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Ciência

Um “universo em miniatura” pode nascer dentro de uma estrela em colapso, segundo novo modelo

Uma nova solução das equações de Einstein descreve um possível destino alternativo para uma estrela em colapso, envolvendo uma região interna que começa a se expandir no momento mais extremo.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Quando uma estrela muito massiva perde a batalha contra a própria gravidade, parece haver apenas um caminho possível: o colapso continua até formar um buraco negro. Mas as equações de Einstein permitem explorar cenários mais estranhos. Dois físicos encontraram uma solução na qual, pouco antes do ponto sem retorno, algo começa a acontecer no centro da estrela. O resultado pode ser um dos objetos mais exóticos já imaginados pela física.

O destino que parecia inevitável

A relatividade geral descreve a gravidade não como uma força convencional, mas como uma deformação do espaço-tempo causada pela matéria e pela energia. Quando uma estrela extremamente massiva esgota suas fontes de energia, nada parece capaz de impedir que sua própria gravidade domine o processo.

Em um cenário clássico, o colapso pode continuar até a formação de uma singularidade: uma região em que as grandezas descritas pela teoria assumem valores extremos e as equações deixam de oferecer uma descrição física convencional.

É justamente esse ponto que torna os buracos negros tão intrigantes.

A existência desses objetos é sustentada por evidências observacionais cada vez mais fortes, mas a singularidade continua sendo uma das grandes questões em aberto da física. O problema não é simplesmente imaginar uma enorme quantidade de matéria concentrada em uma região pequena. É entender o que realmente acontece quando a matéria chega a condições tão extremas que nossa descrição atual deixa de funcionar.

Foi nesse território que Daniel Jampolski e Luciano Rezzolla, da Universidade Goethe de Frankfurt, decidiram explorar outra possibilidade. Em um trabalho publicado na Physical Review D, os pesquisadores estudaram matematicamente como uma estrela em colapso poderia chegar a um estado extremamente compacto sem necessariamente terminar como um buraco negro.

A resposta encontrada é tão incomum quanto o problema.

Gravidade7
© Ferdinand Schmutzer – Historiches Museum Bern

Algo começa a crescer justamente quando tudo deveria desabar

O objeto proposto pertence a uma classe conhecida como gravastar, abreviação de gravitational vacuum star, ou estrela de vácuo gravitacional.

A ideia não é nova. Gravastars são consideradas possíveis alternativas teóricas aos buracos negros e poderiam ser extremamente compactas e massivas, mas sem singularidade e sem horizonte de eventos.

O grande desafio sempre foi explicar como um objeto assim poderia nascer a partir de matéria comum.

É exatamente essa lacuna que o novo modelo tenta preencher.

Os pesquisadores partiram de uma situação simplificada de colapso gravitacional e encontraram uma solução na qual uma região do tipo espaço de de Sitter surge no centro da estrela. Inicialmente, essa região teria tamanho praticamente nulo. Depois, começaria a se expandir enquanto a matéria ao redor continuaria sendo comprimida pela gravidade.

Em outras palavras, o colapso poderia gerar uma espécie de “universo em miniatura” dentro da própria estrela.

A comparação com o Big Bang não é apenas uma metáfora. Nesse cenário, a região interna sofre uma expansão semelhante, enquanto a energia escura associada a esse estado atua no sentido oposto ao colapso gravitacional.

O resultado é uma disputa extraordinária: de um lado, a matéria tentando continuar desabando; do outro, uma região interna que começa a se expandir.

O pequeno universo poderia interromper o nascimento do buraco negro

Conforme a região interna cresce, sua expansão desacelera perto do raio de Schwarzschild. É justamente nessa etapa que ela pode encontrar a superfície da matéria que ainda está em colapso.

Segundo o modelo, as duas regiões podem chegar a um equilíbrio estático, formando uma gravastar.

Isso mudaria completamente o destino da estrela.

Em vez de atravessar o processo até formar um horizonte de eventos e uma singularidade, o colapso seria interrompido. A estrela terminaria como um objeto ultracompacto, com propriedades externas que poderiam fazê-lo parecer muito semelhante a um buraco negro.

Mas existe uma ressalva enorme.

Os próprios pesquisadores mostram que esse resultado exige condições bastante específicas e ajustadas. O modelo não significa que toda estrela que colapsa irá produzir uma gravastar. Pelo contrário: acima de uma determinada compactação inicial, o colapso até um buraco negro se torna inevitável dentro da solução estudada. O trabalho encontra um limite de compactação inicial de 3/8 para que o cenário de formação da gravastar seja possível.

Por isso, a descoberta não elimina os buracos negros.

Rezzolla ressalta que eles continuam sendo a solução mais simples e natural para o destino de um colapso gravitacional. A proposta serve, antes, para mostrar que as próprias equações da relatividade geral podem admitir um caminho muito mais exótico em determinadas condições.

E é justamente isso que torna a ideia tão interessante.

Uma estrela poderia chegar perigosamente perto de se tornar um buraco negro e, no instante mais extremo, desenvolver em seu interior uma região em expansão que interromperia o colapso. O “mini universo” não é um novo universo comprovado, mas uma possibilidade matemática dentro de um modelo teórico — e pode representar uma nova maneira de pensar sobre o que acontece no limite máximo da gravidade.

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