Objetos interestelares são raríssimos visitantes cósmicos. Eles surgem de outros sistemas planetários e atravessam o nosso apenas uma vez, oferecendo pistas únicas sobre materiais formados longe do Sol. O cometa 3I/ATLAS é um desses viajantes. Descoberto em 2024, ele já está deixando o Sistema Solar em alta velocidade. Mesmo assim, alguns pesquisadores acreditam que ainda seria possível persegui-lo — com uma missão espacial que poderia durar meio século.
Um visitante interestelar que chegou tarde demais

Objetos interestelares funcionam como verdadeiras cápsulas do tempo do cosmos. Eles carregam materiais formados em outros sistemas estelares e podem revelar pistas sobre a formação de planetas fora do nosso entorno.
O 3I/ATLAS se encaixa exatamente nesse perfil. O cometa expulsa dióxido de carbono e vapor de água que podem ter se formado bilhões de anos atrás, antes mesmo do nascimento do Sistema Solar.
O problema é que ele foi detectado tarde demais. Quando astrônomos identificaram o objeto, em julho de 2024, ele já estava dentro da órbita de Júpiter e viajando a mais de 60 quilômetros por segundo.
Em outubro daquele ano, o cometa alcançou sua maior aproximação do Sol. Desde então, segue acelerando em direção ao espaço interestelar, deixando pouquíssimo tempo para que cientistas planejem uma missão direta para alcançá-lo.
Uma missão que poderia interceptá-lo décadas depois
Mesmo com o atraso, alguns pesquisadores acreditam que ainda existe uma oportunidade — pequena, mas real.
Um estudo liderado por Adam Hibberd, da Initiative for Interstellar Studies, em parceria com Marshall Eubanks (Space Initiatives Inc.) e Andreas Hein (Universidade de Luxemburgo), sugere que uma missão poderia ser lançada em 2035.
Segundo o trabalho, publicado como pré-print no arXiv e enviado ao Journal of the British Interplanetary Society, a sonda poderia interceptar o cometa por volta de 2085.
Nessa época, o 3I/ATLAS estaria a cerca de 732 unidades astronômicas do Sol. Uma unidade astronômica corresponde à distância média entre a Terra e o Sol.
Isso significa que o encontro ocorreria a uma distância mais de quatro vezes maior do que a percorrida pela sonda Voyager 1 desde seu lançamento, em 1977.
A data de 2035 não foi escolhida por acaso. Nesse período, Terra, Júpiter, o Sol e o cometa estarão alinhados de forma favorável, reduzindo a energia necessária para a missão.
A manobra Oberth: usar o Sol como catapulta

O segredo da proposta está em um princípio conhecido como efeito Oberth, formulado em 1929 pelo cientista austro-húngaro Hermann Oberth.
A ideia é relativamente simples: quanto maior a velocidade de uma nave no momento em que seus motores são acionados, maior será o ganho de impulso.
Na prática, a nave se aproximaria muito do Sol e acionaria seus motores no ponto mais próximo da estrela — chamado periélio — quando já estaria se movendo extremamente rápido.
Esse impulso extra permitiria lançar a sonda para fora do Sistema Solar com velocidades recordes.
Segundo Marshall Eubanks, praticamente todas as missões espaciais utilizam o efeito Oberth de alguma forma. Mas uma manobra tão extrema, com uma queima significativa de combustível tão próxima do Sol, nunca foi realizada dessa maneira.
Dependendo da velocidade obtida na manobra, a interceptação poderia ocorrer entre 30 e 50 anos após o lançamento.
Se o plano funcionasse, a sonda alcançaria a maior velocidade já atingida por um objeto construído pela humanidade.
Calor extremo e trajetória complexa
O grande desafio é sobreviver à proximidade do Sol.
A proposta exige que a nave passe a apenas 3,2 raios solares do centro da estrela — uma distância extremamente pequena em termos astronômicos.
Para comparação, a missão Parker Solar Probe da NASA já enfrentou temperaturas entre 1.370 °C e 1.400 °C em seu escudo térmico durante suas aproximações solares.
Para resistir a condições semelhantes, os pesquisadores sugerem um escudo térmico de composto de carbono com camadas adicionais de aerogel.
A trajetória da missão também seria incomum. Em vez de seguir diretamente para o cometa, a nave viajaria primeiro até Júpiter.
Após cerca de um ano, utilizaria a gravidade do planeta gigante para desacelerar e redirecionar sua rota em direção ao Sol. Só então realizaria a perigosa manobra Oberth.
Os pesquisadores também sugerem que a missão poderia ser lançada por uma Starship Block 3, da SpaceX, abastecida em órbita terrestre baixa. A sonda teria cerca de 500 kg — massa comparável à da missão New Horizons, que visitou Plutão.
Vale a pena perseguir um cometa por décadas?
Mesmo que tecnicamente possível, a missão levanta uma questão importante: vale a pena perseguir um objeto por décadas para obter apenas um breve sobrevoo?
A dúvida ganha força porque novos telescópios podem encontrar muitos outros visitantes interestelares no futuro.
O Observatório Vera C. Rubin, que começou a operar no Chile, pode detectar aproximadamente um cometa interestelar por ano — um salto enorme em relação aos poucos já identificados até hoje.
Além disso, a Agência Espacial Europeia planeja lançar em 2028 a missão Comet Interceptor, que ficará estacionada no ponto de Lagrange L2 aguardando a descoberta de um alvo adequado.
Esse tipo de estratégia pode tornar muito mais fácil estudar visitantes interestelares futuros.
Mesmo assim, os cientistas não descartam a ideia de perseguir objetos como o 3I/ATLAS. Técnicas como a manobra Oberth também poderiam ser úteis para explorar regiões distantes do Sistema Solar — incluindo possíveis mundos transnetunianos ou até o hipotético Planeta Nove.
Enquanto isso, o 3I/ATLAS continua se afastando silenciosamente, carregando pistas sobre outros sistemas planetários.
Talvez nenhuma nave humana consiga alcançá-lo. Ou talvez, dentro de muitas décadas, uma pequena sonda terrestre finalmente consiga interceptar esse mensageiro de outra estrela.
[ Fonte: DW ]