Os medicamentos da classe GLP-1 mudaram a forma como a obesidade é tratada, permitindo perdas de peso significativas sem a necessidade de cirurgias. No entanto, a maioria dessas terapias ainda exige aplicações semanais por injeção. Esse cenário pode mudar em breve. Diversas empresas farmacêuticas estão desenvolvendo comprimidos capazes de reproduzir os efeitos dos medicamentos injetáveis, e os resultados dos estudos mais recentes indicam que uma nova geração de tratamentos orais está cada vez mais próxima de chegar ao mercado.
O desafio de transformar o GLP-1 em comprimido
O GLP-1 é um hormônio produzido naturalmente pelo organismo que ajuda a controlar o apetite, reduzindo a fome e aumentando a sensação de saciedade. Os medicamentos dessa classe imitam sua ação e, por isso, tornaram-se uma das principais ferramentas no combate à obesidade e ao diabetes tipo 2.
O grande problema sempre foi desenvolver versões em comprimidos.
Substâncias como a semaglutida — princípio ativo presente no Ozempic e no Wegovy — são moléculas peptídicas muito sensíveis ao ambiente ácido do estômago. Quando ingeridas por via oral, grande parte delas é degradada antes de alcançar a corrente sanguínea, reduzindo drasticamente sua eficácia.
Nos últimos anos, porém, pesquisadores encontraram maneiras de contornar essa limitação.
Novas tecnologias estão tornando os comprimidos viáveis
Uma das estratégias consiste em adicionar compostos que protegem o medicamento durante sua passagem pelo estômago.
Foi exatamente esse o caminho adotado no Wegovy oral, aprovado no fim de 2025. O comprimido utiliza um agente chamado SNAC, responsável por proteger a semaglutida da ação do ácido gástrico e aumentar sua absorção pelo organismo.
Outra abordagem envolve o desenvolvimento de moléculas menores, conhecidas como small molecules, que conseguem sobreviver ao processo digestivo sem necessidade de mecanismos complexos de proteção.
Foi essa tecnologia que permitiu o lançamento do Foundayo, da Eli Lilly, aprovado neste ano como um dos primeiros medicamentos orais dessa nova geração.
Resultados dos estudos animam pesquisadores
Entre os candidatos mais promissores está o elecoglipron, desenvolvido pela AstraZeneca.
Dois estudos clínicos de fase II, publicados na revista The Lancet, mostraram que pacientes que utilizaram um comprimido diário perderam até 11,8% do peso corporal após 36 semanas de tratamento.
Outro destaque é o aleniglipron, da empresa Structure Therapeutics.
Em um estudo de fase II publicado na revista Nature Medicine, participantes tratados diariamente com o medicamento apresentaram perda de peso de até 12,1% durante o mesmo período de 36 semanas.
Os resultados foram considerados suficientemente positivos para que ambas as empresas avancem para os estudos clínicos de fase III, última etapa antes de um eventual pedido de aprovação junto às agências reguladoras.
Segundo Robert Kushner, professor emérito de Medicina da Universidade Northwestern e um dos autores do estudo sobre o aleniglipron, os testes não identificaram novos sinais relevantes de segurança. A expectativa é apenas ajustar o aumento gradual das doses para melhorar a tolerabilidade dos pacientes.
Mercado deve ficar ainda mais competitivo
A disputa pelo mercado dos medicamentos para emagrecimento está longe de terminar.
Além da AstraZeneca e da Structure Therapeutics, outras empresas também desenvolvem comprimidos baseados em GLP-1, entre elas Roche, Ascletis e Viking Therapeutics.
Mesmo assim, conquistar espaço não será uma tarefa simples. Hoje, Eli Lilly e Novo Nordisk dominam esse segmento com medicamentos já consolidados, enquanto novas terapias injetáveis continuam apresentando resultados ainda mais expressivos.
É o caso da retatrutida, da Eli Lilly, que em estudos clínicos alcançou perdas de peso de até 30%, o maior índice já registrado entre os medicamentos dessa categoria.
O que muda para os pacientes
Apesar da forte concorrência, os comprimidos oferecem uma vantagem importante: praticidade.
Muitas pessoas preferem tomar um medicamento por via oral em vez de realizar aplicações semanais, mesmo que a eficácia seja ligeiramente inferior à das versões injetáveis.
Especialistas também destacam que o aumento da concorrência tende a estimular a inovação e favorecer a redução dos preços ao longo do tempo, ampliando o acesso aos tratamentos.
Se os estudos em andamento confirmarem os resultados iniciais, os próximos anos poderão marcar uma nova fase no combate à obesidade, com uma oferta muito maior de medicamentos orais eficazes, permitindo que médicos e pacientes escolham a opção mais adequada para cada caso.