Durante muito tempo, falar em dependência de celular significava olhar principalmente para adolescentes e jovens adultos. Essa imagem começa a ficar ultrapassada. À medida que o acesso à internet se espalha por todas as idades, médicos e psicólogos percebem um comportamento que antes recebia pouca atenção. O problema não está simplesmente em usar tecnologia, mas no espaço que a tela começa a ocupar na rotina, nas relações e até na saúde.
A revolução digital chegou com força a uma geração inesperada
A distância entre pessoas mais velhas e o universo digital está diminuindo rapidamente. O avanço chama ainda mais atenção nas faixas etárias mais altas. Entre pessoas de 75 a 84 anos, o uso da internet passou de 29,9% para 38% em apenas um ano. Entre aquelas de 65 a 74 anos, cresceu de 59,9% para 65,1%.
É uma transformação positiva em muitos sentidos. Aplicativos de mensagens aproximam famílias, serviços digitais oferecem mais autonomia e a internet facilita o acesso a informações e benefícios.
Mas existe um lado menos visível dessa inclusão.

Especialistas que participaram do 32º Congresso Nacional da Sociedade de Médicos Gerais e de Família (SEMG) alertaram para um crescimento preocupante do uso abusivo de smartphones e redes sociais entre pessoas com mais de 70 anos.
A questão começa justamente onde o estereótipo termina: idosos também podem desenvolver uma relação problemática com as telas.
O problema pode estar escondido atrás de algo muito maior
Para os especialistas, contar simplesmente quantas horas alguém permanece diante do smartphone não é suficiente. É necessário observar o que a pessoa faz durante esse período e, principalmente, o que deixou de fazer por causa dele.
O psicólogo clínico Hilario Garrudo aponta que a situação pode ser particularmente delicada entre idosos que vivem sozinhos, sentem-se abandonados ou enfrentam algum sofrimento emocional não identificado. Nesses casos, problemas como solidão indesejada ou depressão podem estar associados ao uso excessivo.
O telefone, então, deixa de ser apenas uma ferramenta.

Redes sociais, vídeos e conteúdos infinitos podem preencher horas que antes eram ocupadas por trabalho, encontros, atividades físicas ou outras formas de interação. A aposentadoria, a perda de uma pessoa próxima ou mudanças profundas na rotina também podem criar momentos de vulnerabilidade.
Isso não significa que conversar com familiares pelo WhatsApp ou passar algum tempo nas redes seja prejudicial. Pelo contrário: chamadas e mensagens podem ajudar a combater a solidão.
A diferença aparece quando o aparelho começa a substituir sistematicamente outras dimensões da vida.
Segundo os especialistas consultados, o uso problemático pode afetar sono, alimentação, exercício e autocuidado. Também pode contribuir para isolamento e perda de atividade física, com consequências para o bem-estar geral.
Alguns sinais aparecem longe do contador de horas
Uma das recomendações é observar mudanças de comportamento.
Preferir constantemente o celular aos encontros presenciais é um possível sinal. Descuidar de tarefas importantes para continuar diante da tela também merece atenção.
Outro indício surge quando o aparelho se transforma principalmente em uma forma de escapar de dificuldades emocionais. Irritabilidade ou inquietação quando não é possível utilizar o telefone, além da percepção de que existe exagero sem conseguir reduzir o uso, também podem indicar uma relação problemática.
Garrudo recomenda registrar durante algum tempo não apenas quantas horas são gastas no smartphone, mas também quais conteúdos são consumidos e em quais momentos isso acontece.
O especialista menciona que mais de duas horas diárias podem favorecer a criação de um hábito capaz de evoluir para dependência. Esse número, porém, não deve ser interpretado isoladamente como um diagnóstico automático: contexto, finalidade e impacto na vida cotidiana são fundamentais para avaliar se existe realmente um problema.
Quando aparecem sinais consistentes de dependência, a recomendação é buscar avaliação de um profissional de psicologia com experiência em adições comportamentais.
A solução não é tirar o celular das mãos dos idosos
Há um detalhe fundamental nessa discussão: transformar a tecnologia em vilã pode produzir justamente o efeito contrário ao desejado.
Representantes de organizações de idosos lembram que a redução da exclusão digital é uma conquista importante. Estar conectado pode aumentar a autonomia, facilitar o acesso a serviços e direitos, manter relações familiares e abrir novas formas de participação social.
Por isso, o desafio passa a ser outro.
Em vez de afastar pessoas mais velhas do mundo digital, é necessário ajudá-las a utilizá-lo com segurança, autonomia e equilíbrio. Formação sobre fraudes online, privacidade, pensamento crítico e gestão do tempo diante das telas ganha cada vez mais importância.
Os próprios profissionais de saúde também podem desempenhar um papel diferente. Especialistas defendem que médicos de atenção primária passem a perguntar aos pacientes mais velhos sobre seus hábitos tecnológicos, especialmente quando percebem isolamento, alterações de humor ou redução das atividades fora de casa.
O fenômeno revela uma consequência curiosa do fim gradual da chamada brecha digital. A internet deixou de ser território exclusivo dos mais jovens, mas alguns dos problemas que nasceram com ela também deixaram de ter idade.
[Fonte: 65+]