Nos últimos meses, a relação entre Estados Unidos e Rússia entrou em um novo ciclo de tensão. Washington anunciou sanções contra as gigantes russas Rosneft e Lukoil, enquanto Moscou testou armas estratégicas como o míssil nuclear Burevestnik e o drone submarino Poseidon.
Ambos insinuam que podem retomar testes nucleares — um alerta que reforça o clima de confronto, não de negociação.
Tudo isso contrasta com o início do segundo mandato de Donald Trump, quando o presidente americano dizia querer “fazer as pazes” com Putin e encerrar a guerra na Ucrânia.
Mas por que essa diplomacia direta não deu resultado?
Conversas existem — progresso, não

Trump e Putin voltaram a se falar com frequência em 2025. Houve telefonemas regulares e até um encontro no Alasca, algo inédito desde o início da invasão russa em 2022.
Mas, apesar do contato, nada mudou.
“Falar já é um avanço, mas ainda é só isso”, resume Andrew Peek, ex-diretor de assuntos europeus e russos no Conselho de Segurança Nacional dos EUA.
Segundo fontes diplomáticas ouvidas pela BBC, Trump acreditava que conversas diretas e “química pessoal” seriam suficientes para destravar concessões.
Mas Putin nunca sinalizou disposição real de ceder.
O enviado especial que confundia o Kremlin
Na tentativa de acelerar negociações, Trump enviou ao Kremlin seu amigo pessoal Steve Witkoff, empresário do setor imobiliário e sem experiência diplomática.
Segundo diplomatas europeus, Witkoff voltava de Moscou convicto de que Putin faria concessões — algo que nunca se confirmava.
Um ex-funcionário do Kremlin afirmou que ele não compreendia nuances da posição russa e nem sempre transmitia corretamente as demandas americanas.
O encontro no Alasca escancarou a distância entre as partes.
Nenhum anúncio, nenhuma proposta concreta e, segundo o Financial Times, até uma “bronca histórica” de Putin, quando o russo rejeitou de imediato a ideia de aliviar sanções em troca de um cessar-fogo.
Trump saiu enfurecido.
“Tenho boas conversas com Vladimir, mas elas não levam a lugar nenhum”, declarou depois.
O que Putin quer — e por que os EUA não aceitam
A posição oficial de Moscou permanece praticamente imutável. Para encerrar a guerra, Putin exige:
- reconhecimento da soberania russa sobre cinco regiões ucranianas;
- neutralidade da Ucrânia;
- redução drástica do Exército ucraniano;
- garantias constitucionais para a língua russa;
- suspensão de todas as sanções ocidentais.
Na prática, isso significaria transformar a Ucrânia em um Estado submisso à Rússia — algo completamente incompatível com a estratégia americana e com os interesses de Kiev.
“O que está em jogo não é território”, diz um alto funcionário europeu.
“Para Putin, é soberania. Ele quer controlar o futuro político e militar da Ucrânia.”
Ou seja: não há acordo possível sem que a Ucrânia abdique de autonomia — e isso é inaceitável para EUA, Otan e governo ucraniano.
Trocas territoriais e promessas vazias
Trump chegou a sugerir publicamente que a Crimeia “continuaria russa” e, segundo reportagens, sua equipe avaliou reconhecer a anexação do território.
Em outubro, ele voltou a mencionar uma possível “troca territorial”.
A Rússia até cogitou um acordo baseado nas linhas atuais de frente, mas manteve a exigência do controle completo do Donbas — região essencial por motivos econômicos e simbólicos.
Nas negociações, o território é difícil, mas as garantias de segurança são o verdadeiro impasse.
A Ucrânia quer garantias firmes dos EUA e da Otan.
A Rússia não aceita nenhuma.
“Zero flexibilidade”, resume Andrew Peek.
A tentativa frustrada de Budapeste
Em outubro, Trump e Putin instruíram o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e o chanceler russo, Sergei Lavrov, a preparar uma cúpula em Budapeste.
Nunca aconteceu.
Segundo a Bloomberg, Rubio percebeu que a Rússia não havia mudado nada em sua posição.
O Financial Times afirma que Moscou enviou um memorando repetindo as mesmas exigências — e isso frustrou Washington.
Rubio desabafou:
“Não podemos continuar realizando reuniões só por realizar.”
Lavrov rebateu, dizendo que as acusações eram “falsificações descaradas”, mas também não apresentou propostas novas.
Ucrânia, Europa e a estratégia de “ganhar tempo”
No início do mandato, Trump parecia inclinado a negociar diretamente com Putin, ignorando a Ucrânia — algo que alarmou europeus e o governo de Kiev.
Desde então, Ucrânia e aliados trabalharam intensamente nos bastidores para convencê-lo de que qualquer concessão ampla à Rússia comprometeria a segurança europeia — e a própria segurança dos EUA.
Essa pressão ajudou a frear a aproximação de Trump com Putin.
“Sabíamos que ele perceberia que Putin não negociaria de boa-fé. Nossa tarefa era ganhar tempo — e funcionou”, disse um diplomata europeu.
Sanções, testes nucleares e um novo ciclo de tensão
Em outubro, a Casa Branca anunciou seu primeiro grande pacote de sanções, mirando o setor petrolífero russo.
O secretário do Tesouro disse que as medidas “levarão Putin à mesa”.
Putin respondeu dizendo que a Rússia “não muda de política sob pressão” — e em seguida testou um míssil com capacidade nuclear.
O recado foi claro: a diplomacia travou.
A essa altura, três meses após a cúpula do Alasca, Trump não conseguiu convencer Putin a recuar, e o Kremlin não demonstra interesse real em negociar.
Enquanto a guerra continua destruindo vidas e cidades, o impasse entre Moscou e Washington parece mais profundo do que nunca — e qualquer acordo ainda está muito distante no horizonte.
[Fonte: Correio Braziliense]