Durante uma viagem ao Quirguistão, Putin reforçou que a Rússia só colocará fim à invasão se a Ucrânia retirar suas tropas das áreas que Moscou reivindica como suas. Na prática, o presidente russo volta a exigir o reconhecimento — formal ou tácito — da Crimeia, anexada ilegalmente em 2014, e da região de Donbas, composta por Luhansk e Donetsk, hoje majoritariamente ocupada por forças russas.
Para Kiev, essa condição simplesmente não existe. O governo ucraniano já descartou ceder o que ainda controla em Donbas e afirma que “recompensar a agressão” seria inaceitável.
Putin foi além: acusou a Ucrânia de lutar “até o último ucraniano” e disse que a Rússia estaria disposta a fazer o mesmo. Ele também afirmou que, se Kiev não aceitar retirar-se voluntariamente, Moscou tomará o restante dos territórios “pela força das armas”.
Avanços lentos, perdas altas e pressão internacional

Apesar da retórica dura, a Rússia enfrenta dificuldades no campo de batalha. Segundo o Instituto para Estudo da Guerra, com sede nos EUA, o ritmo atual de avanço russo no leste do país é tão lento que Moscou levaria quase dois anos só para ocupar totalmente a região de Donetsk.
Esse cenário contrasta com o discurso de força de Putin e reforça o alerta de que o custo humano da guerra segue muito alto — tanto para os russos quanto para os ucranianos.
As declarações também ocorrem em meio a uma nova rodada de negociações. Nas últimas semanas, Washington e Kiev discutiram um plano de paz elaborado por EUA e Rússia. A proposta inicial, considerada muito favorável ao Kremlin, passou por ajustes e continua em debate.
Putin disse que um novo rascunho já foi enviado a Moscou e poderia servir como “base” para acordos futuros — desde que pontos específicos sejam revisados “na linguagem diplomática adequada”, segundo ele.
Crimeia, Donbas e o impasse que bloqueia qualquer avanço
Indagado se a Crimeia e Donbas poderiam ser reconhecidas sob controle russo, mesmo sem um acordo legal formal, Putin respondeu que essa é exatamente a questão central nas conversas com os Estados Unidos.
O Kremlin espera receber, nos próximos dias, uma delegação americana liderada pelo enviado especial Steve Witkoff, que pode viajar acompanhado de Jared Kushner, genro do presidente Donald Trump. Em paralelo, o secretário do Exército dos EUA, Dan Driscoll, deve visitar Kiev.
Trump afirmou que “restam apenas alguns pontos de discordância” entre Rússia e Ucrânia e condicionou uma reunião com Volodymyr Zelensky apenas após a assinatura de um acordo de paz — algo que, de fato, ainda está distante.
Putin volta a questionar Zelensky e provoca a Europa
Em sua fala, Putin voltou a chamar o governo ucraniano de ilegítimo, alegando que não faz sentido assinar documentos com Zelensky. A Ucrânia está sob lei marcial desde 2022 e, por isso, não realizou eleições. Para evitar questionamentos, o Parlamento ucraniano reafirmou por unanimidade a legitimidade do presidente.
O líder russo também ignorou alertas europeus sobre possíveis ataques futuros contra países da União Europeia, classificando-os como “ridículos”. Mas esse não é o pensamento dominante no continente: a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, acusou Moscou de ainda agir com uma “mentalidade pós-Segunda Guerra Mundial”, tratando países soberanos como zonas que podem ser “divididas”.
O que esperar agora
A nova fala de Putin mostra, mais uma vez, como o reconhecimento da Crimeia e de Donbas permanece no centro de toda negociação — e por que qualquer acordo continua tão difícil. Enquanto Rússia, EUA e Ucrânia tentam construir uma ponte diplomática, o conflito se arrasta, o desgaste aumenta e a Europa segue em alerta.
Se o Kremlin não flexibilizar suas exigências, e Kiev não aceitar abrir mão de territórios, a guerra seguirá onde está desde 2022: sem solução rápida à vista.
[Fonte: Correio Braziliense]