Refrigerantes, salgadinhos e refeições prontas oferecem praticidade, mas sua presença frequente na alimentação levanta perguntas sobre a saúde cerebral. Um estudo canadense identificou uma associação entre maior consumo de ultraprocessados e lesões vasculares no cérebro que podem passar despercebidas. O resultado apareceu em adultos de meia-idade sem histórico de doença cardiovascular, antes de diferenças consistentes nos testes de memória e raciocínio.
O que as ressonâncias revelaram

O trabalho publicado na JAMA Network Open analisou 8.783 participantes. Na comparação entre os grupos de maior e menor consumo, os pesquisadores encontraram uma razão de chances ajustada de 1,40 para lesões vasculares cerebrais — um aumento de 40% nessa medida estatística.
Isso não significa que 40% dos consumidores apresentaram dano cerebral. A frequência observada das alterações foi de 8,1% no grupo de menor consumo e 11,3% no de maior ingestão.
O estudo também traz uma ressalva importante: a associação perdeu significância estatística quando os autores usaram outras formas de calcular a participação dos ultraprocessados na dieta, como a proporção das calorias diárias. Além disso, não houve associação consistente com pior desempenho cognitivo.
Por que essas alterações chamam a atenção
Segundo o Population Health Research Institute, responsável pela pesquisa, as alterações detectadas nas imagens podem surgir sem sintomas evidentes. Elas são consideradas sinais de alerta para a saúde vascular do cérebro e podem anteceder um AVC ou dificuldades de memória.
Os participantes preencheram questionários alimentares e passaram por ressonâncias. Neurologistas avaliaram os exames sem conhecer os hábitos alimentares de cada pessoa.
Quem consumia mais ultraprocessados também apresentava maior quantidade de gordura corporal e abdominal profunda. Essa gordura tem relação com inflamação e problemas nos vasos sanguíneos, embora o trabalho não tenha demonstrado que ela explique o vínculo observado com o cérebro.
Os produtos também ocupam o lugar de outros alimentos

Na divulgação dos resultados, os pesquisadores destacaram outra diferença entre os grupos. Entre os maiores consumidores, ultraprocessados representavam cerca de 45% das porções diárias, contra 16% entre os menores consumidores.
Ao mesmo tempo, frutas, verduras, grãos e outros alimentos minimamente processados ocupavam menos espaço na alimentação do primeiro grupo. Portanto, a questão envolve tanto os produtos consumidos quanto os alimentos que deixam de entrar no prato.
Os autores reconhecem que preço, conveniência, disponibilidade e publicidade ajudam a explicar essas escolhas. Como a avaliação ocorreu em um único momento, ainda será necessário acompanhar os participantes para saber se reduzir o consumo pode prevenir ou desacelerar as alterações cerebrais.
Como reconhecer os ultraprocessados

O Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, recomenda fazer de alimentos in natura ou minimamente processados a base da alimentação e evitar ultraprocessados.
Essa categoria inclui formulações industriais que costumam reunir vários ingredientes, além de substâncias e aditivos pouco usados na cozinha doméstica. Refrigerantes, biscoitos recheados, salgadinhos de pacote e macarrão instantâneo são exemplos conhecidos.
Por outro lado, passar por algum processamento não coloca automaticamente um alimento nessa categoria. Arroz, feijão seco, leite pasteurizado e vegetais congelados sem adições podem fazer parte dos alimentos minimamente processados. Ler a composição ajuda a distinguir produtos que parecem semelhantes na prateleira.
A orientação brasileira favorece refeições baseadas em variedade e preparações culinárias. O novo estudo acrescenta uma pista sobre a relação entre alimentação e saúde cerebral, enquanto o acompanhamento ao longo dos anos deverá esclarecer o significado clínico dos achados.