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Ciência

Tubarões “inofensivos” matam um homem pela primeira vez — e os cientistas explicam o que pode ter saído errado

Um mergulhador israelense morreu após ser atacado por tubarões-areia, uma espécie até então considerada pacífica. O caso acende o alerta entre biólogos marinhos: o contato frequente com humanos pode estar mudando o comportamento desses predadores.
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Tempo de leitura: 3 minutos

No fim de abril, um mergulhador de 40 anos perdeu a vida após ser atacado por tubarões-areia (Carcharhinus obscurus), também conhecidos como jaquetões-lobo, no mar Mediterrâneo, próximo à cidade costeira de Hadera, em Israel. O homem, que filmava os animais com uma câmera GoPro a cerca de 100 metros da costa, foi surpreendido por um grupo da espécie — que, até então, nunca havia registrado ataques fatais contra humanos.

Um acidente improvável

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© Pexels

O episódio foi analisado pelos pesquisadores Eric Clua (Universidade de Paris) e Kristian Parton (Universidade de Exeter), que publicaram suas conclusões na revista Ethology. Segundo eles, o ataque foi provavelmente resultado de uma cadeia de coincidências infelizes.

A câmera usada pelo mergulhador emitia sinais eletromagnéticos que podem ter atraído a curiosidade de um dos tubarões, levando-o a tentar mordê-la. Nesse movimento, o animal teria atingido o braço do homem — e o sangue, somado ao pânico subsequente, pode ter desencadeado um comportamento coletivo de caça.

Testemunhas relataram ter ouvido gritos de socorro antes que a água se tornasse avermelhada e várias nadadeiras despontassem na superfície. “Os estímulos sonoros e olfativos parecem ter provocado um frenesi alimentar, levando vários tubarões a atacar simultaneamente”, escreveram os autores.

O mergulhador não se aproximou intencionalmente

De acordo com o portal Israel National News, o homem não estava alimentando os tubarões nem tentando interagir com eles — apenas registrava imagens para documentar a vida marinha. Um pescador que presenciou o ataque relatou que o mergulhador tentou afastar os animais com o bastão da câmera, sem tocá-los diretamente.

No dia seguinte, equipes de busca encontraram pequenos restos humanos, o que confirmou forensemente a identidade da vítima e indicou que ela havia sido devorada por vários tubarões durante o incidente.

Quando a familiaridade vira risco

A área do ataque, próxima à usina dessalinizadora Orot Rabin, apresenta concentrações anormais de tubarões-areia devido à água morna liberada na região. Segundo os cientistas, a frequente presença de mergulhadores e turistas pode ter alterado o comportamento dos animais, acostumando-os ao contato humano.

“O fornecimento artificial de alimento e a presença constante de pessoas criaram uma habituação perigosa, semelhante à mendicância animal”, alertam Clua e Parton. “Um tubarão ousado pode reagir de forma impulsiva, mordendo um objeto desconhecido — e acabar ferindo alguém.”

Ecoturismo marinho sob revisão

Os tubarões-areia podem medir até 3,6 metros de comprimento e pesar 180 quilos. Alimentam-se de peixes e crustáceos e são, em geral, tranquilos diante de mergulhadores. Por isso, eram considerados ideais para atividades de ecoturismo e observação subaquática, que geram renda para comunidades costeiras e ajudam a promover a conservação desses animais.

O incidente, porém, levanta uma discussão delicada: como equilibrar o turismo de observação e a segurança humana sem prejudicar os ecossistemas marinhos?

Eliminar não é a solução

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© Pexels

Os pesquisadores reforçam que a culpa não é dos tubarões, mas da forma como os humanos vêm interagindo com eles. Proibir a alimentação e impor regras mais rígidas para o mergulho e o turismo marinho são medidas urgentes para evitar novas tragédias.

“Eliminar os tubarões não resolve o problema”, afirmam Clua e Parton. “Este caso deve servir de alerta: quanto mais interferimos em seu comportamento natural, maior o risco para ambos os lados.”

 

[ Fonte: DW ]

 

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