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Ciência

A África quer erguer uma muralha verde de 8 mil quilômetros. Plantar árvores é só parte do desafio

Criado em 2007, o projeto pretende recuperar 100 milhões de hectares até 2030. A iniciativa evoluiu de uma faixa de vegetação para um mosaico de áreas restauradas, mas enfrenta dificuldades de financiamento, coordenação e segurança.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Uma faixa de vegetação atravessando a África parece uma resposta simples à degradação das terras. Na prática, a Grande Muralha Verde exige muito mais do que distribuir mudas. Lançada em 2007, a iniciativa busca recuperar paisagens no Sahel, região ao sul do Saara, conectando esforços do Senegal a Djibuti. Dezenove anos depois, seu avanço depende de adaptar as intervenções ao ambiente e às necessidades de quem vive nesses territórios.

A meta é recuperar terras, não contar árvores

A África Quer Erguer Uma Muralha Verde De 8 Mil Quilômetros. Plantar árvores é Só Parte Do Desafio1
© Charles Marleau – Unsplash

Apesar da imagem de uma barreira contínua, o objetivo central da Grande Muralha Verde é restaurar áreas degradadas. A meta para 2030 inclui recuperar 100 milhões de hectares, capturar 250 milhões de toneladas de carbono e criar 10 milhões de empregos verdes.

Esses números, apresentados pela Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, representam objetivos do programa, e não resultados já alcançados.

Também existe uma diferença importante entre hectares recuperados e árvores plantadas. Uma área pode exigir regeneração da vegetação existente, conservação do solo ou melhorias no manejo agrícola. Contar mudas, isoladamente, não revela se o terreno recuperou sua capacidade de sustentar plantas e atividades produtivas.

A muralha deixou de ser apenas uma linha de árvores

O projeto evoluiu para uma abordagem integrada de recuperação das paisagens. Um documento da UNCCD descreve essa mudança: a proposta de formar um grande cinturão vegetal deu lugar a uma estratégia mais ampla de manejo sustentável dos ecossistemas.

Isso significa que a iniciativa não depende de transformar toda a região em uma floresta uniforme. Diferentes territórios precisam de soluções compatíveis com suas condições ambientais e formas de uso da terra.

A reportagem do Xataka destaca a importância de arbustos e de práticas agrícolas locais nessa transformação. Também aponta que plantações inadequadas de árvores em ambientes semiáridos podem apresentar baixa sobrevivência e pressionar os recursos hídricos.

A questão, portanto, não é escolher árvores ou arbustos para todo o continente. É identificar quais espécies e técnicas conseguem se estabelecer em cada lugar, sem comprometer a água e as atividades das comunidades.

As comunidades fazem parte da restauração

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© Pexels

Segundo a página de resultados da UNCCD, as áreas de intervenção abrangem 11 países. O progresso varia entre eles, assim como o momento em que começaram a executar as ações.

Os exemplos mostram a diversidade do trabalho. Em Burkina Faso, as atividades incluem controle da erosão, manutenção da fertilidade e geração de renda. No Senegal, a recuperação se conecta a iniciativas agroflorestais em territórios marcados pela agricultura e pela criação de animais.

A organização também descreve projetos conduzidos por comunidades locais para aumentar a resistência à seca e à degradação. Essa participação aproxima a recuperação ambiental das necessidades econômicas dos moradores.

Uma paisagem restaurada precisa continuar funcionando depois da intervenção inicial. Quando o manejo oferece benefícios para quem utiliza a terra, a conservação passa a integrar a rotina produtiva da região.

Medir o avanço exige cuidado com os números

Avaliar um programa dessa escala traz outro desafio: definir o que entra na conta. Terras em recuperação, áreas já restauradas e projetos localizados fora da faixa originalmente prevista não representam necessariamente a mesma coisa.

O documento da UNCCD sobre as lições da iniciativa identifica dificuldades de monitoramento, comunicação dos resultados e coordenação financeira. Também ressalta a necessidade de intervenções adequadas às condições locais.

Por isso, comparar balanços de períodos diferentes exige verificar seus critérios. Uma mudança no total divulgado pode refletir diferenças de metodologia ou de abrangência, além do avanço das obras no terreno.

Dinheiro e segurança limitam o caminho até 2030

A reportagem do Xataka aponta uma distância entre os compromissos financeiros anunciados e os recursos efetivamente aplicados. Também destaca que conflitos e insegurança dificultam o acesso a áreas com potencial de recuperação.

O Fundo Verde para o Clima descreve a Grande Muralha Verde como um projeto que reúne restauração, desenvolvimento e adaptação climática ao longo de cerca de 8 mil quilômetros.

Sua escala ajuda a explicar tanto a ambição quanto a complexidade. O sucesso dependerá menos de produzir uma faixa verde visível no mapa e mais de manter solos produtivos, vegetação adaptada e condições de vida melhores ao longo do tempo.

 

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