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Ciência

Dormir com a janela aberta provoca mudanças que chegam ao sono profundo e ao cérebro no dia seguinte

Renovar o ar do quarto durante a noite pode alterar muito mais que a temperatura. Estudos encontraram efeitos no sono profundo, despertares e até no desempenho do dia seguinte.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Abrir ou fechar a janela antes de dormir parece uma escolha determinada apenas pelo calor, frio ou preferência pessoal. A ciência, porém, descobriu que esse pequeno gesto pode modificar silenciosamente o ambiente onde passamos cerca de um terço da vida. Enquanto dormimos, a qualidade do ar muda durante horas sem que percebamos. E determinados níveis de ventilação podem influenciar desde a profundidade do sono até aquilo que acontece na manhã seguinte.

Enquanto você dorme, o ar do quarto também está mudando

Dormir com a janela aberta provoca mudanças que chegam ao sono profundo e ao cérebro no dia seguinte
© Pexels

Uma pessoa dormindo libera dióxido de carbono continuamente por meio da respiração. Em um quarto pequeno e pouco ventilado, esse CO₂ começa a se acumular durante a noite.

Ele funciona também como um indicador da renovação insuficiente do ar e da possível concentração de outras substâncias no ambiente.

Uma revisão científica de estudos recentes identificou uma relação importante entre esses níveis e a qualidade do descanso.

Quando a concentração de CO₂ ultrapassa aproximadamente 1.000 partes por milhão (ppm), começam a aparecer sinais de menor eficiência do sono e aumento do tempo acordado durante a noite.

Em torno de 1.300 ppm, estudos observaram redução do sono profundo e alterações fisiológicas, incluindo níveis mais elevados de cortisol após despertar.

Em concentrações ainda maiores, próximas ou superiores a 2.600 ppm, também foram detectados efeitos sobre o desempenho cognitivo no dia seguinte.

É justamente aqui que abrir uma janela pode produzir uma diferença surpreendentemente grande.

Um experimento encontrou 2.300 ppm com tudo fechado e 904 ppm com a janela aberta

Dormir com a janela aberta provoca mudanças que chegam ao sono profundo e ao cérebro no dia seguinte
© Pexels

Pesquisadores acompanharam dezenas de quartos em condições reais para observar o que acontecia quando os participantes modificavam a ventilação.

Com portas e janelas fechadas, a concentração média de CO₂ durante a noite chegou a aproximadamente 2.300 ppm em uma das comparações.

Quando a janela permanecia aberta, caiu para cerca de 904 ppm.

A diferença não apareceu apenas nos sensores de qualidade do ar.

Os participantes dormiram por mais tempo, apresentaram menos interrupções e relataram melhora na qualidade do descanso quando havia ventilação suficiente pelo exterior.

Outros experimentos chegaram a conclusões semelhantes.

Em um estudo no qual pesquisadores modificaram silenciosamente a intensidade da ventilação mecânica dos quartos, os participantes não sabiam em quais noites recebiam mais ou menos ar externo.

Quando a ventilação era menor, apresentavam menos sono profundo, mais sono leve e mais despertares.

Isso reforça uma ideia importante: a diferença não parece depender apenas da sensação psicológica de dormir com uma janela aberta.

Existe uma mudança mensurável no ambiente.

Abrir apenas a porta não produz necessariamente o mesmo resultado

Uma alternativa aparentemente óbvia seria deixar a janela fechada e simplesmente abrir a porta do quarto.

Isso realmente pode ajudar a reduzir a concentração de CO₂.

Curiosamente, porém, um estudo realizado em 40 dormitórios encontrou resultados diferentes quando comparou as duas estratégias.

Abrir a porta reduziu o CO₂, mas não proporcionou todas as melhorias observadas quando a janela foi aberta.

Uma das possíveis explicações é que a janela introduz ar externo, enquanto a porta pode simplesmente redistribuir o ar que já está dentro da residência.

Com a janela aberta, os pesquisadores observaram redução não apenas do CO₂, mas também de determinados compostos orgânicos voláteis e partículas presentes no ambiente interno.

Isso ajuda a entender por que a ventilação deve ser analisada como um conjunto e não simplesmente como uma questão de concentração de dióxido de carbono.

Mas existe outro lado dessa história.

Em algumas cidades, abrir a janela pode fazer justamente o contrário daquilo que você espera.

Poluição e barulho podem transformar o benefício em problema

Um estudo realizado durante o verão em uma cidade subtropical densamente povoada encontrou uma situação bastante diferente.

Abrir a janela reduziu a concentração de CO₂ dentro do quarto, como esperado.

Ao mesmo tempo, porém, permitiu a entrada de mais partículas finas PM2.5, aumentou a temperatura interna e deixou o ruído exterior mais perceptível.

Nesse experimento, os participantes apresentaram inclusive redução na duração do sono REM quando dormiam com a janela aberta.

Isso significa que não existe uma regra universal.

Para alguém que vive em uma região tranquila, com boa qualidade do ar e temperatura agradável, abrir a janela pode melhorar significativamente a ventilação.

Para quem mora ao lado de uma avenida movimentada, em uma área poluída ou com muito barulho noturno, o resultado pode ser exatamente o oposto.

Pessoas com alergias ou sensibilidade respiratória também precisam considerar a entrada de pólen e outros alérgenos.

Existe uma faixa de CO₂ que parece ser particularmente interessante

As pesquisas mais recentes começam a oferecer números que ajudam a compreender melhor o fenômeno.

Abaixo de aproximadamente 800 ppm, os efeitos negativos associados à má ventilação tendem a ser menores.

Entre 800 e 1.000 ppm, alterações começam a ser detectadas em alguns estudos.

Acima de 1.000 ppm, a evidência se torna mais consistente em relação a sono menos eficiente e alterações em sua estrutura.

Isso não significa que seja necessário comprar imediatamente um medidor de CO₂ ou dormir com todas as janelas escancaradas.

A principal conclusão é mais simples: a qualidade do ar do quarto também faz parte da higiene do sono.

Ventilação mecânica adequada pode cumprir essa função sem deixar entrar ruído, poluição ou temperaturas extremas.

E talvez esse seja o aspecto mais interessante dessas pesquisas.

Durante anos, recomendações para dormir melhor concentraram-se em colchões, horários, luz, cafeína e uso de telas. Agora, outro elemento invisível começa a ganhar importância.

Você pode apagar as luzes, deixar o celular longe e encontrar a posição perfeita para dormir. Mas durante as próximas oito horas continuará respirando o mesmo ar.

E a ciência está descobrindo que aquilo que acontece com esse ar enquanto você dorme pode importar muito mais do que parecia.

[Fonte: Infobae]

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