Vista do chão, a floresta parecia esconder apenas árvores, raízes e um relevo moldado pela natureza. Quando pesquisadores observaram a mesma região com pulsos de laser disparados do alto, porém, surgiu uma paisagem completamente diferente. Sob a vegetação da Amazônia equatoriana estavam as marcas de assentamentos conectados por enormes estradas, áreas agrícolas e milhares de estruturas construídas por uma sociedade que começou a ocupar a região há cerca de 2.500 anos.
A floresta escondeu uma paisagem inteira durante séculos

O cenário fica no vale do rio Upano, na Amazônia do Equador.
Arqueólogos já conheciam evidências de antigas ocupações humanas na região. O que permanecia difícil de compreender era a verdadeira dimensão dessas comunidades.
A vegetação amazônica simplesmente escondia grande parte das estruturas.
Isso mudou quando levantamentos aéreos permitiram observar cerca de 300 quilômetros quadrados de território. O estudo identificou 15 assentamentos, cinco deles considerados grandes centros. Entre os principais aparecem Kilamope e Sangay.
Não eram apenas pequenas aldeias espalhadas aleatoriamente pela floresta.
Os pesquisadores identificaram aproximadamente 6.000 plataformas retangulares de terra, utilizadas como bases para casas e outras construções. Muitas estavam organizadas ao redor de praças e distribuídas segundo padrões definidos.
Mas aquilo que conectava essas estruturas chamou ainda mais atenção.
Algumas estradas chegavam a 20 quilômetros

Os diferentes núcleos estavam ligados por uma extensa rede de caminhos.
Algumas vias principais alcançavam cerca de 10 metros de largura e se prolongavam por 10 a 20 quilômetros, muitas vezes formando linhas surpreendentemente retas através do terreno.
Construir uma infraestrutura desse tamanho exigiria organização.
Era necessário reunir trabalhadores, coordenar atividades e manter as vias ao longo do tempo. Isso sugere comunidades capazes de administrar um território muito maior e mais complexo do que antigas interpretações sobre a ocupação amazônica costumavam imaginar.
As construções também apareciam misturadas a campos agrícolas.
Seus habitantes cultivavam alimentos como milho, mandioca e batata-doce, adaptando o terreno às condições de chuva e umidade da região.
Em vez de uma cidade compacta como as atuais, o que existia ali parece ter sido uma espécie de urbanismo de baixa densidade: habitações, praças, estradas, jardins e plantações distribuídos por uma enorme extensão.
E foi justamente essa configuração que permaneceu quase invisível por tanto tempo.
Um laser conseguiu fazer aquilo que seria quase impossível no solo
A tecnologia responsável pela descoberta em grande escala é conhecida como LiDAR, sigla em inglês para detecção e medição por luz.
O funcionamento parece quase um truque.
Uma aeronave dispara enormes quantidades de pulsos de laser em direção ao solo. Muitos deles atingem as copas das árvores, mas outros conseguem atravessar pequenos espaços entre folhas e galhos até alcançar o terreno.
O equipamento mede quanto tempo a luz demora para retornar.
Depois, computadores processam milhões dessas medições e podem remover digitalmente a vegetação, produzindo um modelo tridimensional extremamente detalhado do relevo escondido.
Foi assim que apareceram plataformas, caminhos, áreas agrícolas, canais e sistemas de drenagem praticamente impossíveis de perceber em sua totalidade caminhando pela floresta.
O LiDAR não encontrou simplesmente algumas ruínas.
Ele permitiu enxergar a organização de toda uma paisagem.
Dezenas de milhares de pessoas podem ter vivido ali
Os assentamentos começaram a ser ocupados aproximadamente em 500 a.C. e permaneceram ativos durante cerca de mil anos.
Estimativas mencionadas pela publicação indicam que a região pode ter abrigado entre 10 mil e 30 mil habitantes, embora determinar a população exata de sociedades tão antigas seja extremamente difícil.
As construções também ajudam a explicar por que permaneceram escondidas.
Diferentemente das monumentais estruturas de pedra associadas a outras civilizações pré-colombianas, boa parte da arquitetura do vale do Upano foi construída com terra.
Depois de séculos de abandono e crescimento da floresta, plataformas e caminhos acabaram parecendo simplesmente parte do relevo natural.
Mas o mapa produzido pelos lasers revela outra história.
A descoberta muda uma antiga imagem da Amazônia
Durante muito tempo, uma visão simplificada descreveu a Amazônia pré-colombiana como uma floresta praticamente intocada, ocupada apenas por pequenas populações dispersas.
Descobertas arqueológicas das últimas décadas vêm tornando essa interpretação cada vez mais difícil de sustentar.
O vale do Upano oferece uma das evidências mais impressionantes.
Seus habitantes modificaram o território, construíram estradas, organizaram áreas residenciais e agrícolas e criaram uma infraestrutura capaz de conectar diferentes centros populacionais.
Ainda existem muitas perguntas.
Não está claro exatamente como essas comunidades eram governadas, como os diferentes centros se relacionavam ou por que acabaram abandonados. A atividade do vulcão Sangay aparece entre as hipóteses consideradas, mas não existe uma explicação definitiva.
Talvez a maior pergunta, porém, esteja em outro lugar.
O LiDAR está permitindo que arqueólogos observem áreas florestais de uma maneira impossível algumas décadas atrás.
Se uma rede desse tamanho conseguiu permanecer praticamente invisível durante séculos, quantas outras paisagens construídas por sociedades antigas ainda podem estar escondidas sob a Amazônia?
[Fonte: Tenemos noticias]