A indústria de tecnologia encontrou um obstáculo bastante físico para sua corrida pela inteligência artificial: faltam pessoas para construir toda a infraestrutura necessária. Data centers exigem eletricistas, técnicos, instaladores e diversos outros profissionais especializados. A solução proposta por uma nova startup do Vale do Silício é previsível: colocar mais IA no problema.
Uma IA para ajudar trabalhadores da construção
A NavigateAI acaba de sair do chamado “stealth mode”, período em que startups desenvolvem seus produtos sem grande exposição pública. A empresa já levantou US$ 25 milhões de investidores.
Sua proposta é desenvolver uma espécie de copiloto de inteligência artificial para profissionais que trabalham diretamente nos canteiros de obras.
A plataforma promete treinar trabalhadores, ajudar no gerenciamento de projetos, verificar a qualidade do serviço e fornecer informações instantaneamente.
Na prática, profissionais poderiam utilizar smartphones ou dispositivos vestíveis para mostrar à IA o que estão fazendo e receber orientações durante o trabalho.
No site da empresa, demonstrações apresentam situações nas quais o sistema analisa estruturas, realiza inspeções e verifica se determinados equipamentos foram instalados de acordo com projetos aprovados.
A tecnologia aparece justamente quando empresas de tecnologia enfrentam dificuldades para encontrar trabalhadores suficientes para construir rapidamente os data centers necessários para seus projetos de IA.
Construção civil não se aprende apenas olhando para uma tela
Existe, porém, uma diferença fundamental entre receber instruções e dominar um ofício.
Assentar tijolos parece relativamente simples quando um profissional experiente faz o trabalho. Preparar a argamassa, posicionar cada peça corretamente, manter o alinhamento e repetir o processo centenas de vezes exige prática.
O mesmo vale para eletricistas, soldadores, carpinteiros, instaladores, operadores de máquinas e outros profissionais.
Boa parte dessas habilidades é adquirida durante anos de experiência prática, muitas vezes começando como aprendiz e trabalhando sob supervisão de alguém mais experiente.
Também existe a dimensão física. Trabalhar durante horas carregando materiais, operando ferramentas e repetindo movimentos exige resistência que nenhum tutorial consegue fornecer.
A inteligência artificial pode ajudar com informações e verificações, mas transformar conhecimento teórico em habilidade manual continua sendo outra história.
Talvez o problema não seja a falta de tecnologia
A escassez de trabalhadores também possui causas econômicas e sociais.
Construção civil envolve trabalho fisicamente exigente e riscos de acidentes. Dependendo da função e da região, as remunerações nem sempre acompanham essas dificuldades ou competem com carreiras consideradas mais atraentes pelas novas gerações.
Nos Estados Unidos, o setor também depende significativamente da mão de obra de imigrantes.
Isso cria outra complicação. Operações e políticas migratórias mais rígidas podem reduzir a disponibilidade de trabalhadores justamente quando investimentos em data centers aumentam rapidamente a demanda por construção.
Nesse contexto, aplicativos capazes de aumentar a produtividade podem ajudar, mas dificilmente resolvem sozinhos as causas estruturais da falta de profissionais qualificados.
Existe ainda uma questão sobre os dados
Outro detalhe da proposta da NavigateAI chama atenção.
A empresa afirma que sua tecnologia é treinada utilizando ativos e equipes reais para aumentar a precisão das detecções.
Isso significa que ambientes de construção podem também produzir informações extremamente valiosas para aperfeiçoar sistemas capazes de compreender como esses trabalhos são realizados.
No curto prazo, a IA funcionaria como assistente dos profissionais. No longo prazo, porém, surge uma pergunta inevitável: até que ponto os dados coletados durante esse processo poderiam permitir automatizar partes cada vez maiores dessas atividades?
IA pode ajudar, mas não substitui anos de experiência
Ferramentas inteligentes podem ter aplicações úteis na construção. Elas podem consultar projetos rapidamente, identificar possíveis erros, organizar informações e auxiliar profissionais durante inspeções.
O problema aparece quando essa tecnologia é apresentada como substituta da formação prática.
Um eletricista experiente não domina seu trabalho simplesmente porque conhece uma sequência de instruções. O mesmo acontece com praticamente qualquer profissão especializada.
A ironia é que a corrida pela IA agora depende justamente de trabalhadores capazes de realizar tarefas que continuam extremamente difíceis de automatizar.
Para colocar modelos cada vez maiores na nuvem, o Vale do Silício primeiro precisa de pessoas no mundo real capazes de construir os prédios, instalar os equipamentos e manter tudo funcionando.