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Ciência

Fertilidade também pode depender das bactérias presentes no sêmen, aponta estudo

Um novo estudo sugere que o microbioma pode desempenhar um papel maior na fertilidade do que se imaginava. Desequilíbrios nas bactérias presentes no sêmen masculino e no intestino feminino foram associados a menores chances de gravidez e podem abrir uma nova frente na investigação da infertilidade.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante anos, grande parte das pesquisas nessa área se concentrou no microbioma vaginal. Agora, pesquisadores defendem que a avaliação da fertilidade considere o casal como um todo, incluindo microrganismos presentes no sêmen e no intestino.

Bactérias do sêmen podem influenciar a fertilidade

Esperma
© Pixel-Shot via Shutterstock

O estudo, publicado na revista The Lancet Obstetrics, Gynaecology, & Women’s Health e liderado pelo Hospital Universitário de Copenhague, analisou o microbioma intestinal e vaginal das mulheres e as bactérias presentes no sêmen dos homens.

Depois, os pesquisadores acompanharam as gestações e os nascimentos registrados entre os casais participantes.

Os resultados indicaram que determinados desequilíbrios bacterianos no sêmen estavam associados a uma redução considerável na probabilidade de o casal conseguir ter um filho.

Além disso, abortos espontâneos foram registrados com maior frequência entre casais nos quais o homem apresentava esse tipo de alteração.

Até agora, o microbioma seminal recebeu muito menos atenção científica do que o vaginal quando o assunto era fertilidade.

Microbioma intestinal feminino também apresentou relação

Entre as mulheres, os pesquisadores encontraram outra associação interessante.

Alterações na composição das bactérias intestinais foram relacionadas a um período maior até conseguir engravidar e a uma probabilidade menor de concepção por meio de tratamentos de fertilidade.

Por outro lado, o desequilíbrio intestinal não apresentou uma relação significativa com abortos espontâneos.

O resultado mais surpreendente apareceu justamente no microbioma vaginal.

Apesar de ser tradicionalmente uma das áreas mais estudadas quando se investiga a relação entre bactérias e fertilidade feminina, o desequilíbrio da flora vaginal não apresentou uma associação clara com infertilidade ou perda gestacional nessa pesquisa.

Isso não significa que o microbioma vaginal seja irrelevante para a saúde reprodutiva. Os resultados mostram apenas que, dentro da população analisada e dos critérios utilizados no estudo, outras comunidades bacterianas apresentaram associações importantes.

Estudo acompanhou mais de 350 mulheres

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© Pexels

A pesquisa acompanhou 353 mulheres e 191 parceiros masculinos recrutados entre abril de 2018 e setembro de 2023.

Os participantes estavam realizando tratamentos de fertilidade ou tinham histórico de abortos recorrentes.

No caso dos homens, os pesquisadores investigaram uma condição chamada de “disbiose seminal do tipo vaginal”.

Ela ocorre quando a composição bacteriana encontrada no sêmen apresenta características semelhantes às alterações bacterianas observadas em determinados quadros de disbiose vaginal.

Aproximadamente um em cada quatro homens analisados apresentava esse desequilíbrio.

Existe um detalhe particularmente importante: a alteração não aparece necessariamente em um espermograma convencional.

Isso significa que um homem pode apresentar resultados aparentemente normais nos exames tradicionais de sêmen e, ao mesmo tempo, possuir uma composição bacteriana associada a menores taxas de sucesso reprodutivo.

Taxa de nascimento caiu de 85% para 57%

A diferença observada entre os grupos chamou a atenção dos pesquisadores.

Entre os casais submetidos a tratamentos de reprodução assistida nos quais o homem apresentava o desequilíbrio bacteriano no sêmen, aproximadamente 57% conseguiram ter um bebê.

Entre aqueles nos quais o microbioma seminal não apresentava essa alteração, a proporção chegou a 85%.

Abortos espontâneos também ocorreram com maior frequência quando a disbiose seminal estava presente.

Esses números não significam necessariamente que determinadas bactérias sejam diretamente responsáveis pela infertilidade ou pelas perdas gestacionais. Estudos observacionais conseguem identificar associações, mas são necessárias pesquisas adicionais para estabelecer relações de causa e efeito.

Ainda assim, os resultados sugerem que existe um componente da fertilidade masculina que pode passar despercebido pelos exames utilizados atualmente.

Infertilidade pode precisar ser investigada no casal

Os autores defendem que os resultados ajudam a mudar a maneira como o chamado microbioma reprodutivo é estudado.

Em vez de concentrar a investigação quase exclusivamente na mulher, os pesquisadores propõem considerar as comunidades de microrganismos presentes nos dois integrantes do casal.

Essa abordagem poderia ajudar a explicar alguns casos nos quais os exames tradicionais não identificam claramente por que uma gravidez não acontece ou por que tratamentos de reprodução assistida apresentam resultados diferentes entre pacientes aparentemente semelhantes.

O próximo passo será descobrir se modificar esses microbiomas realmente consegue aumentar as chances de gravidez.

Se futuros ensaios clínicos confirmarem essa possibilidade, intervenções direcionadas às bactérias intestinais ou seminais poderiam eventualmente se tornar parte de determinados tratamentos de fertilidade.

Por enquanto, os resultados não significam que probióticos, antibióticos ou mudanças alimentares possam solucionar esses desequilíbrios por conta própria. Essas possibilidades ainda precisam ser testadas de forma controlada.

O estudo, porém, acrescenta uma nova peça ao complexo quebra-cabeça da reprodução humana: quando o assunto é fertilidade, talvez seja necessário olhar não apenas para óvulos, espermatozoides e hormônios, mas também para os bilhões de microrganismos que convivem com eles.

 

[ Fonte: DW ]

 

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