Construir prédios altos normalmente significa transportar enormes quantidades de materiais, coordenar máquinas pesadas e enfrentar meses ou anos de trabalho. Pesquisadores russos acreditam que parte desse processo pode ser radicalmente simplificada. A proposta envolve fabricar módulos praticamente no próprio canteiro usando uma técnica incomum de concreto. Segundo seus desenvolvedores, um edifício de 25 andares poderia ter sua estrutura levantada em apenas 120 dias.
A ideia transforma o próprio canteiro em uma fábrica

A tecnologia foi desenvolvida por pesquisadores do Instituto de Arquitetura e Construção da Universidade Estatal dos Urais do Sul (SUSU), na Rússia.
A proposta parte de dois problemas conhecidos da construção tradicional: o alto custo das estruturas monolíticas e a dependência da logística para transportar materiais e componentes até a obra.
Em vez de produzir grandes módulos em fábricas distantes e levá-los posteriormente até o endereço do edifício, os pesquisadores propõem instalar oficinas robóticas móveis diretamente no canteiro.
Essas estruturas funcionariam como pequenas fábricas temporárias.
Ali seriam produzidos grandes blocos habitacionais pré-fabricados, que depois poderiam ser posicionados para formar os diferentes pavimentos do edifício.
O sistema foi patenteado pelos pesquisadores e pode reduzir uma das grandes dificuldades da construção modular: transportar peças gigantes por longas distâncias.
Mas o elemento mais curioso aparece na maneira como o concreto é moldado.
O concreto não é produzido exatamente como estamos acostumados

Os cientistas chamam a técnica de método de “concreto descendente”.
Na construção monolítica convencional, o concreto normalmente é despejado em formas estáticas e permanece ali enquanto ganha resistência. A proposta russa transforma esse processo em algo mais dinâmico.
Uma plataforma horizontal contendo concreto desce acompanhada por uma película de polímero. Ao mesmo tempo, geradores de ultrassom atuam sobre as juntas tecnológicas entre as diferentes camadas.
O objetivo é fazer com que essas camadas funcionem como uma estrutura monolítica contínua.
Segundo os pesquisadores, a primeira camada consegue alcançar a resistência necessária em apenas uma hora.
Essa velocidade permitiria fabricar os elementos estruturais em sequência e acelerar significativamente a montagem.
A lógica lembra alguns conceitos utilizados pela impressão 3D de casas, mas a tecnologia apresentada pela universidade russa segue outro caminho: utiliza elementos monolíticos de concreto armado produzidos em camadas e posteriormente empregados como grandes módulos de construção.
Um prédio de 25 andares em apenas quatro meses
É aqui que aparecem os números mais chamativos.
De acordo com as estimativas apresentadas pelos próprios desenvolvedores, seria possível construir a estrutura de um edifício de 25 pavimentos em aproximadamente 120 dias.
Isso significa cerca de quatro meses.
A tecnologia também poderia reduzir significativamente os custos das novas construções. O projeto foi divulgado com a perspectiva de tornar determinadas obras até 50% mais baratas, embora esse número deva ser entendido como uma estimativa dos desenvolvedores, e não como um resultado já demonstrado em grandes projetos comerciais independentes.
A redução viria principalmente da industrialização do processo, da automação e da menor dependência do transporte de grandes componentes.
Se uma fábrica temporária pode ser instalada ao lado do futuro edifício, boa parte da produção acontece exatamente onde os módulos serão utilizados.
Menos deslocamentos também podem significar cronogramas mais previsíveis.
A tecnologia não foi pensada apenas para apartamentos
Embora a habitação social seja uma das aplicações mais evidentes, os pesquisadores acreditam que o método pode funcionar em projetos bastante diferentes.
A técnica também poderia ser utilizada na construção de estruturas subterrâneas e de infraestrutura destinada ao chamado Extremo Norte, região conhecida pelas condições climáticas severas.
Isso é especialmente relevante para a Rússia, onde obras em áreas remotas enfrentam desafios logísticos enormes.
Levar equipamentos, materiais e trabalhadores até determinadas regiões pode representar uma parcela considerável do orçamento. Uma unidade de produção móvel capaz de fabricar componentes perto da própria obra poderia alterar essa equação.
Os responsáveis pelo projeto também enxergam potencial de exportação da tecnologia.
O desafio agora é sair da universidade e chegar às cidades
Construção industrializada não é uma ideia nova. Casas modulares, concreto pré-fabricado e impressão 3D já tentam resolver alguns dos mesmos problemas.
A diferença está na maneira como cada tecnologia equilibra velocidade, custo, transporte, resistência estrutural e escala.
No caso da proposta da SUSU, os números apresentados são promissores, mas ainda será necessário observar como o método se comporta quando aplicado em projetos reais de grande porte.
Construir rapidamente uma estrutura é apenas parte do processo. Edifícios também precisam de instalações elétricas e hidráulicas, isolamento, fachadas, elevadores, sistemas de segurança e acabamento, além de atender às normas locais.
Por isso, reduzir o tempo necessário para levantar a estrutura não significa necessariamente terminar um prédio inteiro em 120 dias.
Mesmo assim, a proposta aponta para uma tendência cada vez mais evidente na engenharia: transformar o canteiro de obras em uma linha de produção automatizada.
Se a tecnologia conseguir reproduzir em escala real a economia projetada pelos pesquisadores, o impacto pode ser especialmente importante justamente onde construir barato é mais necessário: na habitação social.
[Fonte: Vision360]