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Ciência

A crosta de gelo de Europa é muito mais espessa do que se pensava — e a nova estimativa da NASA muda o que sabemos sobre o potencial de vida na lua de Júpiter

Dados inéditos da sonda Juno indicam que a camada externa de gelo de Europa pode atingir cerca de 29 quilômetros de espessura. A descoberta ajuda a refinar os modelos sobre o oceano subterrâneo da lua e traz novas pistas — e novos desafios — para entender se esse mundo congelado pode abrigar condições favoráveis à vida.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Europa, a quarta maior lua de Júpiter, é uma das protagonistas na busca por ambientes habitáveis fora da Terra. Coberta por uma crosta de gelo e, ao que tudo indica, abrigando um oceano salgado em seu interior, ela concentra grande parte das esperanças de encontrar sinais de vida no Sistema Solar. Agora, medições recentes da missão Juno revelam que essa crosta é significativamente mais espessa do que se imaginava — um detalhe que muda o jogo para futuras explorações.

Um sobrevoo decisivo em 2022

A nova estimativa vem de um sobrevoo realizado em 29 de setembro de 2022, quando a sonda Juno passou a apenas cerca de 360 quilômetros da superfície de Europa. Durante o encontro, o Radiômetro de Micro-ondas da nave coletou dados de aproximadamente metade da lua, permitindo aos cientistas espiar abaixo da camada superficial de gelo.

Com base nessas observações, a equipe concluiu que, na região analisada, a camada externa fria, rígida e condutiva da crosta tem em média cerca de 29 quilômetros de espessura. Segundo Steve Levin, cientista do projeto Juno no Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da NASA, esse valor se refere apenas à parte mais externa da crosta.

Se existir uma camada interna adicional, um pouco mais quente e com comportamento convectivo — algo considerado plausível pelos modelos atuais —, a espessura total do gelo pode ser ainda maior. Por outro lado, caso o gelo contenha quantidades moderadas de sal dissolvido, a estimativa pode cair em cerca de 4,8 quilômetros.

O que o gelo revela sobre o oceano oculto

Europa é especialmente interessante porque há fortes indícios de que, sob sua crosta congelada, exista um oceano global de água salgada. Esse ambiente poderia conter ingredientes essenciais para a vida, como água líquida, energia e compostos químicos.

Saber exatamente o quão espesso é o gelo acima desse oceano ajuda os cientistas a entender como ocorre a troca de materiais entre a superfície e o interior da lua. Quanto mais grossa a crosta, mais difícil é o transporte de elementos como oxigênio e nutrientes, fundamentais para sustentar possíveis ecossistemas.

A nova estimativa sugere que essa jornada pode ser mais longa e complexa do que se pensava, o que impõe limites adicionais à habitabilidade de Europa — sem descartá-la.

Fissuras, poros e estruturas rasas no gelo

Além da espessura da crosta, a Juno também identificou pequenas estruturas próximas à superfície, chamadas de “dispersores”. Elas incluem rachaduras, poros e vazios no gelo, capazes de espalhar as micro-ondas emitidas pelo instrumento da sonda.

Os pesquisadores acreditam que essas feições tenham apenas alguns centímetros de diâmetro. Embora possam parecer insignificantes, inicialmente levantaram a hipótese de funcionarem como canais para a circulação de materiais entre a superfície e o interior.

No entanto, os resultados indicam que essas estruturas rasas provavelmente não desempenham um papel importante nesse processo, especialmente considerando a grande espessura do gelo. Isso reforça a ideia de que o oceano de Europa está bem isolado do ambiente externo.

Um quebra-cabeça chamado habitabilidade

Para Scott Bolton, investigador principal da missão Juno no Southwest Research Institute e coautor do estudo publicado na revista Nature Astronomy, a espessura do gelo e a presença — ou ausência — de fraturas profundas são peças centrais no quebra-cabeça da habitabilidade.

Essas informações fornecem contexto essencial para duas missões que já estão a caminho do sistema joviano: a Europa Clipper, da NASA, e a Juice (JUpiter ICy moons Explorer), da Agência Espacial Europeia. Ambas terão como objetivo investigar em detalhe Europa e outras luas geladas de Júpiter, buscando entender sua estrutura interna, composição química e potencial para abrigar vida.

Um passo mais perto dos segredos de Europa

A conclusão é clara: a crosta gelada de Europa é mais espessa do que os modelos anteriores sugeriam. Cada novo conjunto de dados aproxima os cientistas de responder uma das perguntas mais ambiciosas da astronomia moderna: existe — ou já existiu — vida fora da Terra?

Embora o gelo mais grosso torne o acesso ao oceano subterrâneo mais difícil, ele também fornece pistas valiosas sobre a evolução térmica da lua e sobre os processos que moldam esse mundo distante. Com a chegada das próximas missões, Europa deve revelar ainda mais de seus segredos — e talvez nos mostrar se esse fascinante planeta congelado guarda algo vivo sob sua superfície.

 

 

 

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