.

Mesmo iniciativas mais radicais, como a tentativa da EPA de abrir mão de sua autoridade para regular emissões que afetam a saúde humana, podem ser desfeitas no futuro, ainda que levem anos. “O tempo perdido e as emissões extras não podem ser recuperados”, alerta Michael Burger, do Sabin Center for Climate Change Law, da Universidade Columbia. “Mas, do ponto de vista regulatório, quase tudo pode ser revertido da mesma forma como foi feito.”

O caso do carvão e a lógica política

A principal exceção à reversibilidade é a nova lei aprovada pelo Congresso, que desmonta incentivos fiscais à descarbonização. Ainda assim, analistas observam que o texto retirou benefícios, mas não criou um novo marco estrutural para a energia fóssil. Incentivos a fontes como nuclear e geotérmica foram mantidos, o que indica divisões internas no Partido Republicano.

A obsessão de Trump em “salvar” o carvão ilustra bem esse padrão. O governo concedeu isenções temporárias a usinas, encerrou a moratória sobre concessões de mineração e prometeu revitalizar a indústria. O problema é que a queda do carvão é movida principalmente por fatores econômicos: usinas antigas são caras, enquanto gás natural e energia solar ficaram mais baratos.

“Não há uma razão econômica para trazer o carvão de volta”, avalia Josh Freed, do think tank Third Way. Para ele, trata-se mais de uma demonstração de força política do que de uma estratégia energética viável. Um setor que só sobrevive com apoio constante do governo, dizem os analistas, não é competitivo.

Um pêndulo que pode voltar

A política climática dos EUA há décadas oscila conforme o presidente da vez. O retorno de Trump intensificou esse movimento, talvez como nunca antes. Ainda assim, especialistas concordam que muitas de suas “vitórias” podem não sobreviver ao fim do mandato.

A infraestrutura regulatória básica continua existindo, a energia limpa segue competitiva em custos e a reversão de decretos é possível. O maior dano, alertam, está no atraso acumulado e na instabilidade gerada. Trump pode ter desmontado políticas climáticas em um ano, mas a própria fragilidade dessas ações sugere que o país ainda pode — com tempo, pressão política e novas maiorias — voltar ao caminho anterior.

 

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