Milhares de golfinhos, botos e baleias morrem todos os anos após ficarem presos acidentalmente em redes de pesca. Esse problema, conhecido como captura incidental, representa uma das principais ameaças aos mamíferos marinhos. Agora, um estudo liderado pela Universidade de Newcastle mostra que uma solução simples e de baixo custo pode ajudar a reduzir esse impacto: reutilizar garrafas plásticas vazias como refletores acústicos presos às redes.
Um resíduo comum pode ajudar a proteger a vida marinha

A ideia surgiu a partir do professor Per Berggren, especialista em conservação da megafauna marinha na Universidade de Newcastle. Ao observar a grande quantidade de garrafas plásticas descartadas em praias frequentadas por comunidades pesqueiras, ele levantou uma pergunta simples: seria possível transformar esse resíduo em uma ferramenta para proteger os golfinhos?
A resposta veio por meio da física.
Quando fechada, uma garrafa plástica contém ar em seu interior. Debaixo d’água, esse ar reflete o som com muita eficiência. Assim, quando um golfinho utiliza a ecolocalização para navegar, a garrafa produz um eco muito mais intenso do que o gerado pelas finas redes de nylon.
Na prática, a rede deixa de ser quase invisível para os cetáceos e passa a funcionar como um obstáculo facilmente identificável.
Além disso, testes em laboratório mostraram que uma única garrafa pode tornar a rede entre 100 e 1.000 vezes mais detectável acusticamente.
Testes avaliaram a técnica em diferentes regiões do mundo

Depois dos experimentos em laboratório, os pesquisadores decidiram verificar se a solução também funcionaria em condições reais de pesca.
Para isso, a equipe realizou mais de 1.600 lançamentos de redes em três regiões distintas:
- costa do Peru;
- Zanzibar, na Tanzânia;
- sul do Brasil.
Enquanto Peru e Zanzibar utilizaram redes próximas à superfície, os testes brasileiros aconteceram com redes posicionadas em águas mais profundas.
Essa comparação permitiu analisar como os golfinhos reagiam em ambientes com características acústicas diferentes.
Brasil apresentou os resultados mais expressivos
Foi no litoral brasileiro que os cientistas observaram os melhores resultados.
Durante o primeiro teste, nenhuma captura acidental de golfinhos foi registrada nas redes equipadas com garrafas plásticas. Já as redes convencionais continuaram capturando animais.
Em seguida, uma segunda campanha ainda mais ampla, envolvendo 318 saídas de pesca, confirmou a eficácia da técnica.
Ao final dos testes, a captura incidental de golfinhos caiu 88%, enquanto a quantidade de peixes capturados para fins comerciais permaneceu praticamente inalterada.
Entre as espécies beneficiadas está a franciscana, um pequeno golfinho costeiro classificado como Vulnerável pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). A população desse cetáceo vem diminuindo há décadas, principalmente devido às redes de pesca.
A solução não funcionou da mesma forma em todos os locais
Apesar dos resultados positivos no Brasil, o desempenho da técnica foi diferente no Peru e em Zanzibar.
Nessas regiões, os pesquisadores não observaram uma redução significativa na captura acidental de golfinhos, botos ou tartarugas marinhas.
Segundo os cientistas, o ruído presente nas camadas superficiais do oceano pode explicar essa diferença. Ondas, vento e atividade humana produzem sons que dificultam a identificação do eco refletido pelas garrafas.
Por outro lado, em águas mais profundas e silenciosas, os golfinhos dependem mais da ecolocalização para encontrar obstáculos. Dessa forma, o sistema se torna muito mais eficiente.
Os pesquisadores destacam que não existe uma solução única para todas as pescarias. Cada ecossistema possui características próprias e exige estratégias específicas de conservação.
Uma alternativa barata que também beneficia os pescadores

Outro resultado importante do estudo foi o impacto praticamente nulo sobre a pesca comercial.
Em nenhum dos testes a técnica reduziu significativamente a captura das espécies de interesse econômico. Em alguns casos, os pesquisadores observaram até um pequeno aumento na captura de determinados peixes.
Esse aspecto pode facilitar a adoção da tecnologia por comunidades pesqueiras, especialmente em regiões onde a pesca artesanal representa a principal fonte de renda.
Além disso, o sistema praticamente não gera custos, pois utiliza um resíduo amplamente disponível.
Os pesquisadores também ressaltam que as garrafas permaneceram firmemente presas às redes durante todos os experimentos. Assim, o objetivo não é adicionar mais plástico ao oceano, mas reaproveitar materiais descartados de forma segura.
Após os resultados obtidos no Brasil, a equipe já iniciou novos testes no Camboja e na República do Congo. Agora, os cientistas querem verificar se a técnica também pode proteger outras espécies marinhas e funcionar em diferentes tipos de redes e ambientes oceânicos.
[ Fonte: EcoInventos ]