“Nossa posição é que é justo ficarmos cada um nas posições que ocupa, ou seja, na atual linha de frente”, afirmou Zelensky em Kiev, ao comentar propostas recentes discutidas com os Estados Unidos. A fala foi interpretada como a admissão mais clara até agora de que parte do território hoje ocupado pela Rússia pode não retornar ao controle ucraniano no curto prazo.
Donbass vira o centro das negociações

O foco das possíveis concessões está na região do Donbass, no leste da Ucrânia, especialmente nas áreas de Donetsk e Lugansk. Zelensky deixou claro que a Ucrânia não aceita a anexação total da região, como deseja Moscou, mas indicou abertura para um acordo limitado.
“Os russos querem o Donbass inteiro, mas isso é algo com o qual não podemos concordar”, disse. Em seguida, levantou um argumento que mostra a nova postura de Kiev: se um lado recuar em parte do território, por que o outro não poderia fazer o mesmo na mesma proporção?
Essa lógica, até pouco tempo atrás, era rejeitada pelo governo ucraniano, que defendia a recuperação integral das áreas ocupadas.
Proposta dos EUA inclui zona especial no leste
Segundo Zelensky, os Estados Unidos apresentaram um conjunto de documentos — e não apenas um plano único — com possíveis caminhos para um acordo de paz. Uma das ideias em discussão envolve a criação de uma área de livre comércio em partes de Donetsk e Lugansk das quais as forças ucranianas se retirariam.
A Rússia, no entanto, se refere a esse arranjo como uma “zona desmilitarizada”. O presidente ucraniano reconheceu que esse ponto levanta preocupações sérias. “Se parte das tropas se retira e outra parte permanece, o que impede que essas forças avancem novamente no futuro?”, questionou.
O receio de Kiev é que qualquer concessão territorial acabe se tornando apenas uma pausa antes de uma nova ofensiva russa.
Pressão diplomática e articulação europeia
Zelensky também comentou a intensa agenda diplomática dos últimos dias. Ele se reuniu em Londres com o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, com o presidente francês, Emmanuel Macron, e com o chanceler alemão, Friedrich Merz. Paralelamente, emissários europeus mantiveram conversas em Washington com representantes do governo dos Estados Unidos.
Do lado americano, o enviado especial da Casa Branca para a Ucrânia, Pete Hegseth, e Jared Kushner, genro do presidente Donald Trump, participaram de negociações que incluíram uma visita a Moscou para diálogo direto com Vladimir Putin.
Segundo autoridades europeias ouvidas pela CNN, uma delegação ucraniana deve viajar a Paris nos próximos dias para uma nova rodada de negociações.
Cessar-fogo ainda depende de acordo mínimo
Apesar do novo tom, Zelensky deixou claro que um cessar-fogo imediato não está garantido. Para ele, é necessário ao menos um acordo provisório antes que os combates sejam suspensos. Ainda assim, indicou que Washington pressiona por um entendimento mais amplo.
De acordo com o presidente ucraniano, os Estados Unidos esperam um “entendimento completo” sobre o plano de paz proposto por Trump até o Natal.
A admissão de concessões territoriais não encerra a guerra, mas sinaliza uma virada estratégica. Agora, o mundo observa para ver se essa abertura será suficiente para destravar negociações — ou se o impasse seguirá custando tempo, território e vidas.
[Fonte: Correio Braziliense]