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Ciência

Uma nova técnica promete eliminar toxinas da água sem gerar resíduos

Um contaminante difícil de remover continua presente na água que consumimos. Agora, cientistas descobriram uma forma inesperada de destruí-lo usando apenas física, sem gerar novos resíduos perigosos.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Nem sempre o maior perigo é o que conseguimos ver. Em rios, lagos e até na água tratada que chega às casas, existem substâncias invisíveis que resistem a filtros e processos tradicionais. Durante anos, esse problema pareceu sem solução definitiva. Mas uma nova abordagem científica está mudando esse cenário. E o mais curioso: ela não depende de produtos químicos, mas de algo muito mais inesperado.

O contaminante silencioso que nunca desapareceu

Durante décadas, certos compostos químicos foram amplamente utilizados pela indústria por sua resistência e durabilidade. Entre eles, o bisfenol A, conhecido como BPA, ganhou protagonismo na fabricação de plásticos, resinas e embalagens.

O problema é que essa mesma resistência que o tornou útil também o transformou em um desafio ambiental persistente. Mesmo com restrições e regulamentações em diversos países, o BPA continua sendo detectado em diferentes fontes de água — desde rios e lagos até sistemas de abastecimento doméstico.

Esse composto está associado a impactos relevantes na saúde, especialmente por sua capacidade de interferir no sistema hormonal. Estudos apontam possíveis efeitos sobre reprodução, metabolismo e desenvolvimento, tanto em humanos quanto em animais.

Eliminar esse tipo de contaminante não é tarefa simples. Métodos tradicionais, como filtros de carvão ativado ou tratamentos biológicos, conseguem capturar parte dessas moléculas, mas raramente as destroem completamente. Na prática, isso significa que o problema muitas vezes apenas muda de lugar, gerando resíduos que exigem novos tratamentos.

Diante desse cenário, a busca por soluções mais eficazes e limpas tornou-se uma prioridade global. E foi nesse contexto que surgiu uma alternativa que combina física e inovação de forma pouco convencional.

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© Ultrasonics Sonochemistry (2025)

A técnica que usa som para transformar a água

Pesquisadores da Universidade de Glasgow desenvolveram um método que foge completamente da lógica tradicional: usar ultrassom para degradar contaminantes.

A técnica se baseia em um fenômeno chamado cavitação acústica. Na prática, ondas sonoras de alta frequência são aplicadas à água, criando microbolhas que crescem e colapsam em frações de segundo. Esse colapso gera condições extremas — temperaturas e pressões muito elevadas em escala microscópica.

É nesse momento que ocorre a transformação. As moléculas do contaminante são quebradas e convertidas em substâncias muito mais simples e inofensivas, como dióxido de carbono.

O diferencial está na combinação de frequências específicas — 20 kHz e 37 kHz — que potencializam o efeito. Em testes de laboratório, o sistema conseguiu degradar mais de 94% do BPA em apenas 40 minutos, sem necessidade de adicionar reagentes químicos ou catalisadores.

Isso representa um avanço importante, porque evita um dos principais problemas das tecnologias atuais: a geração de subprodutos tóxicos. Aqui, o processo não apenas remove o contaminante, mas o destrói de forma efetiva.

Além disso, o método já havia mostrado bons resultados em outros contextos, como na degradação de corantes industriais. Mas esta é uma das primeiras vezes que demonstra alta eficiência contra um composto tão resistente quanto o BPA.

O que pode mudar a partir daqui

Embora os resultados sejam promissores, o desafio agora é levar essa tecnologia para além do laboratório. Os pesquisadores já iniciaram conversas com empresas do setor hídrico para testar a aplicação em escala real, tanto em estações de tratamento quanto em ambientes industriais.

Se for viável economicamente, o impacto pode ser significativo. O uso de ultrassom poderia complementar ou até substituir processos tradicionais, reduzindo custos com produtos químicos e diminuindo a geração de resíduos perigosos.

Outro ponto relevante é a possibilidade de aplicar essa técnica em regiões com acesso limitado à infraestrutura avançada. Sistemas mais simples baseados em ultrassom poderiam ajudar a tratar água em áreas rurais ou afetadas por poluição severa.

Os cientistas também estão explorando o potencial da tecnologia para combater outros contaminantes ainda mais persistentes, como os PFAs — conhecidos como “químicos eternos”.

No fim das contas, a descoberta aponta para uma mudança de paradigma. Em vez de apenas filtrar ou transferir poluentes, a ciência começa a buscar formas de eliminá-los diretamente na origem.

E isso responde à pergunta central do título: sim, existe um contaminante invisível na água global — mas agora, pela primeira vez, há uma solução realista que pode destruí-lo sem deixar rastros.

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