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Ciência

Trocar leite por bebidas vegetais exige olhar além do cálcio, aponta estudo

Simulação britânica identificou possível queda no consumo de quatro nutrientes, mas mostrou que a fortificação pode ajudar a preservar o aporte nutricional.
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Tempo de leitura: 5 minutos

Bebidas de aveia, amêndoas e soja podem ocupar o mesmo espaço do leite no café da manhã. Isso, porém, não significa que entreguem os mesmos nutrientes. Uma pesquisa do Reino Unido investigou o que aconteceria com a alimentação da população se parte dos laticínios fosse substituída por alternativas vegetais — e encontrou diferenças que passam despercebidas na hora da compra.

O trabalho, publicado na revista The Lancet Planetary Health, projetou reduções na ingestão de iodo, cálcio, riboflavina e vitamina B12 com os padrões de fortificação considerados na análise. Também encontrou uma possível solução: acrescentar esses nutrientes aos produtos vegetais para acompanhar as mudanças no consumo.

O que os pesquisadores realmente avaliaram

Leite
© Magnific

A equipe das universidades de Surrey e Queen’s University Belfast utilizou dados de alimentação de mais de 3.500 pessoas, com idades entre 18 meses e 100 anos, participantes de um levantamento nacional britânico.

Com essas informações, os cientistas simularam a substituição de leite, queijo e iogurte por produtos vegetais. O objetivo era estimar como diferentes cenários afetariam o consumo dos quatro micronutrientes. Também avaliaram o que mudaria se a fortificação fosse obrigatória.

Essa metodologia define o alcance da descoberta. Os pesquisadores não acompanharam pessoas que trocaram de alimentação para verificar se desenvolveriam deficiência nutricional. Eles calcularam possíveis mudanças na ingestão a partir de dados de consumo e composição dos alimentos.

Portanto, a pesquisa identifica uma preocupação para o planejamento alimentar e para políticas públicas. Ela não demonstra que qualquer pessoa que escolha uma bebida vegetal terá um problema de saúde.

O nutriente mais esquecido pode ser o iodo

Quando o assunto é substituir o leite, o cálcio costuma concentrar a atenção. No levantamento britânico, entretanto, o iodo apresentou uma das maiores lacunas.

Entre as alternativas vegetais analisadas, apenas 12% tinham adição de iodo. A fortificação era mais frequente para cálcio, presente em 61% dos produtos, e vitamina B12, adicionada a 46%. Já a riboflavina, também chamada de vitamina B2, aparecia em 19%. 

O iodo participa da produção dos hormônios da tireoide e tem importância para o crescimento e o desenvolvimento cerebral. No Reino Unido, os laticínios constituem uma fonte relevante desse mineral.

Na simulação com substituição de 35% dos laticínios, a proporção de adolescentes do sexo feminino com ingestão inadequada de iodo passou de 54% para 65%. Entre mulheres de 19 a 49 anos, subiu de 32% para 42%. Esses números descrevem os cenários calculados para a população britânica.

Cálcio adicionado não resolve todas as diferenças

A reportagem do Infobae destaca que a presença de cálcio em parte dos produtos não impediu uma redução média no consumo desse mineral nos cenários avaliados. Também chamou atenção para a menor cobertura de fortificação com B2 e B12.

A riboflavina participa do metabolismo energético e do funcionamento das células. A vitamina B12, por sua vez, atua na formação de glóbulos vermelhos e na manutenção do sistema nervoso. Nas alternativas vegetais, sua oferta depende em grande medida da adição durante a fabricação.

Isso ajuda a explicar por que a palavra “fortificado”, sozinha, não encerra a comparação. Um produto pode receber cálcio e continuar apresentando diferenças importantes em outros nutrientes. Também é necessário observar as quantidades fornecidas na porção consumida.

As alternativas vegetais também diferem entre si

Um truque pouco conhecido pode conservar o queijo fresco por muito mais tempo
© Pexels

A matéria-prima, o processamento e os ingredientes adicionados influenciam a composição final. Por isso, duas bebidas vegetais podem apresentar perfis bastante diferentes, mesmo quando parecem cumprir a mesma função na alimentação.

A Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos, a FDA, orienta os consumidores a comparar os rótulos. A agência destaca que bebidas de soja adequadamente fortificadas podem apresentar composição mais próxima à do leite.

A comparação também precisa incluir proteínas, açúcares adicionados e outros componentes relevantes para a dieta. O nome da planta na embalagem não informa, por si só, se aquela bebida substitui o aporte nutricional do alimento retirado.

Na prática, vale conferir quais vitaminas e minerais foram acrescentados, quanto o produto fornece e qual quantidade costuma ser consumida. A mesma atenção se aplica a versões vegetais de queijos e iogurtes.

O resultado depende do restante da alimentação

Uma troca isolada não descreve toda a dieta. Quem deixa de consumir laticínios pode modificar outros alimentos, escolher produtos fortificados ou receber orientação para cobrir necessidades específicas.

Ao comentar o estudo, Stephen Burgess, professor de bioestatística da Universidade de Cambridge, ressaltou que as estimativas dependem da seleção dos substitutos e das demais mudanças alimentares. Ele também observou que a modelagem não demonstrou danos à saúde decorrentes das reduções projetadas.

Essa distinção evita interpretar o trabalho como uma condenação das dietas vegetais. A questão levantada é como preservar a adequação nutricional quando os alimentos habituais mudam.

A fortificação pode acompanhar a mudança de hábitos

No estudo original, a fortificação obrigatória das alternativas vegetais evitou as quedas médias dos micronutrientes avaliados. Ainda assim, a ingestão inadequada de iodo permaneceu elevada entre adolescentes do sexo feminino.

Os autores também simularam a adição de iodo ao pão. A combinação das duas estratégias apresentou os melhores resultados para a adequação desse mineral entre os grupos populacionais.

Transformar uma simulação em política pública, contudo, exige avaliar necessidades e possíveis excessos. Especialistas ouvidos pelo Science Media Centre destacaram que propostas de fortificação com iodo precisam considerar cuidadosamente a relação entre benefícios e riscos.

Por que os números britânicos não podem ser transferidos ao Brasil

A contribuição de cada alimento para a nutrição varia conforme os hábitos e as políticas de cada país. No Brasil, a iodação do sal para consumo humano integra uma estratégia nacional de prevenção dos distúrbios por deficiência de iodo, monitorada pela Anvisa.

Essa diferença impede aplicar diretamente à população brasileira os percentuais encontrados no modelo britânico. O mesmo vale para a oferta de produtos: marcas, formulações e práticas de fortificação podem mudar entre mercados.

A orientação prática permanece útil: ao substituir um alimento consumido com frequência, é preciso considerar quais nutrientes ele fornecia e como serão obtidos na nova rotina. Para as alternativas vegetais, essa resposta está na composição do produto escolhido e no conjunto da alimentação.

 

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