Quando pensamos no Sistema Solar, imaginamos uma estrutura relativamente estável composta pelos oito planetas conhecidos. Mas os astrônomos acreditam cada vez mais que esse cenário tranquilo é resultado de uma longa história de caos gravitacional, migrações planetárias e colisões violentas.
Agora, um estudo liderado por pesquisadores da Johns Hopkins University acrescenta um novo capítulo a essa história. Segundo os cientistas, dois grandes planetas podem ter orbitado próximos de Urano e Netuno nos primeiros milhões de anos do Sistema Solar. Esses corpos acabaram expulsos para o espaço interestelar, mas não antes de causar enormes perturbações em diversas luas.
Os resultados foram publicados na revista científica Icarus e ajudam a explicar algumas características incomuns observadas atualmente nos satélites dos planetas gigantes.
Um Sistema Solar mais populoso e caótico

A equipe liderada pelo pesquisador Matthew Clement utilizou modelos computacionais avançados para reconstruir a evolução do Sistema Solar exterior ao longo de cerca de 20 milhões de anos.
As simulações indicam que a configuração original do Sistema Solar era mais complexa do que a atual. Além dos planetas conhecidos, existiriam pelo menos duas super-Terras geladas, com massas intermediárias entre a da Terra e a de Netuno.
Durante milhões de anos, esses mundos teriam interagido gravitacionalmente com os gigantes gasosos e gelados, alterando órbitas e provocando instabilidades em larga escala.
Segundo os pesquisadores, algumas das evidências dessa antiga turbulência ainda estão preservadas nas órbitas das luas que observamos hoje.
As luas de Júpiter guardam pistas do passado

Um dos indícios mais interessantes apareceu no sistema de satélites de Júpiter.
As luas Io, Europa e Ganímedes apresentam uma rara configuração conhecida como ressonância orbital. Seus movimentos estão sincronizados de forma extremamente precisa, como engrenagens cósmicas funcionando em perfeita harmonia.
De acordo com o estudo, essa organização só teria sobrevivido ao longo de bilhões de anos se dois planetas adicionais realmente existissem e fossem posteriormente removidos do Sistema Solar.
Essa conclusão reforça modelos teóricos que sugerem que a arquitetura atual dos planetas gigantes foi moldada por eventos muito mais violentos do que se imaginava anteriormente.
Urano pode ter sofrido uma verdadeira catástrofe

Se as luas de Júpiter parecem ter escapado relativamente ilesas, o mesmo não ocorreu ao redor de Urano.
As simulações apontam que um dos planetas extras teria passado próximo ao gigante gelado, desencadeando fortes perturbações gravitacionais.
O resultado teria sido uma sequência de colisões entre luas uranianas, capazes de fragmentar satélites inteiros e alterar profundamente sua composição.
Segundo o pesquisador Nathan Kaib, esses impactos podem explicar uma característica intrigante observada atualmente em Miranda, uma das luas mais famosas de Urano.
A lua apresenta cerca de 50% mais gelo do que os demais satélites do planeta. Uma possível explicação é que colisões antigas vaporizaram parte dos materiais originais, permitindo posteriormente a recondensação e o acúmulo de gelo em sua superfície.
O destino dos planetas desaparecidos
Mas o que aconteceu com esses mundos?
Os cientistas acreditam que eles foram expulsos do Sistema Solar por meio de um processo conhecido como espalhamento gravitacional. Em essência, sucessivas interações com os planetas gigantes acabaram lançando esses corpos para além da influência gravitacional do Sol.
Após esse “efeito estilingue” cósmico, os planetas teriam se transformado em mundos errantes, vagando pelo espaço interestelar sem orbitar nenhuma estrela.
Embora seja impossível determinar exatamente como eram esses objetos, os pesquisadores acreditam que possuíam características semelhantes às de Netuno, com composição rica em gelo e atmosfera espessa.
As respostas podem estar congeladas nas luas de Urano
A próxima etapa da pesquisa será investigar com mais detalhes as superfícies das luas uranianas.
Os cientistas esperam encontrar evidências geológicas que confirmem as grandes colisões previstas pelos modelos computacionais. Fraturas, diferenças na composição química e padrões incomuns de distribuição de gelo podem funcionar como registros fossilizados daquele período turbulento.
Se essas evidências forem encontradas, elas poderão ajudar a reconstruir um dos capítulos mais antigos e misteriosos da história do Sistema Solar.
A descoberta reforça uma ideia cada vez mais aceita entre os astrônomos: o Sistema Solar que vemos hoje é apenas o sobrevivente de uma infância extremamente caótica, marcada por planetas desaparecidos, colisões gigantescas e mudanças radicais que moldaram o ambiente cósmico onde a Terra acabou surgindo.
[ Fonte: El Confidencial ]