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Ciência

Não é Júpiter: astrônomos encontraram um planeta errante colossal que cresce sem parar — e está reescrevendo o que sabemos sobre a formação planetária

Localizado a 620 anos-luz da Terra, esse objeto enigmático é até dez vezes maior que Júpiter e continua engordando a um ritmo impressionante. Observações recentes mostram que ele se comporta mais como uma estrela em formação do que como um planeta comum — um achado que desafia teorias clássicas da astronomia.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Astrônomos identificaram um dos objetos mais extremos já observados fora do Sistema Solar: um planeta errante gigantesco, com massa entre cinco e dez vezes maior que a de Júpiter, que continua crescendo de forma acelerada. O estudo, divulgado pela NASA e publicado na revista The Astrophysical Journal Letters, descreve um corpo que acumula matéria em um ritmo típico de estrelas jovens — algo inédito para um planeta.

O objeto, batizado de Cha 1107-7626, está localizado na constelação de Camaleão, uma região conhecida pela intensa formação estelar. Embora seja chamado de planeta, seu comportamento desafia essa classificação tradicional.

Um “bebê” cósmico com apetite voraz

Planeta em forma de limão intriga cientistas após observação do James Webb
© https://x.com/En_formare/

Apesar de seu tamanho colossal, Cha 1107-7626 é extremamente jovem em termos astronômicos. Os pesquisadores estimam que ele tenha entre 1 e 2 milhões de anos — uma fração ínfima quando comparada aos cerca de 4,5 bilhões de anos dos planetas do nosso Sistema Solar.

Mesmo assim, o objeto já chama atenção pelo ritmo de crescimento. De acordo com a análise, ele absorve cerca de 6,6 bilhões de toneladas de material por segundo. Essa taxa é aproximadamente oito vezes maior do que o esperado para um planeta desse tipo, aproximando-se de processos típicos de estrelas em formação.

O astrônomo Aleks Scholz, da Universidade de St. Andrews, explica que estamos observando um planeta ainda em sua “infância”, mas com características físicas surpreendentemente maduras.

Observações que revelaram o segredo

O estudo foi liderado por Víctor Almendros-Abad, do Observatório Astronômico de Palermo, em parceria com Ray Jayawardhana, da Universidade Johns Hopkins. A equipe detectou um surto intenso de crescimento entre junho e agosto de 2024.

Esse comportamento foi observado com o espectrógrafo X-shooter, acoplado ao Very Large Telescope, no Chile, capaz de analisar a luz do objeto em um amplo intervalo de comprimentos de onda. Os dados indicaram um aumento súbito na taxa de acreção — o processo pelo qual gás e poeira são incorporados ao corpo central.

O papel decisivo do telescópio Webb

Radiotelescópio
© UNSJ

O avanço mais surpreendente veio com observações do James Webb Space Telescope. O Webb detectou mudanças químicas no disco de material ao redor do planeta, incluindo a presença de vapor de água durante o pico de crescimento — algo nunca antes observado em discos planetários.

Até então, esse tipo de variação química havia sido registrado apenas em discos ao redor de estrelas jovens. A sensibilidade do Webb foi essencial para identificar esses detalhes em um objeto tão tênue e distante.

Segundo os pesquisadores, a rápida acumulação de matéria parece ser impulsionada por intensa atividade magnética, outro traço típico de estrelas em formação.

O que são planetas errantes?

Cha 1107-7626 pertence à categoria dos chamados planetas errantes, também conhecidos como planetas órfãos. Esses corpos não orbitam nenhuma estrela e vagam livremente pelo espaço interestelar. Seu processo de formação ainda é tema de debate.

Uma hipótese comum é que eles se formem em sistemas planetários e sejam posteriormente ejetados por interações gravitacionais. No entanto, neste caso, os astrônomos acreditam que o objeto tenha se formado de maneira semelhante a uma estrela, a partir do colapso e fragmentação de uma nuvem molecular.

Por que esse achado é tão importante

Para a astrofísica Núria Miret Roig, da Universidade de Barcelona, o valor do estudo está em aprofundar a compreensão dos processos de acreção — fundamentais para entender como planetas e estrelas se formam.

O desafio agora é observar mais objetos desse tipo. Planetas errantes são extremamente difíceis de detectar por serem frios, pequenos e pouco luminosos. Mas isso pode mudar em breve.

Novos instrumentos, como o Observatório Vera C. Rubin, o Extremely Large Telescope e o Telescópio Espacial Nancy Grace Roman, prometem revolucionar a busca por esses corpos nos próximos anos.

Cha 1107-7626 pode ser apenas o primeiro de muitos — e talvez o exemplo mais claro de que a fronteira entre planetas e estrelas é muito mais nebulosa do que imaginávamos.

 

[ Fonte: El Cronista ]

 

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