Uma série de descobertas na África Central, mais precisamente na Guiné Equatorial, colocou em xeque algumas das ideias mais consolidadas sobre a evolução do Homo sapiens. Por meio de onze campanhas arqueológicas realizadas desde 2014, uma equipe liderada pelo paleoantropólogo Antonio Rosas identificou quase 900 ferramentas de pedra, muitas delas datadas de um período crucial para a história da humanidade.
Um cenário inesperado para a evolução

A equipe, formada por pesquisadores do Museu Nacional de Ciências Naturais (MNCN-CSIC) e do Institut Català de Paleoecologia Humana i Evolució Social (IPHES-CERCA), confirmou a presença contínua de Homo sapiens no atual território da Guiné Equatorial entre 45.000 e 21.000 anos atrás. Trata-se de uma época em que, em outras partes da África, o Paleolítico Superior já havia se iniciado — fase geralmente associada a avanços culturais e tecnológicos mais sofisticados.
Mas nas regiões analisadas, os humanos mantiveram tradições do Paleolítico Médio, desafiando a ideia de que o progresso cultural ocorreu de maneira uniforme. Longe de estarem atrasadas, essas populações demonstraram grande capacidade de adaptação a um dos ambientes mais hostis do planeta: as florestas tropicais africanas, com seu clima extremo, vegetação densa e recursos imprevisíveis.
Tecnologia, sobrevivência e transmissão de saberes

Os achados mais significativos foram feitos nas regiões de Río Campo e Temelón, onde os pesquisadores desenterraram centenas de ferramentas líticas — pontas bifaciais, raspadores e outros instrumentos usados para caçar, preparar alimentos e fabricar utensílios. Segundo a análise da equipe, essas peças refletem uma transmissão contínua de conhecimento técnico ao longo de mais de 20 mil anos.
“Essas populações não apenas sobreviveram, mas mantiveram tradições tecnológicas por milênios, em um ambiente até então considerado marginal para a evolução humana”, explica Juan Ignacio Morales, coautor do estudo. Os resultados, publicados na revista Quaternary International, sugerem que a trajetória evolutiva humana foi muito mais diversa e fragmentada do que se imaginava.
Uma escada… ou um mosaico evolutivo?
Durante décadas, as teorias sobre a origem humana basearam-se em um modelo linear de desenvolvimento: uma espécie sucedendo a outra em progressão contínua. No entanto, os dados obtidos na África Central apontam para um cenário bem mais complexo. As novas evidências sugerem a existência de um “mosaico evolutivo”, no qual diferentes populações humanas coexistiram simultaneamente, adaptando-se a ambientes variados e desenvolvendo soluções próprias para garantir sua sobrevivência.
Essa visão também desafia outro pressuposto: o de que as florestas equatoriais só foram ocupadas tardiamente. “Agora sabemos que nossos ancestrais estavam presentes nessas regiões há dezenas de milhares de anos — e com sucesso”, afirma Antonio Rosas.
Um novo capítulo a ser desvendado
Em julho de 2025, terá início a 12ª campanha de escavações na Guiné Equatorial. A equipe pretende refinar as datas obtidas até agora e responder a perguntas ainda em aberto, como a origem exata dos grupos humanos que ocuparam a região. Eles seriam descendentes de populações locais estabelecidas há mais de 250 mil anos? Ou teriam vindo do leste da África durante uma grande expansão demográfica há cerca de 70 mil anos?
As investigações continuarão em colaboração com instituições locais, como o Instituto Nacional de Desenvolvimento Florestal (INDEFOR-AP) e a Universidade Nacional da Guiné Equatorial. O objetivo é ampliar o conhecimento sobre um dos capítulos mais esquecidos — e agora mais bem iluminados — da evolução humana.