A inteligência artificial vive seu momento mais brilhante — e mais frágil. Entre promessas de revolução e cifras astronômicas, começam a surgir os sinais de que o setor pode estar repetindo os erros de 1999. Investidores, executivos e analistas debatem se o colapso será um estrondo ou um simples suspiro. A questão já não é se existe uma bolha, mas quem sobreviverá quando ela estourar.
O eco de 1999: o Vale do Silício repete sua própria história
Sam Altman, da OpenAI, e Mark Zuckerberg, da Meta, já não escondem suas dúvidas. Altman reconheceu: “É bem possível que haja uma bolha.” O alerta surge no momento em que a OpenAI, avaliada em US$ 500 bilhões, acumula perdas projetadas de US$ 44 bilhões até 2029 — a startup mais valiosa e, talvez, mais vulnerável da história.
Os paralelos com a bolha das pontocom são inevitáveis: entusiasmo exagerado, capital abundante e a crença de que “desta vez será diferente”. Zuckerberg tenta suavizar a comparação, dizendo que todo ciclo de inovação passa por um excesso inicial antes de amadurecer. Mas, como lembram os veteranos de Wall Street, nem todos sobrevivem ao estouro.
Startups sem produto e bilhões sem destino
O caso de Mira Murati, ex-diretora da OpenAI, é exemplar. Ela arrecadou US$ 2 bilhões para fundar a Thinking Machines — sem apresentar um plano claro. Quando finalmente revelou seu produto, o Tinker, tratava-se de uma ferramenta modesta para pesquisadores. Nada revolucionário, nada lucrativo.
Enquanto isso, um estudo do MIT mostrou que 95% das empresas que adotaram IA ainda não obtiveram retorno. Fora dos setores de tecnologia e telecomunicações, o entusiasmo se transforma em pilhas de projetos-piloto esquecidos. A euforia parece movida mais pela fé do que por resultados.
A aliança que cheira a déjà vu
A parceria entre OpenAI e Nvidia se tornou o símbolo dessa engrenagem circular. A OpenAI precisa de chips da Nvidia; a Nvidia, por sua vez, investe na OpenAI. O ciclo se retroalimenta, inflando lucros e expectativas. Altman chama isso de “a base da economia do futuro”. Analistas chamam de “financiamento circular” — a mesma armadilha que precedeu o colapso das telecomunicações em 1999.
O economista Michael Spencer foi ainda mais direto: “A bolha da IA já tem traços de um esquema Ponzi.” Cada volta da engrenagem aumenta a valorização — e o risco.
Os sinais de uma bolha anunciada
O Deutsche Bank resumiu a situação com ironia: “A bolha da IA já estourou — a bolha de dizer que há uma bolha.” O relatório aponta que o crescimento desacelera, mas ainda pulsa em ondas: cada correção gera nova euforia. Assim foi com o Nasdaq antes de 2000, que subiu e caiu mais de 10% várias vezes antes do colapso.
A IA generativa ainda não provou ser uma revolução comparável à internet, mas já movimenta trilhões. E quando o dinheiro corre mais rápido que a inovação, o fim costuma ser previsível.
Quem ficará de pé quando o ar escapar
Sete gigantes — Microsoft, Nvidia, Google, Meta, Apple, Amazon e Tesla — concentram hoje um terço do valor do índice S&P 500. Se a bolha romper, o impacto será global. Zuckerberg resume com frieza: “Ser cauteloso demais pode ser mais perigoso que arriscar.”
Toda bolha começa com negação, passa pela dúvida e termina no colapso. A da inteligência artificial já entrou na segunda fase. A dúvida não é se vai estourar — mas quem ainda estará de pé quando acontecer.