Durante décadas, o HPV foi tratado como um inimigo difícil de combater, ligado a diagnósticos tardios e tratamentos agressivos. Mas um estudo desenvolvido no México reacendeu a esperança de uma abordagem diferente, menos invasiva e potencialmente transformadora. À frente dessa pesquisa está uma cientista que, longe dos grandes centros globais, apresentou dados que despertaram interesse internacional e abriram novas perguntas sobre o futuro da prevenção do câncer do colo do útero.
Uma trajetória científica que ganhou destaque internacional

O nome de Eva Ramón Gallegos começou a circular com força em 2019, quando resultados preliminares de um estudo chamaram a atenção da comunidade científica. Pesquisadora e médica, ela atua há anos no desenvolvimento de terapias alternativas para doenças associadas a infecções virais persistentes, em especial o papilomavírus humano (HPV).
O trabalho foi conduzido em Oaxaca, no sul do México, e apresentado na Escola Nacional de Ciências Biológicas do Instituto Politécnico Nacional, onde Gallegos desenvolve suas pesquisas. O foco era ambicioso: testar uma técnica capaz não apenas de reduzir a presença do vírus, mas também de atuar em lesões iniciais que, com o tempo, poderiam evoluir para câncer.
O contexto ajuda a entender a relevância do estudo. O câncer do colo do útero segue entre as principais causas de morte de mulheres em diversos países, incluindo o México, onde ocupa a segunda posição nesse ranking. Métodos tradicionais de tratamento, embora eficazes em muitos casos, costumam ser invasivos e acompanhados de efeitos colaterais significativos.
Como funciona a terapia que chamou atenção
A abordagem testada pela equipe se baseia na chamada terapia fotodinâmica, um método que combina o uso de um fármaco sensível à luz com a aplicação direcionada de laser. No estudo liderado por Gallegos, uma substância conhecida como ácido delta-aminolevulínico é aplicada diretamente no colo do útero.
Dentro do organismo, esse composto se transforma em uma substância fluorescente que se acumula preferencialmente em células danificadas. A etapa seguinte envolve a ativação dessa substância por meio de um laser específico, capaz de destruir as células comprometidas sem afetar o tecido saudável ao redor.
Segundo a pesquisadora, essa seletividade é o principal diferencial da técnica. Em uma das poucas citações diretas do estudo, ela destacou que, ao contrário de terapias convencionais, o método “atua apenas sobre as células danificadas, preservando as estruturas saudáveis”. Essa característica coloca a terapia fotodinâmica em contraste direto com tratamentos como a quimioterapia, conhecida por atingir indiscriminadamente células boas e ruins.
Resultados do estudo e o que eles indicam
O estudo foi dividido em fases e envolveu 29 mulheres diagnosticadas com HPV, algumas delas já com lesões pré-malignas. Na primeira etapa, os pesquisadores observaram taxas elevadas de eliminação do vírus, tanto em pacientes sem lesões quanto naquelas que já apresentavam alterações celulares iniciais.
Na fase seguinte, os dados chamaram ainda mais atenção. Entre as pacientes sem lesões, o vírus deixou de ser detectado em todos os casos avaliados. Já entre aquelas com lesões pré-malignas, houve uma redução significativa da presença do HPV, além de melhora no quadro clínico em parte das participantes que não apresentavam o vírus, mas tinham lesões.
Embora o número de pacientes ainda seja limitado, os resultados foram suficientes para colocar a terapia fotodinâmica no radar de outros pesquisadores. O estudo também reforçou a ideia de que a técnica pode atuar em estágios muito iniciais da doença, antes que o câncer se torne invasivo.
Limitações, efeitos colaterais e próximos passos
Apesar do entusiasmo, os próprios pesquisadores ressaltam que a técnica não é isenta de limitações. De acordo com informações do National Cancer Institute, a terapia fotodinâmica só pode ser aplicada em tumores ou lesões superficiais, já que a luz precisa atingir diretamente o tecido afetado.
Os efeitos colaterais relatados até agora são considerados leves, mas existem. Estudos mencionam sensibilidade à luz, pequenas queimaduras e cicatrizes na área tratada. Uma pesquisa recente publicada na revista Medicine, liderada por Wenjia Zhang, apontou aumento significativo das taxas de remissão em pacientes com lesões cervicais e HPV, com comprometimento mínimo da segurança.
Diante disso, a comunidade científica concorda em um ponto: são necessários estudos mais amplos e de longo prazo para confirmar a eficácia, a segurança e o potencial de aplicação em larga escala da técnica. Ainda assim, o trabalho conduzido no México já cumpre um papel importante ao mostrar que caminhos alternativos podem existir.
[Fonte: Shethepeople]