Grande parte das emissões responsáveis pelo aquecimento global pode ser relacionada a um grupo relativamente pequeno de empresas produtoras de petróleo, gás e cimento. São 178 companhias conhecidas como “carbon majors”, responsáveis por uma parcela significativa do dióxido de carbono lançado na atmosfera desde o século XIX.
Agora, um novo estudo mostra que o impacto dessas emissões está longe de terminar. Mesmo que essas empresas deixassem de emitir gases de efeito estufa imediatamente, o carbono acumulado continuaria influenciando o clima durante séculos.
A pesquisa foi publicada na revista científica PLOS Climate e simulou diferentes trajetórias climáticas até o ano 2500.
Metade das emissões aconteceu depois de 1986
Um dos dados que mais chamou a atenção dos pesquisadores é relativamente recente.
Cerca de 50% das emissões atribuídas às 178 empresas ocorreram depois de 1986, período em que a relação entre gases de efeito estufa e aquecimento global já estava bem estabelecida cientificamente.
Para Dargan Frierson, professor de ciências atmosféricas e climáticas da Universidade de Washington e principal autor do estudo, o número mostra que uma parcela enorme das emissões aconteceu quando os riscos associados ao uso de combustíveis fósseis já eram conhecidos.
“Para mim, isso mostra que não precisávamos ter seguido esse caminho”, afirmou o pesquisador.
O CO₂ não desaparece rapidamente da atmosfera
O problema está na maneira como o dióxido de carbono se comporta depois de ser liberado.
Diferentemente de alguns gases, o CO₂ não simplesmente desaparece da atmosfera após um curto período. Parte dele é absorvida pelos oceanos, plantas e solos, mas esse processo acontece lentamente.
Ao mesmo tempo, a humanidade libera dióxido de carbono em um ritmo muito maior do que os sistemas naturais conseguem absorver.
O resultado é um acúmulo progressivo na atmosfera.
Isso significa que emissões realizadas décadas atrás continuam contribuindo para o desequilíbrio energético do planeta e podem afetar as temperaturas durante muito tempo.
Pesquisadores simularam o clima até 2500
Para medir esse impacto de longo prazo, Frierson e seus colegas utilizaram modelos climáticos capazes de projetar diferentes cenários até o ano 2500.
Depois, compararam simulações que incluíam ou excluíam as emissões históricas das 178 carbon majors até 2024.
Os dados vieram do banco Carbon Majors, que acompanha emissões associadas a grandes produtoras de combustíveis fósseis e cimento desde 1854.
Entre as empresas presentes na base estão gigantes como Shell, ExxonMobil e Chevron.
Somadas, as carbon majors emitiram mais de 1,5 trilhão de toneladas de dióxido de carbono equivalente desde meados do século XIX.
Emissões do passado continuarão afetando o futuro
As simulações mostraram que essas emissões históricas continuarão contribuindo para temperaturas mais elevadas e para impactos climáticos durante muito tempo.
A importância relativa delas depende, porém, do caminho que o mundo seguir nas próximas décadas.
Em cenários nos quais as futuras emissões caem rapidamente, o carbono liberado no passado pelas grandes produtoras representa uma parcela maior do aquecimento total.
Se as emissões globais continuarem elevadas, o carbono lançado no futuro passa a representar uma parcela muito maior do problema.
Mas existe um detalhe importante: a quantidade absoluta de aquecimento atribuída às emissões históricas das carbon majors permanece aproximadamente a mesma.
Por isso, os pesquisadores afirmam que essas emissões podem estar associadas não apenas aos impactos climáticos já observados, mas também a danos que continuarão surgindo durante muitos séculos.
Zerar emissões não faria a temperatura cair imediatamente
Estabilizar a temperatura global exige reduzir as emissões humanas de gases de efeito estufa para níveis próximos de zero.
Mesmo assim, o planeta não retornaria imediatamente às condições anteriores.
Estudos indicam que interromper a tendência atual de aquecimento pode levar décadas, enquanto um retorno das temperaturas globais a níveis próximos dos registrados antes da industrialização poderia exigir séculos.
Quanto maior for o aquecimento acumulado antes da redução das emissões, mais difícil e demorado será esse processo.
Para Frierson, isso reforça a necessidade de reduzir rapidamente o uso de combustíveis fósseis.
“Precisamos levar as emissões para muito perto de zero, e estamos muito longe disso agora”, afirmou.
O estudo também destaca outra consequência: mesmo com reduções rápidas, parte dos impactos futuros já está ligada ao carbono acumulado na atmosfera.
Isso torna necessárias não apenas políticas para diminuir as emissões, mas também medidas de adaptação capazes de proteger populações contra efeitos climáticos que poderão continuar aparecendo durante décadas — e, em alguns casos, séculos.