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Ciência

Um buraco negro minúsculo poderia atravessar seu corpo? O que a ciência diz sobre esse cenário improvável (e um pouco assustador)

Um físico da Universidade Vanderbilt investigou um cenário digno de ficção científica: o que aconteceria se um buraco negro primordial atravessasse o corpo humano. A má notícia: os maiores poderiam causar danos sérios. A boa notícia: a chance disso ocorrer é praticamente nula, porque esses objetos — se existirem — são incrivelmente raros.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Buracos negros costumam habitar o imaginário como monstros cósmicos devoradores de estrelas. Mas e se um deles, em escala microscópica, passasse por você? Esse foi o ponto de partida de um novo estudo publicado no International Journal of Modern Physics D. O físico Robert Scherrer analisou como buracos negros primordiais — hipotéticos remanescentes do Big Bang — interagiriam com o corpo humano. O resultado mistura ciência séria com um alívio final: não precisamos nos preocupar.

O que são buracos negros primordiais

Buracos negros primordiais são objetos teóricos que teriam surgido frações de segundo após o Big Bang, antes mesmo das primeiras estrelas. Eles podem variar de massa como nenhum outro tipo conhecido:

  • desde 100 mil vezes mais leves que um clipe de papel,

  • até centenas de milhares de massas solares.

Alguns pesquisadores acreditam que eles poderiam compor parte — ou até a totalidade — da matéria escura, que representa cerca de 85% da massa do Universo.

O próprio Scherrer já havia investigado como formas alternativas de matéria escura poderiam afetar o corpo humano. Isso o levou a estender os cálculos para os buracos negros primordiais.

Por que um físico estudaria algo tão improvável?

De acordo com Scherrer, o interesse recente por buracos negros — impulsionado por imagens diretas deles e por detecções de ondas gravitacionais — abriu espaço para questões inusitadas. Além disso, uma velha história de ficção científica dos anos 1970, em que uma pessoa morria ao ser atravessada por um buraco negro, ficou registrada em sua memória.

O objetivo, então, foi determinar qual tamanho um buraco negro primordial precisaria ter para realmente machucar alguém.

Dois mecanismos destrutivos: onda de choque e forças de maré

Scherrer analisou dois efeitos principais:

1. Ondas de choque supersônicas

Um buraco negro primordial atravessaria o corpo mais rápido do que o som, produzindo uma onda de choque que poderia danificar tecidos como um projétil. O efeito seria parecido com o de uma bala atravessando o corpo.

2. Forças gravitacionais de maré

Buracos negros geram uma diferença de força gravitacional entre pontos próximos — as chamadas forças de maré. Em um encontro próximo, essa variação poderia literalmente rasgar células humanas, especialmente no cérebro, extremamente sensível a microvariações gravitacionais.

O cenário catastrófico (e por que ele é quase impossível)

Scherrer conclui que:

  • um buraco negro primordial grande o suficiente (tamanho de um asteroide ou maior) poderia causar ferimentos graves ou morte;

  • um buraco negro muito pequeno poderia atravessar seu corpo sem você perceber, deixando apenas uma trilha invisível.

Mas o ponto principal do estudo é outro:

Mesmos os buracos negros primordiais grandes são tão raros — se é que existem — que a chance de um cruzar seu caminho é essencialmente zero.

Para o físico, não há motivo para adicionar “microburacos negros assassinos” à lista de medos modernos.

Um estudo curioso, mas cientificamente útil

Apesar do tema inusitado, a pesquisa tem relevância. Ao calcular os efeitos de objetos hipotéticos no corpo humano, Scherrer busca limites físicos para a matéria escura e para a possível existência de buracos negros primordiais. Se nunca observamos danos biológicos compatíveis com esse tipo de evento, isso pode indicar:

  • que esses objetos não existem,

  • ou que são pequenos demais para causar impacto,

  • ou que são extremamente raros.

Para a cosmologia, esses detalhes ajudam a refinar modelos do Universo primitivo.

 

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