Durante décadas, acreditou-se que a Antártida estava protegida dos contaminantes globais pela distância, pelos ventos rigorosos e pelas correntes oceânicas isoladas. Agora, uma nova pesquisa mostra que esse isolamento já não existe. Cientistas da Espanha detectaram no Oceano Austral concentrações significativas de ácidos perfluoroalquílicos — parte da família dos PFAS, conhecidos como “químicos eternos”. A descoberta expõe um risco ambiental invisível e obriga a ciência a rever o alcance real da poluição humana.
O que são os “químicos eternos” e por que representam um risco

As substâncias per- e polifluoralquiladas (PFAS) são compostos usados em produtos comuns: embalagens de comida, tecidos impermeáveis, espumas contra incêndio e utensílios com revestimento antiaderente. A maior ameaça está na sua persistência extrema: eles não se degradam naturalmente, acumulam-se no ambiente e podem chegar à cadeia alimentar.
Entre os PFAS mais estudados estão o PFOS e o PFOA, associados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) a possíveis riscos de câncer e outros impactos à saúde. Até hoje, a dúvida da comunidade científica era como essas moléculas poderiam alcançar regiões tão remotas sem depender das correntes oceânicas — que demoram décadas para transportar substâncias.
O novo estudo preenche essa lacuna ao identificar uma rota atmosférica eficiente, capaz de levar os PFAS ao extremo sul do planeta.
A descoberta: contaminantes na água antártica
A pesquisa, publicada na revista Communications Earth & Environment, foi conduzida por equipes do IDAEA-CSIC e do IQOG-CSIC, com participação de especialistas como Jordi Dachs, Begoña Jiménez e Núria Trilla-Prieto. Os cientistas realizaram duas expedições oceanográficas entre 2021 e 2022, coletando amostras desde o Atlântico Norte até o Oceano Austral.
Os resultados chamaram atenção: as concentrações de PFAAs encontradas na Antártida são similares às do Atlântico Norte, uma região muito mais próxima de fontes industriais.
Segundo Dachs, a explicação está no transporte atmosférico:
“Há quinze anos acreditava-se que os PFAS não chegariam à Antártida pelas correntes oceânicas. Agora mostramos que chegam, mas levados pela atmosfera, por meio da neve e da chuva.”
Esses compostos viajam aderidos a aerossóis marinhos, microscópicas gotículas que evaporam, sobem para a atmosfera e retornam à superfície no ciclo da precipitação.
Os níveis mais altos foram registrados em áreas influenciadas pelas costas da Argentina e do Brasil, sugerindo que emissões latino-americanas também contribuem para a contaminação antártica.
Por que a acumulação preocupa os cientistas

Ao contrário de outros poluentes, os PFAS não possuem rotas naturais de saída do ecossistema antártico. Uma vez depositados, eles permanecem na água e tendem a se acumular ao longo do tempo.
A pesquisadora Núria Trilla-Prieto explica:
“A persistência e a capacidade de transporte a longa distância fazem com que esses compostos se acumulem, porque não existem vias de eliminação que compensem o seu ingresso contínuo.”
Isso significa que, mesmo em baixas concentrações, a tendência futura é de aumento progressivo — algo crítico em um ecossistema frágil, com cadeias alimentares curtas e grande dependência de organismos filtradores.
A constatação também obriga a revisão dos modelos globais de poluição, que até recentemente subestimavam o alcance atmosférico desses contaminantes.
Implicações globais e recomendações
Os autores recomendam expansão da vigilância ambiental para PFAS em todos os oceanos, dada a evidência de que as fronteiras naturais não impedem sua dispersão. Também defendem normas mais rígidas sobre seu uso industrial e maior controle internacional sobre emissões.
Entre as limitações do estudo, a equipe destaca a necessidade de monitoramento contínuo e de análises em outras regiões remotas, como o Ártico e ilhas oceânicas isoladas, para mapear por completo a distribuição global dos PFAS.
A pesquisa fornece dados essenciais para futuras regulações — e reforça uma conclusão urgente:
mesmo os locais mais preservados da Terra já estão integrados ao fluxo invisível da poluição moderna.
[ Fonte: Infobae ]