A disputa tecnológica entre Estados Unidos e China costuma ser travada com restrições comerciais, chips, tarifas e controles de exportação. Agora, algumas das maiores companhias chinesas abriram uma nova frente em território americano: os tribunais. Depois de serem classificadas pelo Pentágono como empresas vinculadas às forças militares chinesas, várias decidiram contestar a designação. E os primeiros resultados indicam que Washington poderá ter de justificar suas acusações com muito mais cuidado.
A guerra tecnológica ganhou uma inesperada frente judicial

O movimento não começou em 2026. Em 2024, a fabricante de sensores LiDAR Hesai Technology e a gigante de drones DJI recorreram à Justiça dos Estados Unidos depois de serem incluídas pelo Departamento de Defesa na lista de empresas consideradas vinculadas às forças militares chinesas.
Para essas companhias, a questão vai muito além de uma classificação administrativa. Estar na chamada lista 1260H pode afetar reputação, contratos e relações comerciais nos Estados Unidos. A inclusão não representa automaticamente uma sanção econômica completa, mas impede contratos com o Departamento de Defesa e prevê restrições adicionais às aquisições indiretas a partir de 2027.
A estratégia judicial começou a chamar atenção de outras empresas.
Baidu, BYD, NIO e Tencent estão entre as companhias que ameaçaram seguir um caminho semelhante. Outras já passaram das advertências para ações concretas.
Nos últimos meses, Alibaba, a empresa de biotecnologia WuXi AppTec e a fabricante de chips CXMT apresentaram processos contra o governo americano. A Alibaba, por exemplo, classificou sua inclusão como arbitrária e argumentou que o Pentágono teria agido sem oferecer um processo adequado ou explicações substanciais.
Mas um acontecimento recente tornou essa estratégia especialmente interessante.
Uma decisão de agosto mostrou que desafiar Washington pode funcionar
Em 7 de agosto, o juiz federal James Boasberg concedeu uma medida cautelar favorável à WuXi AppTec.
A decisão impede provisoriamente o Departamento de Defesa de aplicar o bloqueio contra a companhia enquanto o processo continua. Ainda não representa uma vitória definitiva, mas envia um sinal relevante para outras empresas chinesas: tribunais americanos estão dispostos a analisar os fundamentos utilizados pelo Pentágono.
É nesse cenário que surge um dos casos potencialmente mais importantes dessa nova onda de processos.
A CXMT, ou ChangXin Memory Technologies, entrou com sua ação em 28 de agosto. A empresa é o maior fabricante chinês de memórias DRAM e ocupa uma posição estratégica nos planos de Pequim para reduzir sua dependência de fornecedores estrangeiros.
Sua inclusão na lista americana ocorreu em janeiro de 2025 e, segundo a companhia, provocou danos consideráveis à sua reputação e capacidade de fazer negócios nos Estados Unidos.
A CXMT afirma que a acusação do Pentágono se apoia, entre outros elementos, em uma descrição publicada por um distribuidor não autorizado que teria apresentado incorretamente seus produtos como componentes de “grau militar”.
A empresa também argumenta que suas memórias seguem padrões técnicos JEDEC utilizados pela indústria.
Por que o caso da CXMT é muito maior do que parece
Memórias DRAM são componentes fundamentais de computadores, servidores e inúmeros dispositivos eletrônicos. E é justamente nessa área que a China tenta construir uma cadeia de fornecimento menos dependente do exterior.
Hoje, fabricantes como as sul-coreanas Samsung e SK hynix e a americana Micron ocupam posições centrais nesse mercado. Para Pequim, desenvolver alternativas domésticas tornou-se uma questão estratégica diante das crescentes restrições tecnológicas impostas pelos Estados Unidos.
É por isso que a CXMT importa tanto.
A companhia representa uma das peças mais importantes do esforço chinês para alcançar maior autonomia em semicondutores. Consequentemente, sua batalha judicial contra o Pentágono ultrapassa os interesses comerciais de uma única empresa.
O advogado especializado em conformidade regulatória Mark Shi considera que decisões envolvendo empresas como Hesai, DJI e WuXi mostram que juízes americanos podem examinar detalhadamente as justificativas apresentadas pelo governo.
No caso da CXMT, uma questão particularmente sensível estará em jogo: até que ponto relações de uma empresa com estruturas industriais do Estado chinês são suficientes para justificar sua classificação como companhia ligada ao aparato militar?
A resposta poderá criar um precedente importante.
Uma vitória poderia abrir caminho para outras gigantes chinesas
A lista 1260H ganhou peso em 2026.
Em junho, o Pentágono adicionou nomes de enorme relevância econômica, incluindo Alibaba, Baidu e BYD, além de companhias de robótica, biotecnologia e semicondutores. Tencent e a fabricante de baterias CATL já haviam sido incluídas anteriormente.
Isso transformou uma ferramenta originalmente ligada à segurança nacional em outro ponto crítico da disputa econômica entre as duas maiores potências do planeta.
Se a CXMT conseguir obrigar o Pentágono a retirar sua designação, outras empresas poderão enxergar os tribunais americanos como uma maneira eficaz de contestar decisões semelhantes.
Isso não significa que as companhias chinesas necessariamente vencerão. O governo dos Estados Unidos sustenta que essas classificações respondem a preocupações de segurança nacional e à possível integração entre setores civis e militares na China.
Os processos, entretanto, introduzem uma dificuldade para Washington: acusações políticas e estratégicas precisam resistir também ao escrutínio jurídico.
É justamente aí que essa nova fase da disputa se torna interessante.
Durante anos, a batalha tecnológica entre Washington e Pequim foi marcada principalmente por proibições, controles de exportação e corrida por semicondutores. Agora, empresas chinesas estão tentando usar as próprias instituições americanas para desafiar uma das ferramentas utilizadas contra elas.
E, se alguma dessas gigantes conseguir uma vitória definitiva, o efeito poderá ultrapassar em muito as portas do tribunal.
[Fonte: Xataka]