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Tecnologia

Por que os paulistanos enfrentam horas de fila por donuts, cafés e experiências “instagramáveis”?

Donuts americanos, hamburguerias temáticas e cafeterias minimalistas: novos negócios em São Paulo causam alvoroço e atraem multidões. Especialistas explicam como desejo de pertencimento, influência cultural e redes sociais moldam esse fenômeno urbano.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Esperar mais de quatro horas em uma fila por uma rosquinha pode parecer exagero — mas, em São Paulo, virou tendência. A febre por estabelecimentos recém-inaugurados com forte apelo visual e atmosfera internacional está se espalhando e transformando o ato de consumir em um verdadeiro evento social. Mais do que comer, a experiência tornou-se um símbolo de status, desejo e pertencimento.

Restaurantes Insta
© X/@TalkativeNerd

 

O apelo da experiência e a fila como parte do ritual

Cafeterias com estética clean, lojas que remetem ao “lifestyle” americano e até restaurantes temáticos como o do Bob Esponja atraem um público que busca algo além do produto: uma experiência compartilhável. A inauguração da rede americana Krispy Kreme em São Paulo é o exemplo mais recente — filas quilométricas se formaram, e o tempo de espera chegou a quatro horas.

 

Para a socióloga Camila Crumo, especialista em consumo e alimentação, essa busca é parte de um ritual moderno de pertencimento. “Quando a refeição deixa de ser apenas para matar a fome e passa a representar status, estilo de vida e identidade, estamos diante de um consumo simbólico”, explica. O que importa não é apenas o sabor, mas a história que se pode contar — ou postar.

 

Cultura pop, escassez e o desejo de ter acesso

Esse fenômeno também está ligado à percepção de exclusividade e à ideia de que certos produtos antes inacessíveis agora estão ao alcance do público. Crumo ressalta que a escassez (ainda que fabricada) aumenta o valor percebido. “Mesmo existindo rosquinhas no Brasil, a rosquinha americana carrega um valor simbólico. Ela representa algo aspiracional”, diz.

 

A febre por marcas estrangeiras remete ao desejo de experimentar o “estilo de vida do filme”, como se o consumidor pudesse, por um momento, fazer parte do universo que admira nas redes ou no streaming. O consumo vira um ato performático, que reforça o próprio lugar social e o alinhamento com certas tendências.

 

Redes sociais e o senso de urgência

Inastagramaveis
© X/@rodrigoluisvelo

A força das redes sociais também é central nesse processo. As modas são efêmeras, as “trends” vêm e vão rapidamente, e quem não participa corre o risco de ficar de fora. A urgência em experimentar algo novo — e, principalmente, postar sobre isso — alimenta o ciclo.

 

“As pessoas são bombardeadas com imagens e conteúdos. Elas sentem que precisam participar, comer, fotografar e mostrar. É uma forma de se manter relevante dentro do grupo social”, afirma Crumo.

 

A dominação cultural americana e o “gringo é melhor”

Starbucks
© Unsplash

Segundo a socióloga, há também um componente histórico: a dominação cultural dos Estados Unidos, que ao longo do século XX construiu a imagem de que tudo o que vem de fora — especialmente de Hollywood — é melhor. Essa ideia ainda persiste, mesmo que de forma mais sutil.

 

Daniela Klaiman, especialista em futurismo e comportamento de consumo, analisa que esse imaginário do “importado = melhor” foi desafiado nos últimos anos com o crescimento do orgulho nacional. Eventos como a Copa do Mundo, as Olimpíadas e a ascensão da classe média alimentaram o sentimento de valorização do que é brasileiro.

 

No entanto, com o aumento da insegurança econômica, política e ambiental, observa-se um movimento de retração. “As pessoas voltam a buscar conforto no que é familiar, seguro — e o ‘gringo’ volta a ser visto como o ideal”, explica Klaiman.

 

Mais do que moda: reflexo social

Jovens como as estudantes Vitória Tomé e Laura Gea, que enfrentaram a fila da Krispy Kreme, fazem parte dessa geração conectada ao consumo de experiências. “Já fui em vários lugares modinha”, diz Laura. “Se você já experimentou e gostou, quer de novo. E quer antes dos outros.”

 

A busca pelo novo, pelo exclusivo e pelo compartilhável não é apenas uma moda passageira: é um espelho do nosso tempo, onde consumo, identidade, status e pertencimento se entrelaçam em uma sociedade cada vez mais moldada pelas imagens e pelas redes.

 

[ Fonte: G1.Globo ]

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