Uma operação com histórico e nova dimensão

Embora os EUA realizem ações similares há décadas, o contexto atual é diferente. A administração norte-americana vê a Venezuela como um Estado híbrido, onde redes ilícitas de drogas e estruturas governamentais se entrelaçam.
Segundo especialistas ouvidos pela Deutsche Welle, a designação do Cartel dos Sóis como organização terrorista foi um marco importante. Criado nos anos 1990 para identificar militares envolvidos em tráfico, o termo hoje simboliza uma complexa rede entre autoridades venezuelanas e cartéis regionais.
“As estruturas estatais e redes criminosas se fundem para sustentar o regime”, resume um dos analistas.
A nova ofensiva dos EUA também tem um robusto amparo legal: leis como a MDLEA, a Kingpin Act e a RICO permitem intervenções marítimas e congelamento de ativos vinculados ao tráfico. Isso significa que rotas marítimas controladas por redes ligadas ao governo Maduro enfrentarão mais barreiras internacionais — com a cooperação de países do CARICOM, da França, do Reino Unido e dos Países Baixos.
Pressão internacional e impactos internos
Para os analistas, a operação representa uma dupla ofensiva: além do aspecto militar, agrava a crise econômica interna. Com restrições mais severas, o governo venezuelano perde acesso a mecanismos paralelos de capital usados para driblar sanções.
“Maduro agora está no cruzamento entre ilegalidade, política e jurisdição internacional”, aponta um dos especialistas.
Isso enfraquece as bases que sustentam o chavismo e pressiona ainda mais os setores militares e financeiros que garantem a sobrevivência do regime.
Como o chavismo reage

Apesar da escalada, os analistas descartam uma invasão militar direta dos EUA. A estratégia, dizem, é desestabilizar o chavismo por dentro, aumentando tensões internas e isolando Maduro.
No discurso, o governo aposta na retórica anti-imperialista, promovendo alistamentos civis e ampliando a presença de milícias comunitárias. Essas ações têm múltiplos objetivos: reforçar a narrativa de resistência nacional, controlar territórios e inibir dissidências internas.
Ao mesmo tempo, cresce o que os especialistas chamam de “porta giratória de presos políticos”: enquanto alguns opositores são libertados para sinalizar diálogo, outros são encarcerados. Atualmente, estima-se que mais de 800 pessoas estejam presas por razões políticas.
A população entre o medo e o ceticismo
Desde as eleições presidenciais de julho de 2024, marcadas por denúncias de fraude, o clima de instabilidade se aprofundou. A repressão pós-eleitoral levou a um recorde de 2 mil presos políticos e a uma população dividida entre esperança e cinismo.
“As pessoas sonham com mudança, mas sabem que cada sanção traz mais controle, mais barreiras e mais fome”, explica um dos entrevistados.
Com inflação alta, desabastecimento e desemprego crescente, sobreviver virou prioridade, e muitos venezuelanos optam por evitar confrontos diretos com o governo.
O tabuleiro geopolítico e os próximos passos
No cenário internacional, os EUA pretendem isolar financeiramente Maduro, mas especialistas alertam que a operação pode intensificar a repressão interna e fortalecer a narrativa chavista de resistência contra Washington.
“Maduro não vai recuar. Vai usar a narrativa anti-imperialista para consolidar sua base e justificar ainda mais a repressão”, avalia um analista.
O futuro da Venezuela pode ser definido no tabuleiro do Mar do Caribe. Com a carta do narcotráfico nas mãos dos EUA, a pressão cresce sobre um regime sustentado por alianças militares, redes ilícitas e controle social. O risco agora está em até onde os atores internos estarão dispostos a sustentar o governo frente à escalada internacional.
A operação dos EUA no Caribe pode mudar o equilíbrio de poder na Venezuela e intensificar disputas geopolíticas na região. A pergunta é: até onde o regime de Maduro consegue resistir à pressão internacional sem desmoronar por dentro?
[ Fonte: DW ]