Uma estratégia digital baseada em mensagens urgentes, tarefas para seguidores e campanhas coordenadas nas redes sociais colocou André Janones no centro da eleição presidencial de 2026. O deputado federal de Minas Gerais criou o chamado Exército do Lula, um canal de WhatsApp que alcançou aproximadamente 10,8 milhões de seguidores. Agora, depois da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, surge uma nova questão: qual será o papel de Janones no próximo mandato?
Como Janones criou um exército digital com milhões de seguidores
O canal Exército do Lula surgiu em abril de 2026, inicialmente como um espaço de comunicação entre apoiadores do presidente.
Entretanto, a estratégia mudou depois do primeiro turno, quando Lula terminou atrás de Flávio Bolsonaro.
Segundo uma reportagem da BBC News Brasil, reproduzida pelo Terra, Janones passou a utilizar o WhatsApp como uma central de mobilização, distribuindo orientações para ampliar a circulação de conteúdos eleitorais.
Os participantes recebiam tarefas específicas, como compartilhar vídeos no Instagram, promover hashtags no X e convidar conhecidos para acompanhar o canal.
A estratégia transformava o engajamento digital em uma sequência de pequenas ações, com objetivos imediatos e resultados visíveis.
O crescimento foi acelerado: conforme a cronologia publicada pela Folha de S.Paulo, o canal ultrapassou dois milhões de seguidores já em 7 de outubro.
Lula chamou Janones de general após vitória eleitoral

A mobilização ganhou reconhecimento público durante a campanha.
Em uma transmissão ao vivo realizada depois do debate presidencial da TV Globo, Lula elogiou o trabalho do deputado e brincou que ele seria promovido de patente.
O reconhecimento se repetiu no discurso de vitória, na noite de domingo (25).
Diante dos apoiadores, Lula chamou Janones de seu general e destacou a atuação do parlamentar na mobilização digital.
O presidente também afirmou que pretende ampliar o espaço da comunicação digital no próximo mandato.
Essas declarações aumentaram as especulações sobre uma possível participação de Janones na estrutura do governo, embora não representem uma nomeação oficial.
Estratégia provocou disputas na Justiça Eleitoral
O crescimento do canal também gerou controvérsias.
A campanha de Flávio Bolsonaro questionou a atuação do Exército do Lula na Justiça Eleitoral, alegando irregularidades e disseminação de desinformação.
O canal chegou a ser alvo de decisões de suspensão, posteriormente revistas.
Segundo informações divulgadas pelo Poder360, um relatório técnico do Tribunal Superior Eleitoral não encontrou informações falsas nas mensagens examinadas entre 2 e 11 de outubro.
Entretanto, a análise não contemplou todo o conteúdo publicado e apresentou limitações.
Janones negou disseminar notícias falsas pelo canal e defendeu sua estratégia como uma forma de mobilização política.
Janones pode assumir um cargo no novo governo?
A possibilidade de participação do deputado na próxima administração divide avaliações.
O cientista político Leandro Consentino, professor do Insper, considera que a experiência adquirida durante a campanha pode ampliar a influência de Janones na comunicação governamental.
Entretanto, ele ressalta que existe uma diferença importante entre mobilizar eleitores durante uma disputa e comunicar políticas públicas depois da eleição.
Uma estratégia baseada em confronto e urgência pode funcionar de maneira diferente quando o objetivo passa a ser explicar decisões administrativas.
Já Tathiana Chicarino, pesquisadora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, considera que o aprendizado digital precisa ser incorporado também pelos partidos e movimentos sociais.
Para ela, a comunicação nas plataformas deve estar conectada à participação política presencial.
O WhatsApp pode mudar a comunicação política brasileira?

O crescimento do Exército do Lula evidencia a importância dos aplicativos de mensagens na organização de campanhas.
Diferentemente da publicidade eleitoral tradicional, canais digitais permitem transmitir orientações diretamente a milhões de seguidores.
Entretanto, o número de participantes não equivale automaticamente ao número de eleitores convencidos.
Também não é possível determinar quantos votos foram conquistados exclusivamente pelas ações coordenadas por Janones.
O desafio agora será transformar a capacidade de mobilização eleitoral em uma estratégia de comunicação pública duradoura. O reconhecimento de Lula está documentado, mas o espaço institucional de Janones no próximo governo ainda depende de decisões políticas.