As fake news se tornaram parte constante do debate público nos últimos anos. Em meio ao crescimento das redes sociais, da inteligência artificial e da velocidade com que informações circulam pela internet, identificar conteúdos falsos passou a ser um desafio para milhões de pessoas. Agora, uma pesquisa realizada em todo o Brasil ajuda a entender quais temas mais despertam preocupação entre os brasileiros e como diferentes grupos políticos enxergam a desinformação.
Política lidera com folga entre os temas associados às notícias falsas

Um levantamento realizado pelo Aláfia Lab, centro independente de pesquisas sobre internet, comunicação e sociedade, apontou que política e eleições são os assuntos mais frequentemente associados à disseminação de fake news no Brasil.
Segundo os dados, 43% dos entrevistados afirmaram encontrar mais desinformação relacionada ao universo político do que em qualquer outro tema. Saúde, economia e celebridades aparecem em seguida entre os assuntos mais citados.
A pesquisa ouviu 1.512 pessoas em diferentes regiões do país e procurou entender não apenas quais temas são mais ligados às notícias falsas, mas também como os brasileiros avaliam sua própria capacidade de identificar conteúdos enganosos.
Os resultados mostram que a maioria acredita conseguir reconhecer fake news, embora nem sempre com total segurança. Cerca de 58% afirmam identificar conteúdos falsos, mas admitem ter dúvidas em determinadas situações. Outros 29% dizem conseguir reconhecer esse tipo de informação com facilidade.
Já uma parcela menor, equivalente a 13% dos participantes, declarou não saber distinguir com clareza quando uma notícia é falsa ou verdadeira.
O levantamento também revelou diferenças relevantes entre os grupos analisados. Homens, jovens, pessoas com maior nível de escolaridade e eleitores posicionados à esquerda do espectro político foram os que mais relataram facilidade para identificar desinformação.
Entre os entrevistados que se identificam com posições de esquerda, 39% afirmaram conseguir reconhecer fake news facilmente. Entre os participantes que se consideram de direita, esse índice ficou em 30%.
Especialistas apontam que esses resultados ajudam a compreender como diferentes grupos lidam com o ambiente digital e podem indicar quais públicos estão mais vulneráveis à circulação de conteúdos enganosos.
Diferenças políticas aparecem na percepção da desinformação
Outro aspecto que chamou atenção foi a diferença de comportamento entre eleitores de direita e de esquerda quando o assunto é verificação de informações.
De acordo com a pesquisa, pessoas de esquerda afirmam recorrer com mais frequência a agências de checagem de fatos. Nesse grupo, 24% dizem utilizar ferramentas de fact-checking para confirmar informações. Entre os entrevistados de direita, o percentual cai para 13%.
Curiosamente, os eleitores de direita afirmam encontrar mais fake news relacionadas à política. Mais da metade dos entrevistados desse grupo, cerca de 55%, relatou ter contato frequente com conteúdos falsos sobre eleições e assuntos políticos.
Entre os eleitores de esquerda, o índice foi de 48%.
O estudo também mostrou que a percepção da presença de fake news cresce conforme aumentam a idade e a escolaridade dos entrevistados. Entre pessoas com 45 anos ou mais, quase metade afirma encontrar regularmente conteúdos falsos sobre política. Entre os mais jovens, esse percentual é menor.
Já entre indivíduos com ensino superior completo, 50% relatam encontrar frequentemente desinformação política. Entre aqueles com ensino fundamental, a proporção cai para 34%.
Outro dado relevante está relacionado às reações diante de uma notícia suspeita. Quase metade dos brasileiros afirmou simplesmente ignorar conteúdos que parecem falsos. Apenas uma parcela menor busca verificar a informação ou denunciá-la às plataformas digitais.
O que a pesquisa revelou sobre inteligência artificial
O levantamento também analisou como os brasileiros utilizam ferramentas de inteligência artificial, tecnologia que vem transformando a maneira como as pessoas trabalham, estudam e consomem informação.
Entre os sistemas mais conhecidos, o ChatGPT aparece como o chatbot mais popular do país. Segundo a pesquisa, 42% dos entrevistados afirmaram já ter utilizado a ferramenta em algum momento.
O Gemini aparece logo atrás, sendo utilizado por aproximadamente um quarto dos participantes.
Os dados mostram ainda diferenças interessantes entre grupos políticos. O uso do ChatGPT é mais frequente entre eleitores de direita, onde 53% afirmam utilizar a plataforma. Entre os entrevistados de esquerda, esse percentual chega a 39%.
Quando o foco é o uso diário de inteligência artificial, o cenário muda. Pessoas de esquerda relatam utilizar ferramentas de IA com maior frequência no dia a dia. Segundo a pesquisa, 39% afirmam usar esses recursos diariamente, contra 26% entre os eleitores de direita.
As finalidades também variam. Usuários de direita relatam utilizar inteligência artificial principalmente para aprendizado, criação de imagens e produção de vídeos. Já entre os entrevistados de esquerda, o uso para verificação de informações e checagem de possíveis fake news aparece com mais destaque.
Os resultados reforçam como a desinformação e a inteligência artificial estão cada vez mais conectadas ao debate público brasileiro. Em um cenário onde informações circulam em velocidade recorde, compreender como diferentes grupos consomem conteúdo e utilizam novas tecnologias pode ser fundamental para enfrentar um dos maiores desafios digitais da atualidade.
[Fonte: G1]