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Ciência

A Antártida deixou de ser intocável: como os “químicos eternos” atravessaram o planeta e alcançaram o continente mais remoto da Terra

Um estudo espanhol revelou que compostos altamente persistentes — os chamados “químicos eternos” — já chegaram à Antártida em níveis comparáveis aos do Atlântico Norte. Transportados pela atmosfera e depositados por chuva e neve, esses contaminantes preocupam cientistas pela capacidade de se acumular em ecossistemas frágeis sem qualquer via natural de eliminação.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Durante décadas, acreditou-se que a Antártida estava protegida dos contaminantes globais pela distância, pelos ventos rigorosos e pelas correntes oceânicas isoladas. Agora, uma nova pesquisa mostra que esse isolamento já não existe. Cientistas da Espanha detectaram no Oceano Austral concentrações significativas de ácidos perfluoroalquílicos — parte da família dos PFAS, conhecidos como “químicos eternos”. A descoberta expõe um risco ambiental invisível e obriga a ciência a rever o alcance real da poluição humana.

O que são os “químicos eternos” e por que representam um risco

Antartida
© Cassie Matias – Unsplash

As substâncias per- e polifluoralquiladas (PFAS) são compostos usados em produtos comuns: embalagens de comida, tecidos impermeáveis, espumas contra incêndio e utensílios com revestimento antiaderente. A maior ameaça está na sua persistência extrema: eles não se degradam naturalmente, acumulam-se no ambiente e podem chegar à cadeia alimentar.

Entre os PFAS mais estudados estão o PFOS e o PFOA, associados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) a possíveis riscos de câncer e outros impactos à saúde. Até hoje, a dúvida da comunidade científica era como essas moléculas poderiam alcançar regiões tão remotas sem depender das correntes oceânicas — que demoram décadas para transportar substâncias.

O novo estudo preenche essa lacuna ao identificar uma rota atmosférica eficiente, capaz de levar os PFAS ao extremo sul do planeta.

A descoberta: contaminantes na água antártica

A pesquisa, publicada na revista Communications Earth & Environment, foi conduzida por equipes do IDAEA-CSIC e do IQOG-CSIC, com participação de especialistas como Jordi Dachs, Begoña Jiménez e Núria Trilla-Prieto. Os cientistas realizaram duas expedições oceanográficas entre 2021 e 2022, coletando amostras desde o Atlântico Norte até o Oceano Austral.

Os resultados chamaram atenção: as concentrações de PFAAs encontradas na Antártida são similares às do Atlântico Norte, uma região muito mais próxima de fontes industriais.

Segundo Dachs, a explicação está no transporte atmosférico:
“Há quinze anos acreditava-se que os PFAS não chegariam à Antártida pelas correntes oceânicas. Agora mostramos que chegam, mas levados pela atmosfera, por meio da neve e da chuva.”

Esses compostos viajam aderidos a aerossóis marinhos, microscópicas gotículas que evaporam, sobem para a atmosfera e retornam à superfície no ciclo da precipitação.

Os níveis mais altos foram registrados em áreas influenciadas pelas costas da Argentina e do Brasil, sugerindo que emissões latino-americanas também contribuem para a contaminação antártica.

Por que a acumulação preocupa os cientistas

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© Pexels

Ao contrário de outros poluentes, os PFAS não possuem rotas naturais de saída do ecossistema antártico. Uma vez depositados, eles permanecem na água e tendem a se acumular ao longo do tempo.

A pesquisadora Núria Trilla-Prieto explica:
“A persistência e a capacidade de transporte a longa distância fazem com que esses compostos se acumulem, porque não existem vias de eliminação que compensem o seu ingresso contínuo.”

Isso significa que, mesmo em baixas concentrações, a tendência futura é de aumento progressivo — algo crítico em um ecossistema frágil, com cadeias alimentares curtas e grande dependência de organismos filtradores.

A constatação também obriga a revisão dos modelos globais de poluição, que até recentemente subestimavam o alcance atmosférico desses contaminantes.

Implicações globais e recomendações

Os autores recomendam expansão da vigilância ambiental para PFAS em todos os oceanos, dada a evidência de que as fronteiras naturais não impedem sua dispersão. Também defendem normas mais rígidas sobre seu uso industrial e maior controle internacional sobre emissões.

Entre as limitações do estudo, a equipe destaca a necessidade de monitoramento contínuo e de análises em outras regiões remotas, como o Ártico e ilhas oceânicas isoladas, para mapear por completo a distribuição global dos PFAS.

A pesquisa fornece dados essenciais para futuras regulações — e reforça uma conclusão urgente:
mesmo os locais mais preservados da Terra já estão integrados ao fluxo invisível da poluição moderna.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

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