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Trump promete socorrer Milei com US$ 20 bilhões — mas o resgate tem um preço político

Em meio a uma crise econômica que parece não dar trégua, Javier Milei pode receber um balão de oxigênio vindo de Washington. O governo Trump anunciou que negocia uma linha de swap de US$ 20 bilhões com a Argentina, mas deixou claro que a ajuda está condicionada ao resultado das eleições legislativas de outubro.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A promessa expõe a intersecção entre economia e política internacional: para Trump, salvar Milei significa também reforçar um aliado ideológico na América do Sul. Para os argentinos, a dúvida é se esse apoio externo será suficiente para conter a inflação e o desgaste das políticas de austeridade.

O anúncio de Bessent

O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, confirmou nesta semana que negocia diretamente com o Banco Central da Argentina para liberar US$ 20 bilhões em dólares via swap. Segundo ele, a medida busca “evitar volatilidade excessiva” e dar fôlego ao governo Milei até as eleições legislativas de 26 de outubro.

Bessent também afirmou que os EUA estão dispostos a comprar títulos da dívida argentina e a apoiar mudanças fiscais no setor de commodities. Em suas próprias palavras, trata-se de uma operação para “conduzir Milei até as eleições” e garantir que suas reformas econômicas não sejam sufocadas pelo mercado.

O preço do apoio

O detalhe é que Bessent deixou implícito que a ajuda está vinculada ao desempenho eleitoral dos aliados de Milei. Em mensagem no X (antigo Twitter), afirmou ter mantido contato com empresas americanas dispostas a investir na Argentina “em caso de resultado positivo”. Embora não tenha especificado o que isso significa, a leitura é clara: um bom resultado para a coalizão governista é condição para o apoio financeiro.

Na TV, Bessent foi ainda mais direto: “O plano é ajudar Milei enquanto ele continuar com suas fortes políticas econômicas. Não vamos deixar que um desequilíbrio de mercado atrapalhe suas reformas”.

Milei em queda de popularidade

Apesar da retórica, Milei enfrenta dificuldades crescentes em casa. Sua política de austeridade drástica — apelidada de “motosserra” pelo próprio presidente — reduziu o tamanho do Estado, mas não controlou a inflação nem trouxe alívio para a maioria da população.

Nas últimas eleições locais em Buenos Aires, seu partido A Liberdade Avança conquistou apenas 34% dos votos, contra 47% da oposição de esquerda. Pesquisas recentes citadas pelo Wall Street Journal apontam que 60% dos argentinos acreditam que a economia piorou no último ano.

A “motosserra” como símbolo

Milei se tornou conhecido internacionalmente por aparecer em eventos com uma motosserra, símbolo de seu programa de cortes e privatizações. Em fevereiro, chegou a entregar uma delas a Elon Musk durante a CPAC, conferência conservadora nos EUA. O gesto, polêmico, acabou virando marca registrada de seu estilo excêntrico.

Além de Musk, figuras como Robert F. Kennedy Jr. e o senador republicano Ted Cruz também posaram com a motosserra em ocasiões públicas, reforçando a imagem performática do presidente argentino.

Trump entra em cena

Donald Trump, por sua vez, demonstrou apoio total ao aliado sul-americano. Em postagem, afirmou que Milei “avança em todos os níveis a uma velocidade recorde” e que “trouxe estabilidade de volta à economia argentina”. Chegou até a endossar sua reeleição — mesmo que Milei não seja candidato neste pleito de outubro.

O ex-presidente americano teria se reunido com Milei à margem da Assembleia Geral da ONU, priorizando o encontro em detrimento de aliados tradicionais, como Austrália e Nova Zelândia, ambos considerados estratégicos na contenção da influência chinesa no Pacífico.

Uma aposta arriscada

A grande questão é se o resgate financeiro será suficiente para sustentar Milei até outubro e se convencerá os argentinos de que sua agenda liberal pode funcionar. Até agora, os resultados práticos das reformas são desanimadores: inflação alta, queda do poder de compra e aumento da pobreza.

Se Trump conseguir segurar Milei politicamente, será uma vitória simbólica para a direita internacional. Mas, para os argentinos, resta saber se o socorro em dólares virá acompanhado de melhora real na vida cotidiana — ou se será apenas mais um capítulo de promessas que não se cumprem.

 

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