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Ciência

A ciência revela o que realmente sustenta o bem-estar emocional e não se trata de estar feliz o tempo todo

Sentir-se bem vai muito além da ausência de problemas. Pesquisas apontam hábitos cotidianos que ajudam a construir uma base emocional mais resistente diante das dificuldades da vida.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Quando pensamos em saúde mental, é comum imaginar ansiedade, depressão, estresse ou outros problemas que precisam ser tratados. A ciência, porém, propõe olhar também para o outro lado da equação: o que permite que uma pessoa funcione bem emocionalmente? A resposta não depende de uma fórmula milagrosa. Sono, movimento, relações pessoais, propósito e pequenas rotinas aparecem como peças de uma estrutura muito mais ampla.

Estar emocionalmente bem não significa estar feliz todos os dias

Uma das primeiras ideias que precisam ser abandonadas é a associação entre bem-estar emocional e felicidade permanente.

A Organização Mundial da Saúde trabalha com uma visão mais ampla da saúde mental. Não se trata simplesmente da ausência de sintomas ou transtornos, mas de um estado que permite enfrentar situações estressantes, desenvolver capacidades, aprender, trabalhar e participar da comunidade.

Essa diferença parece pequena, mas muda completamente a maneira de pensar o assunto.

Uma revisão publicada na revista World Psychiatry reforça que uma visão completa da saúde mental deve considerar emoções positivas, conexões genuínas com outras pessoas e a existência de propósito.

Isso significa que alguém emocionalmente saudável também pode experimentar tristeza, medo, frustração ou preocupação.

O importante não seria eliminar emoções negativas, algo praticamente impossível, mas possuir uma base que permita enfrentar acontecimentos difíceis, adaptar-se às mudanças e continuar encontrando sentido nas atividades cotidianas.

E essa base não surge apenas de grandes decisões. Boa parte dela pode estar sendo construída por comportamentos aparentemente banais repetidos todos os dias.

Seus hábitos influenciam muito mais do que parece

A ciência revela o que realmente sustenta o bem-estar emocional e não se trata de estar feliz o tempo todo
© Yaroslav Shuraev – Pexels

Dormir, comer, movimentar-se e organizar determinadas atividades em horários relativamente previsíveis pode parecer apenas uma questão de rotina. Para o cérebro, porém, a repetição possui um papel importante.

Uma revisão acadêmica liderada por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Berkeley apontou que os hábitos interferem em praticamente todos os domínios da saúde física e mental, incluindo sono, alimentação, atenção e regulação das emoções.

Há ainda um detalhe que derruba uma ideia popular.

Não existe uma regra científica segundo a qual são necessários exatamente 21 dias para transformar determinado comportamento em hábito. Dependendo da pessoa e da atividade, pesquisas indicam que esse processo pode levar de 18 dias a 36 semanas.

A repetição em contextos relativamente estáveis é importante porque permite que determinadas ações exijam progressivamente menos esforço consciente.

A OMS também inclui entre as práticas de autocuidado dormir adequadamente, permanecer fisicamente ativo, evitar substâncias prejudiciais e manter contato com outras pessoas.

Nenhum desses comportamentos funciona como solução universal para problemas psicológicos. Juntos, porém, eles podem criar condições mais favoráveis para o equilíbrio emocional.

Existe um hábito especialmente poderoso e ele envolve colocar o corpo em movimento

Entre os fatores estudados, a atividade física possui uma quantidade considerável de evidências a seu favor.

A OMS estima que 31% dos adultos e 80% dos adolescentes não atingem os níveis recomendados de atividade física. A prática regular está associada a benefícios para o cérebro, o sono e a redução de sintomas de ansiedade e depressão.

Uma análise da Universidade de Swansea acrescentou outro dado interessante. Ao reunir informações de quase 23 mil adultos e mais de 180 estudos científicos, os pesquisadores encontraram respostas particularmente favoráveis quando atividade física e acompanhamento psicológico eram combinados.

Práticas que unem movimento e atenção plena, como yoga e tai chi, também apresentaram resultados positivos, assim como abordagens relacionadas à gratidão, emoções positivas e construção de propósito.

A ciência revela o que realmente sustenta o bem-estar emocional e não se trata de estar feliz o tempo todo
© Monica Leonardi – Unsplash

Isso não transforma exercício em substituto automático para psicoterapia ou tratamento médico quando eles são necessários.

A descoberta aponta para algo diferente: cuidar da mente não acontece exclusivamente dentro dela. O funcionamento psicológico também mantém uma relação estreita com aquilo que fazemos com o corpo.

A solidão aparece como um dos fatores que mais merecem atenção

Existe outro componente que não pode ser construído sozinho: os vínculos sociais.

Segundo dados citados pela OMS, uma em cada seis pessoas no mundo é afetada pela solidão. Pessoas que se sentem solitárias apresentam ainda o dobro da probabilidade de desenvolver depressão.

E o problema não está restrito aos idosos.

A solidão pode afetar diferentes faixas etárias e contextos sociais. Além das consequências psicológicas, seus efeitos podem se acumular e atingir também a saúde física.

É por isso que relações genuínas aparecem ao lado do sono e da atividade física entre os pilares associados ao bem-estar.

A questão também ajuda a compreender uma aparente contradição da vida contemporânea: nunca tivemos tantas ferramentas para permanecer conectados, mas conexão digital e vínculo social significativo não são necessariamente a mesma coisa.

O bem-estar pode depender de coisas que fomos retirando da rotina

Quando todas essas evidências são observadas juntas, aparece uma conclusão desconfortavelmente simples.

Parte das condições associadas a uma boa saúde emocional coincide justamente com aspectos que a vida moderna frequentemente reduz: movimento físico, sono adequado, contato presencial, estabilidade das rotinas e tempo de qualidade longe das telas.

Isso não significa responsabilizar indivíduos por problemas de saúde mental nem sugerir que caminhar, dormir melhor ou encontrar amigos resolva transtornos que exigem acompanhamento profissional.

A própria discussão científica aponta para uma visão complementar, não substitutiva.

Tratamentos continuam sendo fundamentais quando necessários. Mas a saúde mental também é construída no cotidiano, muito antes de existir um diagnóstico.

Talvez essa seja a parte mais interessante dessa definição de bem-estar emocional. Não precisamos estar felizes o tempo inteiro para estar bem. Precisamos de condições que nos permitam atravessar momentos ruins sem perder completamente a capacidade de funcionar, relacionar-nos, adaptar-nos e encontrar sentido.

E algumas dessas condições podem estar escondidas nas partes mais comuns do nosso dia.

[Fonte: Infobae]

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