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Tecnologia

Uma tecnologia usada há décadas na Europa pode revolucionar os data centers de inteligência artificial

Grande parte da energia consumida pela inteligência artificial não alimenta os processadores. Agora, pesquisadores propõem uma alternativa capaz de reduzir custos e tornar os data centers muito mais eficientes.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A expansão da inteligência artificial trouxe uma corrida por processadores mais rápidos e data centers cada vez maiores. Mas existe um desafio que raramente aparece nas discussões sobre o setor: o enorme gasto de energia necessário para manter esses equipamentos funcionando sem superaquecer. Enquanto empresas investem bilhões em infraestrutura, uma pesquisa sugere que a resposta para esse problema pode não estar em uma nova tecnologia futurista, mas em um recurso natural presente sob a superfície da Terra.

O maior gasto dos data centers talvez não seja aquele que você imagina

Quando se fala em inteligência artificial, é comum pensar em chips de última geração consumindo enormes quantidades de eletricidade. No entanto, uma parcela significativa desse consumo não está relacionada ao processamento dos dados.

Dependendo do tamanho da instalação, entre 10% e 40% de toda a energia elétrica utilizada por um data center é destinada exclusivamente aos sistemas de refrigeração. Sem eles, servidores que operam continuamente atingiriam temperaturas capazes de comprometer seu desempenho ou até causar falhas permanentes.

Além do elevado consumo energético, muitos sistemas atuais utilizam refrigeração evaporativa, que demanda grandes volumes de água doce. Isso transforma o resfriamento em um desafio tanto econômico quanto ambiental.

Pesquisadores do Prairie Research Institute, da Universidade de Illinois Urbana-Champaign, apresentaram uma alternativa publicada na revista científica Groundwater. A proposta utiliza sistemas conhecidos como ATES (Aquifer Thermal Energy Storage), que aproveitam aquíferos subterrâneos como reservatórios naturais de energia térmica.

O funcionamento é relativamente simples. Em diversas regiões, a água localizada em aquíferos profundos mantém temperatura praticamente constante ao longo do ano, próxima de 13 °C. Em vez de depender do ar quente do verão para iniciar o processo de resfriamento, o sistema utiliza essa água naturalmente fria para retirar calor dos servidores.

Como os equipamentos normalmente precisam operar em torno de 20 °C, começar o processo com água a 13 °C exige muito menos esforço dos sistemas de climatização. Isso reduz significativamente o consumo de eletricidade necessário para manter os servidores dentro da temperatura ideal.

Após absorver o calor dos equipamentos por meio de trocadores térmicos, a água retorna ao subsolo sem entrar em contato direto com os circuitos internos do data center.

Uma tecnologia consolidada que pode transformar a infraestrutura da inteligência artificial

O diferencial da proposta não está apenas no resfriamento mais eficiente. Durante o verão, a água devolvida ao aquífero armazena parte do calor retirado dos servidores. Esse calor pode ser recuperado durante o inverno para aquecimento de edifícios ou outros processos industriais.

O ciclo também funciona no sentido inverso. Nos meses frios, o subsolo acumula energia térmica de baixa temperatura, que poderá ser utilizada novamente quando o verão chegar. Na prática, o terreno funciona como uma enorme bateria térmica natural, armazenando frio e calor conforme a estação do ano.

Outro aspecto importante é que os pesquisadores defendem o uso de aquíferos salinos profundos, minas inundadas e reservatórios subterrâneos sem utilização para abastecimento humano. Dessa forma, o sistema evita competir com recursos de água potável, uma preocupação crescente diante da expansão dos grandes centros de dados.

Embora pareça uma proposta inovadora, essa tecnologia já está presente em diversos países europeus há décadas. Holanda, Alemanha e Suécia operam milhares de sistemas ATES em hospitais, universidades, edifícios comerciais e conjuntos residenciais, reduzindo significativamente os custos de climatização.

Nos Estados Unidos, porém, sua utilização ainda é bastante limitada. Os pesquisadores acreditam que a rápida expansão dos data centers voltados à inteligência artificial representa uma oportunidade ideal para ampliar essa aplicação.

O principal desafio não é tecnológico. Segundo o estudo, o maior obstáculo continua sendo financeiro. A instalação exige investimentos iniciais mais elevados devido à perfuração de poços e à infraestrutura subterrânea. Em compensação, esses sistemas podem operar durante décadas, reduzindo continuamente os custos de energia e manutenção.

À medida que a inteligência artificial amplia sua presença em praticamente todos os setores da economia, soluções capazes de diminuir o consumo energético tendem a ganhar cada vez mais importância. E, nesse cenário, o futuro da refrigeração talvez não dependa de máquinas mais sofisticadas, mas da capacidade de aproveitar um recurso natural que permaneceu escondido sob nossos pés durante todo esse tempo.

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